CANTO DO BACURI: Subterrâneos da Liberdade

Igreja dos Aflitos

Procurar por lugares do passado, nesta cidade de São Paulo, tem o seu encanto, também perturbações que assombram. É debaixo das construções modernas, que se encontram os resquícios de um tempo, que alguns querem apagar, outros recuperar em defesa de bandeiras sociais de inserção. Não é de hoje que da boca pequena ouve-se rumores a respeito do Bairro da Liberdade. O que ouvi, pela primeira vez, dizia tratar-se de um cemitério, cujas construções atuais, nada revelavam. Um vento frio soprou, alisando a espinha, quando da notícia: rua Galvão Bueno, 48, num terreno para construção de um departamento comercial, foi encontrado ossadas de nove indivíduos. Isso aconteceu em dezembro de 2018. Tudo parou!
Não seria novidade encontrar despojos, cujo terreno fora ocupado pelo Cemitério dos Aflitos. Isso tem importância histórica, sendo este o primeiro na cidade de São Paulo, a abrigar comuns, sendo que os ricos enterravam os seus nos adros – cercanias da igreja. Chamado de Campo Sagrado, os fiéis temiam lugares inapropriados. Não era o caso do Cemitério dos Aflitos, que, segundo as crônicas, destinava-se àqueles à margem dos benefícios dados pela Igreja. Assim, do que chamamos comum, figuravam os marginais, criminosos, soldados estropiados, negros fugidos e os não batizados. Nem judeus e nem protestantes. Os negros convertidos pertenciam à Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, mantidos pelos próprios, cujo função era sepultar e zelar pelo conforto dos seus. Esta irmandade existia desde 1711.
Daquilo que restou do antigo cemitério, ficou a Capela Nossa Senhora dos Aflitos, atualmente aos fundos da rua dos Aflitos, uma travessa da rua dos Estudantes. O terreno em questão foi reconhecido como sítio arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Antes, coube realizar as devidas prospecções, o Departamento de Patrimônio Histórico, do município de São Paulo. Os fundos desta área dão com a ala direita da capela. As obras para a implantação de um memorial, assumidas pela prefeitura deverá terminar até dezembro deste ano.
Existe uma ligação do Cemitério dos Aflitos com a Santa Casa, que provavelmente enviava os enfermos falecidos. A rua que atravessa a rua dos Estudantes, atualmente a rua da Glória, em mapas antigos chamava-se rua da Santa Casa. No mesmo mapa, mostra que no local em que havia o Colégio São José, já foi funcionou a Santa Casa. Também comportou o Asilo da Mendicidade. Entretanto, o cemitério era administrado pela Cúria Metropolitana.
O cemitério que existia desde 1774, deixou de executar as funções em 1858, com a construção do Cemitério da Consolação, cujas terras foram doadas ao município pela Marquesa de Santos. Foi quando, realizou-se a exumação e as ossadas transferidas para o novo local. Notório é que alguma coisa ficou, que constatou naquela descoberta. Com o fim do cemitério, a Igreja Católica colocou as terras à venda durante a expansão da cidade, que apontava para o sul.
A localização do Cemitério dos Aflitos tinha outra função, pois mais acima, ficava a rua da Pólvora, no Morro da Forca, o instrumento de ceifar as vidas dos condenados. Entre os enforcados, muitos negros fugidos, que eram sepultados no local. O que repercutiu mais, foi o enforcamento, registrado em documentos vários, inclusive pela Revista do Instituto Geográfico Brasileiro, do cabo Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, em junho 1821. Este acontecimento aconteceu um ano depois que a Junta de Justiça de São Paulo reimplantou a pena de martírio em forca. Por alguns anos, apesar de existir o local de enforcamento, o seu uso tinha desaparecido, inclusive a própria forca acabou sucumbido ao desaparecimento, carcomido pelo tempo. Relata Afonso Schmidt, em São Paulo de meus amores, que em 1821, por decisão do Senado da Câmara, que a forca fosse reimplantada, “e que a mesma fosse feita de madeira duradoura”.
O motivo da pena de Chaguinhas foi comandar uma revolta em Santos, por salários atrasados e melhores condições de trabalho no 1º. Batalhão de Caçadores. O fato é narrado em cores fortes pelos contadores de histórias, digno de figurar entre as lendas urbanas. Virou, inclusive, um santo popular, sem reconhecimento da Igreja Católica. Os pedidos por uma intervenção são feitos na própria Capela de Nossa Senhora dos Aflitos, numa porta que seria a cela em que foi encerrado Chaguinhas, antes da execução.
O antigo Cemitério dos Aflitos compreendia a atual rua Galvão Bueno, rua dos Estudantes e rua da Glória. No local em que se construirá o Memorial dos Aflitos, também funcionará o Centro de Referência da Memória Negra Paulistana, conforme o pleiteado por aquela comunidade. Justifica-se também de que os negros libertos foram morar no local, região periférica. Mas conforme relata Afonso Schmidt, na obra citada, os negros habitavam a atual rua XV de novembro, chamada então de rua do Rosário dos Homens Pretos, cujos membros pertenciam à irmandade do mesmo nome. Aquela rua foi desapropriada em 1872, inclusive o cemitério dos negros, da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Esta é o que fica atualmente no Largo do Paissandu. A antiga ficava na praça Antonio Prado, desapropriado em 1902 para a construção do Largo do Rosário, depois ocupada pelos atuais edifícios.
Quando se enterra a memória, sempre haverá arqueólogos para desenterrar, historiadores para contar, santos injustiçados para serem louvados, memorais para reverenciar. Confira: uma procissão em setembro, em memória de Chaguinhas, em pleno Bairro Oriental. Este é São Paulo de todas as cores.

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