CANTO DO BACURI: Submissão

De certo, trata-se de um dos livros mais polêmicos lidos por mim nos últimos tempos. Chegou-me Submissão, de Michel Houellebecq, Rio de Janeiro, Alfaguara, 2015. Poderá agradar uns, outros se sentirão incomodados. Uma certeza: perturbador. O seu tema é a distopia, um gênero literário muito presente na atualidade. Seria a distopia o lado obscuro da utopia.
Outras distopias foram escritas como Revolução dos Bichos (1945), de George Orwell e 1984 (1949), também do mesmo autor, depois veio O Senhor das Moscas (1954), de William Golding. Temos outros. A distopia de Houellebecq é mais ameaçador, possivelmente realista demais. Neste livro, o narrador, François, de 44 anos dá aulas de literatura na Sorbonne. O trabalho que alçou a sua carreira em se tornar professor foi sobre Joris Karl Huysmans, autor francês dos anos finais do século XIX. O próprio Houellebecq seria um admirador daquele, igualmente decadentista.
Estamos em 2022, que ainda não chegou. Nas eleições, um impasse toma conta quando a Fraternidade Muçulmana chega ao segundo turno. Do lado oposto estão os partidários de Marine Le Pen, da Frente Nacional. Na tentativa de barrar a extrema-direita, os muçulmanos conseguem o apoio do Partido Socialista e do obscuro centrista UMP. Os muçulmanos referem-se aos imigrantes vindos da África, principalmente das ex-colônias.
Enquanto os sociais-democratas almejam uma Europa unificada, como existe na atualidade, do outro lado, estão a Frente Nacional, chamado no romance de Indígenas da República, que antagonizam diante de uma hegemonia dos imigrantes muçulmanos, investem contra as empresas americanas, avessas à venda do patrimônio nacional a empresas estrangeiras e refratário à influência econômica da Índia e China. Claro, tudo é uma invencionice ficcional de Houellebecq, de postura cínica e irônica em sua produção. Seria este autor conservador em sua postura política? Ou seria um reacionário, com todo o direito de explorar a sua verve criativa em prol do incômodo. Mas de qualquer forma, a sua literatura deve ser considerada.
A publicação de Submissão aconteceu horas depois do ataque dos fanáticos muçulmanos em 7 de janeiro de 2015 à revista Charlie Hebdo. Seria um prenúncio de uma revolta muçulmana? Foi apenas uma coincidência, podemos admitir de maneira menos supersticiosa. Nem podemos desvalorizar a produção de Houellebecq, vencedor do Prêmio Goncourt, de 2010.
A eleição de Mohammed Ben Abbes teve um significado profundo na alma europeia, principalmente francesa. O maior feito histórico do Ocidente seria a vitória de Charles Martel, na Batalha de Poitiers, em 732, quando os mouros foram barrados nos Pirineus. A cristandade estava salva. Desta vez, nada pode impedir o avanço dos muçulmanos. Eleitos, assumiram a direção do país. Menos interessados nos ministérios da fazenda ou da saúde, o novo governo tinha como meta o controle da educação.
Desta forma, um novo modelo cultural seria capaz de transformar a mentalidade dos cidadãos. A educação obrigatória somente até os 12 anos. Cursos universitários somente em instituições particulares. Mesmo durante a conquista dos mouros durante a chamada Guerra Santa, o Jihad, não se obrigava os vencidos na conversão ao islamismo. Entretanto, se muçulmanos tinham melhor acolhida na sociedade. Existiria uma tolerância por parte deles.
Isso não quer dizer que a cultura muçulmana árabe deixasse de prevalecer. Seus valores e imaginário. Nesse momento, os judeus franceses imigrariam para Israel. Quanto aos católicos, era uma questão de adaptação, pois comungavam de um mesmo monoteísmo mosaico.
Mas a França seria apenas o começo. Pleiteava Ben Abbes um sonho maior: ser o presidente da Europa Unificada e Muçulmana. Estamos falando de ficção. Nada disso acontecerá em 2022. Entretanto, seria na mentalidade de alguns, voltados ao passado, capaz de imaginar. Uma Europa menos europeia. Uma França menos francesa, em que a população de muçulmanos atual é de 8,8%. Isso é significativo, mas, consideremos, a história sempre pautou pelas conquistas.
O romance nos aponta, em seu exagero, ou simplesmente ficção, num novo Império Romano a surgir, após a falência dos valores e cultura da Europa. O fim da Ilustração. Será possível? Penso mais numa provocação. Se isso for alcançado, a literatura de Houellebecq obteve o seu objetivo. A literatura é uma mentira que pode nos causar um asco quando deparado com a realidade. Tratemos, no entanto, a literatura apenas como literatura, em sua total liberdade de criação e fazer da realidade uma das versões possíveis.
Certa vez, na aula de história, no segundo grau, fiz uma abordagem: se fosse de outro jeito, como teria sido? Veio direto a advertência: não se pode falar em história em possibilidades outras senão as acontecidas. Todo o resto é ficção. Estamos falando de ficção neste momento.
Numa das colocações do narrador e seus pares é de que haveria uma decadência do Ocidente em sua cultura hegemônica. Quando isso acontece, uma outra aparece, colocando em polvorosa a população. Foi assim com os romanos. É somente uma hipótese que necessita de comprovação, não plausível no momento.
Em relação a Houellebecq, podemos afirmar, trata-se de um enfant terrible da literatura francesa. Assim ele vem sendo definido. É um gênero literário que tem penetração e o autor se presta a colher os seus louros.

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