CANTO DO BACURI: Sovietistão (5) – Uzbequistão

Chegamos neste momento a quinta república, o Uzbequistão, a última, do livro Sovietistão. Uma viagem pelo Turcomenistão, Cazaquistão, Tadjiquistão, Quirguistão e Uzbequistão, de Erika Fatland, Belo Horizonte, Âyiné, 2021. Muito semelhante com as demais repúblicas, mas também com diferenças étnicas, políticas e religiosas. Quando parte da então União Soviética, esta geografia do Ásia Central, por vontade de uma nova ordem mundial, tais diferenças foram dirimidas pela mão pesada de Moscou. Aliás, as fronteiras teriam sido criação de Joseph Stálin, por uma questão técnica, sem que isso pudesse alterar a dependência ao sustentar repúblicas reunidas numa federação. Assim, foi criado o que se chamou Uzbequistão. Mais especificamente, este país era parte do Vale do Fergana, do qual abriga hoje também o Quirguistão e o Tadjiquistão.
Para a autora Erika Fatland, ir pessoalmente a esta região, significava desvendar dúvidas a respeito do que seria realmente a Ásia Central na atualidade, seu desenvolvimento histórico, no que se refere, com ênfase, após a derrocada da União Soviética. Daqueles russos que moravam no país, grande parte retornou, ou mudaram de país. Entre estes, o Cazaquistão, o maior e mais rico da região. Mas ainda restaram um milhão de russos. A própria língua russa, então oficial no país, perdeu hegemonia pela língua uzbeque. Os jovens preferem estudar o inglês, devido a sedução ocidental.
Ainda que tenha se afastado da Rússia, antigos resquícios do regime soviético persistem. Como a escola é pública, todo estudante deve prestar as contas com o governo, ao servir como trabalhador por três anos. Ainda atordoados com o fim da dependência e submissão a Moscou, agora como república autônoma, convivem com um sistema governamental arcaico, ao mesmo tempo que vislumbram um futuro nos moldes liberais. Entretanto, o país é pobre. Sendo que o desemprego atinge principalmente os jovens, que para manter a renda da família, vão trabalhar na Rússia. Pelo que se sabe, há muitos usbeques expatriados, que merecem todo crítica do presidente, chamando-os de “preguiçosos”. Mas não pode negar que 1/5 do Produto Interno Bruto tem como origem o trabalho destes.
Na capital Andijan, há cerca de 50 mil pequenos empreendedores. Todo este ânimo não é capaz de desacelerar a inflação galopante. Ainda assim, o uzbeque empobrecido tenta criar algum trabalho, talvez como guia de turismo, uma fonte rentável, a dizer: “90% dos carros que rodam em Andijan são fabricados no Uzbequistão”. Tentando recuperar o seu lugar na história, os letreiros existentes são em letras latinas, nada de cirílico do tempo dos russos. Pelas ruas, as roupas ocidentais são as possíveis. Para reforçar a imagem da ocidentalização e de um governo laico, diante da ameaça fundamentalista islâmica, não se aconselha a usar barbas longas, nem as mulheres usam véu na cabeça.
Esta oposição a uma islamização faz parte da política de países como o Uzbequistão, o Turcomenistão e o Cazaquistão. De fato, os dirigentes após a independência são remanescentes de uma hegemonia soviética, ainda presente, um fator de recusa da religião como força política. Isso, em se tratando do Vale de Fergana, o sítio com a maior formação islâmica da Ásia Central. Antes da Revolução de 1917, as mulheres usavam o paranja – túnica que cobria todo o corpo, como véu grosso diante dos olhos, feito de crina de cavalo.
Mas como tudo muda, com avanços e retrocessos, sendo este um fenômeno mundial, no Uzbequistão, a amálgama entre a política e o islamismo tirou o sossego do presidente Islam Karimov. Também dos observadores ocidentais. Em 1998, formou-se o Movimento Islâmico do Uzbequistão. Após os ataques de 11 de setembro em 2001 e da Guerra do Afeganistão, o presidente Karimov fez um acordo lucrativo com os Estados Unidos. Os americanos puderam instalar uma base militar no país. Se, por um lado, o medo da ameaça muçulmana seja um preocupante, o governo de Karimov também oferece perigo: em 2005, houve um massacre na Praça Barbur -morreram 400 a 600 pessoas pelas forças de segurança.
Um olhar para o futuro é tão incerto, que nenhuma projeção seja possível. Mas quando se olha o passado, um sonho aconteceu e que, de repente, veio a vigília. Sobraram escombros. Quando vieram os soviéticos, as mesquitas do Vale de Fergana foram fechadas. A poligamia abolida. O analfabetismo também abolido. Estradas, bibliotecas, hospitais e escolas aconteceram. Igualmente houve desastres e mortes por fome. Existe uma saudade de um passado destruído. Diz o guia de Erika Fatland, “O óleo de cozinha era barato e o pão quase de graça, e uma passagem a Moscou não custava nada”.
Antes do fim da União Soviética, o Uzbequistão, que era o principal fornecedor de algodão de Moscou, a corrupção se tornava motor das relações comerciais, em benefício de políticos locais. O governo soviético de Gorbachev, uma vez descoberto o desastre, destituiu todos os envolvidos, foram julgados e condenados. Mas com a eleição de Islam Karimov, estes antigos dirigentes voltaram a ocupar seus antigos cargos. O que se chamava Comitê Central do Partido, afirma a autora, era um outro nome para o Conselho dos Anciões do clã dominante.
O Uzbequistão teve o seu apogeu, atualmente amarga a indefinição. Terra de conquista e destruição de Alexandre, o Grande, de Genghis Khan, do esplendor da Rota da Seda, o sexto maior produtor de algodão, tem petróleo e gás em abundância. O que será deste país? O que será do mundo?

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