CANTO DO BACURI: Sovietistão (4) Quirguistão

(Crédito Pinterest)

Chegamos à quarta república daqueles cinco países, que fazia parte da então União Soviética, o Quirguistão. O livro em referência é Soviestistão. Uma viagem pelo Turcomenistão, Cazaquistão, Tadjiquistão, Quirguistão e Uzbequistão, de Erika Fatland, Belo Horizonte, Âyiné, 2021. Esta viagem trata em verificar o que seria a política local, após o desaparecimento da União Soviética, da qual fazia parte, a cultura, a história e o povo. Fica a pergunta, onde está afinal este país? Claro, localiza-se na Ásia Central, que muitos simplesmente ignoram. Nada nos noticiários. Nenhuma citação a respeito.
Parece um lugar algum, distanciado dos mapas, quase perdido, com nome estranho. Mas quando se lê, o curioso observa a repetição do sufixo Istão, em todos eles. É como fosse tudo muito parecido. Bem, aquela região teria sido um território de povos primitivos e nômades, que os russos chamavam de Turquestão até 1924, sem diferenciar a autonomia das diversas formações étnicas e culturais. O que os tornava similares era a língua, conforme se entendia, de origem turca. Local de muitos cruzamentos étnicos, viajantes e mercadores da Rota da Seda. De qualquer forma, num certo momento, aquele caldo cultural, por uma decisão de Moscou, que resolveu criar fronteiras menos políticas e apenas formais.
Por séculos, a dominação numa hegemonia russa, antes dos soviéticos, teve um fim em 1991, com a independência. Estavam desta forma, ter que se virar por si. Os russos se foram, por isso, nada restava do que inventar um país que não conhecera antes as fronteiras nacionais. Existia, o sentimento nacional de um povo: quirguiz. Daquelas repúblicas, esta é a mais democrática, adotando o parlamentarismo. Mas existe um presidente, que deve se submeter ao Parlamento. Pode-se criticar o presidente e os políticos, sem ser perseguido. A imprensa também é livre.
Também o Quirguistão é o menor daquelas repúblicas, fazendo fronteira com o Cazaquistão ao norte, a China ao leste e Tadjiquistão ao sul. Sua capital é Bishkek, em que a influência russa é ainda presente nas ruas. Mas também há lugares intocadas, fazendo Bishkek retornar a séculos. Nestes locais, as ruas são escuras e sombrias. Mas também há avenidas largas, com calçamento nas ruas, lembranças da subvenção soviética. Aliás, depois da independência, e mudança de regime político, a estátua de Lênin mudou de lugar. Foi levada para atrás do Museu Nacional, mais discreto, e adequado nos tempos atuais. A culinária russa, então hegemônica, perdeu lugar para o sushi bar, mais internacional e sofisticada aos moldes capitalistas.
Em 1990 houve eleições livres, quando Askar Akayev, o candidato único, foi eleito. Havia outros partidos que disputaram cadeiras na Assembleia. Akayev fora antes parte do Soviete Supremo da República Soviética do Quirguistão desde 1987. Era um velho conhecido dos quirguizes. Na campanha, defendeu a democracia e o mercado livre. Entretanto, no governo a situação piorou quando a inflação tirou a comida dos pratos. Não existia mais a injeção de capital vindo de Moscou, quando os subsídios chegavam a três quartos do orçamento do país. Em 2005, ao tentar o quarto mandato, a população revoltada invadiu o palácio e o presidente Akayev pediu asilo à Rússia.
Tal fato ficou conhecido por Revolução das Tulipas. Havia corrupção no governo, pois documentos revelaram que um assento no parlamento valia 30 mil dólares e um cargo como embaixador num país ocidental 200 mil dólares. Quando veio o segundo presidente eleito, Kurmanbek Bakiev, a inflação permanecia, sem falar no nepotismo, motivo para a sua deposição. Este recebeu o asilo na Bielorussia.
Da mesma forma que a Tadjiquistão, grande parte da renda é garantida pelos jovens que vão a trabalho na Rússia. Muitos são os que deixam o país por este motivo. No caso, um médico recebe um salário de 100 dólares por mês, muito baixo, mas razoável no Quirguistão. O mesmo médico ganharia 1.500 dólares se fosse exercer o ofício em Moscou. Poderia se falar em saudosismo, quando da dependência com os russos. Atualmente em torno de 700 mil quirguizes imigraram para aquele país. Pois o desemprego e a pobreza aumentaram.
Para piorar, não existe mais programas de vacinação. Não somente neste país, nos outros da Ásia Central, o aumento da incidência de tuberculose tornou-se um fato real e preocupante após a derrocada soviética, deixa claro Erika Fatland. Do que restou ainda daqueles dias: no outono todos são convocados para a colheita do algodão. Engrossam a fileira médicos, professores, enfermeiros, funcionários públicos e outros. Mas existe uma diferença: nos tempos idos, havia a ajuda de maquinários trazidos pelos russos. Agora, a colheita é manual. Para tornar a situação mais lamentável, os catadores devem suprir suas necessidades como alimentação e pouso com recursos próprios.
Países da Ásia Central como o Quirguistão sofrem com o problema étnico constante. No próprio país, em 1999, houve conflitos entre os quirguizes e os usbeques pela hegemonia econômica. Os usbeques são em grande parte artesões e comerciantes. São mais bem sucedidos que os quirguizes. Naquele ano, as lojas dos usbeques foram depredadas em Jalalabad. Em três dias, mais de 300 pessoas foram mortas e 1.200 feridas. A relação das cinco repúblicas é tensa entre si. Mas se aproximam cada vez mais de Moscou. Por isso se fala em viabilizar a União Econômica da Eurásia, com Moscou na liderança política e econômica. Seria esta uma solução? Só a história para nos contar. A história é sempre contada depois dos fatos.

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