CANTO DO BACURI: Sovietistão (3) – Tadjiquistão

Daquela obra, Soviestistão. Uma viagem pelo Turcomenistão, Cazaquistão, Tadjiquistão, Quirguistão e Uzbequistão, de Erika Fatland, Belo Horizonte, Âyiné, 2021, o artigo é sobre o Tadjiquistão. Ressalto que o assunto me interessa, sendo este o motivo de ter lido. Igualmente, a autora teria motivos para a sua produção. Pode-se colocar como uma literatura de viagens, no caso dela como antropóloga. Assim, nenhuma produção literária é isenta de propósito. Por outro lado, poderia se questionar: o que tenho a ver com o Tadjiquistão? São vários os motivos. Aponto dois: o que seria este país da Ásia Central, também, como estão as repúblicas, antes sob o domínio soviético.
Ignorar como um ponto fora da reta, não ajuda muito. As reflexões são da própria autora, que enumera aquilo que possa ser relevante. Das antigas repúblicas, o Tadjiquistão é o mais pobre, sem petróleo e gás. Mas sempre, existe um valor a ser citado. Assim, a capital Duchambe, diz possuir o mastro de bandeira mais alta do mundo. Tem 165 metros. Existia uma concorrência naqueles países, de quem detinha o recorde da torre mais alta. A concorrência começou com Abu Dhabi, com uma de 123 metros, ultrapassado pela torre da Jordânia, de 127 metros, mais tarde Azerbaijão, de 162 metros. Assim, o Tadjiquistão não podia ficar atrás. Recentemente, a Arábia Saudita inaugurou a torre de 171 metros, superando todas as demais.
Das capitais visitadas, Duchambe é a mais bela, a mais representativa do período soviético, com suas ruas largas, de alamedas, com uma pista lateral para os ciclistas. As casas em tom pastel, foram construídas no estilo neo-clássico. Pelas ruas, os carros são do tipo BMW e Mercedes-Benz. Entretanto, é o país mais pobre. A população da capital é de 700 mil habitantes. Diferente dos cazaques e turcomenos, o tadjique é um povo persa.
Quando da vinda dos russos, Duchambe não passava de um vilarejo com menos de 3 mil habitantes. Foi justamente entre 1929 a 1961, de maior desenvolvimento, sob a batuta da dominação soviética, chamada de Stalinabad. Mas o novo governo vem reforçando a sua imagem. Está para ser construída a maior mesquita de toda Ásia Central, capaz de acomodar 150 mil fiéis. Parte do custo será pago pelo emir do Catar, mas desconhece-se de onde virá o restante. Considere-se que a população ganha menos de 80 dólares por mês. Por isso, entre 1 a 2 milhões de tadjiques viajam a trabalho para a Rússia. A metade do Produto Interno Bruto é provenientes desta fonte. Os jovens que desejam comprar casa própria, assim que casam e engravidam as esposas, dirigem-se para lá.
O atual presidente, Emomali Rahmon, foi eleito em 1994 e não pretende largar o poder. Tem sete filhas, sendo uma delas a vice-primeira ministra das Relações Exteriores, enquanto o primogênito é o chefe da alfândega. Atualmente a situação acalmou. Após a retirada dos soviéticos, houve eleição. Vários partidos concorreram, como o Democrata e o Partido do Renascimento Islâmico. O candidato do Partido Comunista do Tadjiquistão, Rahmon Nabiyev venceu. Houve a guerra civil após Nabiyev perseguir seus adversários. Houve uma debandada deles, que dirigiram-se ao Afeganistão, onde obtiveram o apoio do grupo Talibã. A situação foi contornada em 1997, quando Nabiyev negociou com os representantes do islamismo 30 por cento das cadeiras no parlamento.
Cada vez mais, o segundo presidente, Emomoli Rahmon, tem obtido o apoio popular, que castigado pela guerra civil, deseja a paz. O próprio Rahmon, antes tratado por Rahmonnov, preferiu a designação tadjique Rahmon, ou seja, “o misericordioso”. Não apenas isso. Ele vem sendo tratado por Janobi Oli, o mesmo que Sua Alteza.
Riquezas de um lado, do outro, bem maior é a pobreza campeando livre pelas montanhas. O Estado não consegue suprir a população das vacinas infantis básicas e a eletricidade é insuficiente durante o inverno. Das estradas que existem, são oriundos da União Soviética. Perdidos neste mundo, no vale do Yaghnob estão os da etnia yaghnob, descendentes dos sogdianos, antigas nações que habitavam o Tadjiquistão e o Uzbequistão. Seriam eles que professavam a religião zoroastriana, que existiu 1000 anos a.C. na Pérsia. Hoje se dizem islamizados, nem sempre uma verdade.
O atual presidente Rahmon embora se considere um muçulmano sunita, teme pela influência dos países vizinhos, de política fundamentalista. Por isso, proibiu o uso do hijab em escolas e universidades. Os homens não devem usar barbas compridas e os professores barba alguma. Em 2007 mandou fechar 80% das mesquitas e transformando em prédios laicos. Ele vem defendendo uma origem tadjique pré-islâmica, remetendo à cultura zoroastriana.
Países como o Tadjiquistão foram locais de disputa em séculos passados, quando as fronteiras não existiam. Foi o sítio desejado dos tempos de Pedro – O Grande, da Rússia (XVIII), como também da Inglaterra (XIX). Antes disso, terras que faziam parte da Rota da Seda, desde 600 a.C. ligando a China ao Ocidente, passando pela Ásia Central. O que se vê hoje é o contrabando de cigarro e ópio. Na capital, vendas de DVDs piratas e celulares usados. País pobre, 90% do território é de montanhas. Na cidade de Balunkul, considerada a mais fria do país, a temperatura baixa para 53ºC negativos. Ainda assim, o país atrai turistas, a serem levados para a vida campestre parada no tempo.

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