CANTO DO BACURI: Sovietistão (1) – Turcomenistão

Ashgabat: a cidade de mármore

Quando li a apresentação de Sovietistão – Uma viagem pelo Turcomenistão, Cazaquistão, Tadjiquistão, Quirguistão e Uzbequistão, numa revista dirigida a literatura, logo me despertou interesse. O livro tem por autoria Erika Fatland, uma antropóloga social, de origem norueguesa. A publicação é da Âyiné, 2021, Belo Horizonte. Não foi de minha parte questão de curiosidade, mais do que isso. Aqueles países sempre despertaram-me um certo incômodo, um mistério, um enigma a ser desvendado. Trata-se de nações da Ásia Central, por décadas parte da extinta União Soviética.
Com o desmantelamento da URSS em 1991, outros caminhos seriam trilhados, agora, com próprios recursos e independentes. O primeiro país a ser visitado pela autora foi o Turcomenistão. Trataremos apenas deste no artigo presente. Chega-se à capital Ashgabat a partir de Istanbul pela Turkish Airlines. A impressão, conforme relata, ao chegar na capital, é como fosse Dubai. Muitas são as construções, com monumentos e estátuas do novo presidente, Gurbanguly Berdirmuhamedov, um dentista com doutorado em Moscou. Não apenas ele, mas também do antigo presidente, Saparmyrat Nyýazow, conhecido mais por Türkmenbasi – “o pai de todos os turcomenos”. Com o fim do domínio soviético, substituíram as estátuas de Lênin e Marx por estes heróis nacionais.
Nada do que se conhece no Ocidente pode ser referência no que acontece no Turcomenistão. A capital é magnífica, edifício modernos se erguem com a contratação de construtoras francesas e turcas. Há muito mármore carrara, seja nas mesquitas, seja nos prédios do governo. Para não ficar atrás, pode-se afirmar que o país tem a maior roda-gigante em área coberta do mundo, numa estrutura de vidro de 46,7 metros de altura. Talvez isso não tenha importância, o que não acontece ao saber de que o Turcomenistão tem em abundância petróleo e gás natural.
A população é em torno de 65 milhões. Desde 1881 esteve sob o jugo do Império Russo, depois, em 1924, como parte da União Soviética. O que se tornou o país após a separação do domínio russo (URSS) é a pergunta que fazemos. Este é um assunto importante para se entender o mundo de hoje. Acreditava-se de que durante a Guerra Fria, capitalismo e socialismo, Estados Unidos e União Soviética, de que se o Ocidente vencesse, uma nova era surgiria nos países libertos da influência do socialismo real. O Ocidente derrotou o mal do socialismo. E agora?
Saber o que aconteceu na Turcomenistão é deparar de que forma a História deu prosseguimento. De fato, nada mudou muito, por não ter que dizer que piorou. É um fato. Aquele país formado por nômades, criadores de camelo, em tribos, não estavam preparados para os desafios do moderno capitalismo. O sonho soviético de uma grande nação, independente da religião, também da língua e etnia, em que faziam parte inúmeras nações teve períodos prósperos e a derrocada. Se como partes dos países soviéticos, estradas foram construídas, a educação foi incrementada, a cultura disseminada, com o primeiro presidente Türkmenbasi, num retorno às origens do país, numa campanha nacionalista popular, o balé, o circo, de influência eslava deixaram de ter vez. As ciências humanas e exatas também foram menosprezadas.
Assim, a cultura muçulmana ganhou espaço, junto ao culto do presidente. De certo, um presidente que fosse vitalício. Esta questão foi reforçada no refrão: um povo, uma pátria e um Türkmenbasi. A leitura recomendada, além do sagrado Alcorão, foi o Ruhnama, em dois volumes, escrito pelo próprio Türkmenbasi. Seria este um compêndio histórico com manual de etiqueta e cultura. Do resto, nada mais interessava. Se a alfabetização foi uma conquista anterior, todos entendiam russo, agora, nem mais a escrita cirílica sobreviveu, ao ser substituída pela forma latina. O sistema de saúde também desapareceu.
Por outro lado, havia algo que compensasse: gratuidade em eletricidade, gás, gasolina e sal de cozinha. Não se pagava também impostos. Entretanto, o desemprego fica em torno de 70%. Grande parte da população vive na zona rural, como os seus ancestrais. Dos que trabalham, estão nas cidades. O próprio presidente é o proprietário das principais e únicas empresas de importância. Mas ninguém reclama. Afinal, ele é o Türkmenbasi. A foto dele está espalhada em todos os cantos do país, olhando com seus olhos meigos, de um pai protetor, que zela pelos seus filhos. Nada do Ocidente agrada muito, como as redes sociais.
Entretanto existe interesse do país em se tornar ponto de atração turística. Hotéis de grande envergadura estão sendo construídos. A passagem é barata no país, inclusive nas viagens aéreas. Existem agências de viagem local, que leva o turista nos pontos de interesse. Um destes lugares é Azawa, em que pretende construir trinta hotéis. A diária é de 20 dólares. Outros lugares são possíveis, como Mary, antiga cidade do século XII, da dinastia Seljúcida. Claro, sempre com um funcionário da agência, que serve de tradutor. Quanto a língua falada e entendível é o russo como padrão internacional. Numa viagem, pode-se visitar as aldeias e acampamentos e participar das refeições. O povo simples é aprazível.
Partes do mundo, quase fora do mapa do nosso conhecimento, de cultura diversa, e religião, nunca puderam acompanhar o desenvolvimento da nossa cultura ocidental e conhecida. De qualquer forma, fazem parte do mundo. Não temos que ignorá-las, pelo contrário. A história não é a mesma em partes diferentes da geografia. Simplesmente ver estes países com olhos críticos do Ocidente talvez seja precipitado. São outros olhos que devem se abrir, pois o diferente não é ruim, é apenas diferente.

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