CANTO DO BACURI: Soviestistão (2) – Cazaquistão

Retomo neste artigo a segunda república apresentada no livro Soviestistão. Uma viagem pelo Turcomenistão, Cazaquistão, Tadjiquistão, Quirguistão e Uzbequistão, de Erika Fatland, Belo Horizonte, Âyné, 2021. Trata-se da viagem àqueles países, surgidos após o colapso da União Soviética, em 1991. Dos desmembrados estavam os da Ásia Central, de culturas exóticas, religião muçulmana, no meio da hegemonia cultural e política da Rússia, mas também vizinho do Afeganistão e Irã. Algo bastante peculiar, quase que, totalmente desconhecido da geografia mundial. É como não existissem ou fizessem parte de um outro mundo. O que tinham em comum era a sufixo “istão”, de Cazaquistão, designando a terra dos cazaques.
Se num primeiro momento, possam se assemelhar, existem diferenças. O povo turcomeno, do Turcomenistão é de pele branca enquanto os cazaques são amarelos, como os mongóis. Daquelas ex-repúblicas soviéticas, o Cazaquistão é o maior em extensão. É o 9º. país do mundo em tamanho, com 2.724.900 quilômetros quadrados. Representava 12% de toda a União Soviética. A seu favor também, conforme a Transparency International, é o menos corrupto deles. Entretanto, a pouca corrupção não quer dizer que o sistema governamental seja de uma democracia liberal, como poderia se supor com o fim do socialismo. O fim de um tipo de governo, sob a tutela de Moscou, não garantiu uma democracia nos moldes ocidentais. Nunca isso haveria de ocorrer, pois se trata de culturas diferentes e histórias dissemelhantes.
Assim, o presidente Nursultan Nazarbaev ao ser designado presidente do Cazaquistão independente, em 1991, permaneceu no poder até 2019, quando renunciou. Antes tinha sido membro do Partido Comunista do Cazaquistão, em que fez carreira, até ser apontado para a presidência em 1989 por Mikhail Gorbachov, então presidente da União Soviética. Com o fim do regime, os russos se foram, mas os antigos dirigentes cazaques ficaram. Puderam desta forma usufruir da produção do petróleo e gás, sendo também a maior economia da Ásia Central.
Diferentemente do Turcomenistão, o Cazaquistão se pretende uma república leiga, distante do fundamentalismo religioso, dos vizinhos. Com a derrocada soviética, o que restou? Eis uma pergunta que fica enroscada na garganta. Aquele sonho soviético, de uma grande pátria, com desenvolvimento econômico e sem fronteiras não passou de um sonho -dito com ênfase. De um dia para outro, nada mais existia. Num discurso do Presidente russo, Vladimir Putin, em 2005, na Assembleia Nacional, chamou o colapso da União Soviética no maior desastre geopolítico do século XX.
Aquelas terras selvagens da Ásia Central, a leste de Moscou, mais para o sudoeste, era formado por povos nômades, criadores de cavalos. Antes da vinda dos russos, nada tinham além de sua cultura equestre, vivendo em iurtas, sem escolas, literatura e um alfabeto. Independentes, o Cazaquistão se aproxima cada vez mais de Moscou, como uma forma de superar as suas dificuldades. A capital, antes Almaty, fronteira com a China e o Quirguistão, mudou-se longe, 970 quilômetros, para Astana. Lugar de clima inóspito, chega a baixar para 40 graus negativos durante o inverno. No entanto, a sua população é formada em 60% por russos.
Em Astana um dos marcos da nova era é a torre de 97 metros de altura, assinado pelo arquiteto inglês Norman Foster. Esta altura tem um valor simbólico: Astana tornou-se capital em 1997. Na Torre Bayterek fica uma mesa redonda de malaquita. Sobre ela, uma placa de prata pesando 5 quilos. Foi nesta placa que o presidente Nazarbaev teria posto as suas digitais. Conforme sugere a guia de turismo, quem fizer o mesmo, colocando a sua palma na placa, pode realizar desejos. Claro, neste momento, deve fechar os olhos e vibrar boas energias para o presidente. Se isso acontecer, o pedido será realizado. No momento da publicação deste livro pela autora, ainda era Nazarbaev o presidente.
Enquanto os nacionalismos criam fronteiras, o fim da União Soviética, também possibilitou a independência, mas igualmente a divisão. Existe a União Europeia como forma de enfrentar os dilemas econômicos de cooperação e concorrência. Também foi pensado e posto em execução em 2015 a União Econômica Eurasiática, do qual faz parte a Rússia, a Bieolorússia, o Cazaquistão, a Armênia e o Quirguistão. A Moldávia é um país observador e o Tadjiquistão espera por ingresso em breve.
O crescimento do produto interno bruto do Cazaquistão é em torno de 5 a 10 por cento por ano, desde o ano de 2000.
Dos anos de apogeu e queda, só as lembranças ficaram na memória, que pouco a pouco começa a desvanecer-se. O Cazaquistão foi o lugar de desterro de Dostoiéviski, que serviu como soldado. Também Stálin experimentou a instalação de um modelo de economia de fazendas coletivas denominadas colcozes. Muitos deslocamentos foram postos em execução, pois a política era de tornar o Cazaquistão no celeiro da União Soviética. Houve um momento em que havia um rebanho de 200 mil ovinos e 30 mil caprinos. Isso sem falar que a nação abrigou os gulags, em que os indesejados ao regime eram conduzidos. Entre os opositores, figuravam artistas, intelectuais e cientistas.
De qualquer forma, o passado também suscita saudade. Com a saída dos russos, o desemprego se tornou um problema sério. Um ex-coronel que lutou no Afeganistão e na Tchetchenia disse que precisa de cinco empregos para pagar as contas. São mudanças. O não mudou foi a mulher xamã que comunica com os espíritos e ao mesmo tempo se diz ser muçulmana.

Comentários
Loading...