CANTO DO BACURI: Senhor das Moscas

Nós escolhemos os livros que pretendemos ler. Compramos e quando chegamos em casa, satisfeito com o livro, por algum motivo, deixamos na estante. Vou ler, em momento oportuno, justificamos. Nesse caso, penso que a leitura tem muito a ver com o momento vivido. Se o momento atual for propício, então a leitura pode acontecer. Isso tem ocorrido muito comigo. Somente em caso de livro emprestado, como temos um prazo para a leitura e a devolução, a leitura acaba acontecendo mais breve. Principalmente, quando temos muito tempo em casa, para o amante da leitura, nenhum momento pode ser desperdiçado. Por isso, o livro lido foi Senhor das Moscas, de William Golding, de 2019, pela Alfaguara, mas com direitos reservados da Companhia das Letras.
Este livro é de 1954, em sua primeira edição inglesa. Dois filmes teriam sido realizados tendo por base o romance: 1963 e 1990. Assisti tempos atrás ao filme de 1990. Portanto, sabia do que se tratava. Mas para quem gosta da leitura, nenhum filme é capaz de superar o deleite da solidão provocada pelos olhos e mentes durante a leitura. De fato, o livro impressiona e mexe com a nossa sensibilidade estética e crítica. Tudo se passa numa ilha do Pacífico, quando uma nave inglesa cai, cujos sobreviventes são crianças de até 12 anos. Os outros são menores ainda, de 6 anos. Em condições reais, todos, em torno de dez ou mais, não se sabe direito, pereceriam diante das condições adversas. Vamos fazer de conta, como isso fosse possível. O que fariam as crianças nestas condições?
Estar numa ilha perdida, sem contato algum com a civilização, no caso destas crianças, longe do convívio dos adultos, como agiriam? Esta é a questão que o autor William Golding lança diante de nós. Outros romances teriam explorado esta condição, como Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, publicado no início do século XVIII e também Jules Verne, com A Ilha Misteriosa, no final do século XIX.
Em se tratando de Senhor das Moscas, diferente dos acima citados, os personagens são crianças. E como crianças poderiam se esbaldar em brincadeiras, totalmente livres das admoestações dos adultos. Mas é justamente isso que acontece. No começo, ainda presos a padrões de comportamento em que foram educados, uma ordem é estabelecida. Aqueles meninos eram alunos de uma escola militar. Mas independente disso, são ingleses. Por mais de uma vez, confirmam “somos ingleses”. Isso quer dizer, para eles, não há nada superior, de uma cultura elevada, defensora da democracia, a mais avançada existente, portanto o que de melhor existe na civilização.
Um dos meninos, Ralph assume como líder, por aclamação. Ninguém se opõe, apesar de despertar ciúmes em alguns, principalmente a Jack. Este último seria o chefe de um coral, que comportava outros meninos cantores. Ele poderia ser o chefe, o que não acaba acontecendo. Devido ao calor, logo as roupas militares são abandonadas, deixando todos iguais. Mas o líder se manifesta num sistema de democracia direta, como a dos gregos atenienses. Cada um pode falar ao ter a posse de um caracol, que servia também para ser soprada e anunciar uma assembleia.
Com o passar do tempo, o grupo vai se desfazendo em dois: os que defendem uma fogueira como sinal de sobrevivência para navios e aviões, e outros que defendem a caça de porcos selvagens para a alimentação. Cada vez mais a civilização é abandonada em favor da barbárie. Os caçadores desenvolvem uma força inconsciente, primitiva, de violência no arrebate dos animais. Esta situação se complica quando surge o medo. Os meninos menores começam a dizer de que existe um fantasma na ilha ou algum ser do mal, quem sabe um monstro, capaz de liquidar a todos. Não se acredita em monstros. Mas esta situação se inverte, pois um monstro deveria haver para que o grupo de caçadores se arme, prontos para a contenda.
Os cabelos estão compridos, pelos ombros, as roupas não existem mais, somente trapos, enquanto os caçadores pintam o rosto, a maneira das tribos selvagens, realizam ritos de enfrentamento, quando um paroxismo toma conta, e todos são conduzidos num mundo irreal. Aqueles meninos são ingleses. Ao invés das reuniões democráticas, preferem o autoritarismo de um líder sedento de sangue. O que eles querem é caçar porcos, com suas lanças de pontas endurecidas no fogo.
Quem não passa para o grupo dos caçadores são vistos como inimigos. Se assim for, devem ser caçados como os porcos. A força das lanças dá preferência ao fogo. A alimentação deve ser de carne ensanguentada, ganhando a preferência às frutas. Tudo se passa como fosse uma brincadeira de meninos. Até a morte de alguns faz parte desta brincadeira. Mas aquele jogo estava indo longe demais, nas raias da irracionalidade, o êxtase das convulsões populares, das armas colocadas como referência de poder e ordem. Haja visto, todos eram meninos ingleses.
Postos em condições extremas, o que o ser humano poderá fazer? É o espaço da loucura e da violência. Todo senso comum perde a validade. O “Senhor das Moscas” refere-se a um demônio como aparece na tradição judaica. Naquela ilha uma oferenda fora realizada ao monstro, oferecendo a cabeça de um porco. Aquela cabeça atraia as moscas. Mas acima de tudo, o “Senhor das Moscas” poderia não se referir a um elemento exterior, talvez um demônio. Bem pelo contrário, estava presente na alma do próprio homem, que bastava um impasse para se revelar.

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