CANTO DO BACURI: Seis contos da era do jazz

Alguns livros nos chegam, seja da banca da livraria, da prateleira de um sebo, na procura pela rede social ou, ainda, de empréstimo de alguém. Penso que os livros que lemos têm uma história em sua aquisição. Este a que farei referência neste artigo é Seis contos da era do jazz e outras histórias, de F. Scott Fitzgerald, da Editora José Olympio, de 2009, Rio de Janeiro. Há muito queria ler este autor. O seu trabalho bastante conhecido foi O curioso caso de Benjamin Button, levado ao cinema em 2008, dirigido por David Fincher. Brad Pitt ganhou o papel principal. Ele é o autor igualmente de O Grande Gatsby, de 1925.
Em particular, este livro, adquiri de um sebo de rua, no Bairro da Bela Vista, em São Paulo. Sempre que passo pela Conselheiro Carrão, quase no cruzamento da Rua Rui Barbosa, no lado esquerdo, fica a banca que consiste em duas prateleiras presas com parafusos na parede. O dono da banca fica sempre arrumando os livros. O preço é sempre o mesmo: 5 reais. Mais de uma vez, ele me deu desconto, devolvendo-me de troco 2 reais.
Vamos ao assunto que interessa. O autor deste livro, F. Scott Fitzgerald faz parte da geração dos anos 20, sendo esta obra publicada inicialmente em 1920, que o autor denomina de era do jazz. Entende-se por isso, a cultura de grande efervescência de influência musical negra, dos Estados do sul. Terminada a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos passaram a ditar uma moda, uma referência para os jovens de que deviam usufruir das benesses do capitalismo, como gastança e fartura. Escritores como F. Scott Fitzgerald não puderam escapar deste mundo em que a pobreza seria página virada. A literatura produzida era consumida pelos jornais, pois vendia-se muito. Com o dinheiro das vendas, vivia-se em permanente luxo, com roupas caras, bebidas importadas e viagens. Tudo se gastava e quando a escassez vinha, novos textos que eram solicitadas pelos jornais editoras rendiam o suficiente para que a vida continuasse a repetir os exageros.
Em Seis contos da era do jazz e outras histórias, F. Scott Fitzgerald revela o padrão da classe média, aquilo que sustentava a economia americana, seja no consumo de carros e eletrodomésticos, como na expectativa de se criar uma ideia de satisfação. Tudo o que se buscava era manter um padrão, que se mostrava desastroso. Nem tudo acontecia como se fosse um modelo pronto, como a argila posto na forma para secar. Se assim fosse, para que existiria a literatura? Devido as contradições da vida, entre acertos e muitos erros, a existência humana teria vez.
Não é uma questão de analisar ou tecer considerações de cada conto deste livro. Mas por outro lado, alguns destes nos deixaram forte impressão. Sempre temos as nossas preferências. De certo, o mais intrigante destes contos, com seu lado irônico, é O curioso caso de Benjamin Button. Quem assistiu ao filme sabe do que se trata. Mas podem conferir a leitura, diretamente do seu autor. Na literatura, tudo que lemos acaba sendo construído em nossa mente, que igualmente cria e recria paisagens e feições. Como aquilo poderia acontecer? É uma questão que a literatura não responde, apenas nos possibilita pensar a respeito. Um velho Benjamin Button nasce e vai sofrendo um processo de rejuvenescimento progressivo, passando da velhice para o estado adulto, contrai matrimônio e cada vez mais novo, enquanto a esposa fica cada vez mais velha e desinteressante. É como que num movimento inverso, que repete o mesmo padrão, fosse este o motor da história. Na verdade, nada mudou tanto assim.
Existe um conto de humor. Chama-se As costas do camelo. Ao ser convidado para uma festa a fantasia, Perry Parkhurst, um advogado de 28 anos, de Ohio, aluga um camelo. Quer dizer, a fantasia de um camelo. Mas exige que um outro compartilhe a parte da trás. Convence um taxista, oferecendo-lhe dinheiro, que assim aceita o serviço. Naquela sociedade, basta pagar para que tudo se arranje. Assim agem os liberais da classe média, sejam advogados, sejam juízes ou contadores. Nada existe de imoral em pagar pelos serviços, qualquer natureza que eles sejam. Trata-se apenas de um trabalho. A situação é cômica, se não fosse trágica.
De certa forma, todos querem se dar bem naquela sociedade, conforme a dinâmica do sucesso e crescimento econômico dos anos 20. Em meio ao cinismo e indiferença, também algo de bom podia acontecer. Não se pode negar isso. É do conto Sangue ardente, sangue quente que avaliamos a conduta inesperada de Jack Mather. Era alguém que lutava para melhorar de vida, por isso trabalhava duro. Nem por isso, deixava de ajudar a quem pedisse dinheiro emprestado, o que desagradava a esposa. Não era apenas uma vez, mas muitas vezes. Se Jack era tão bom assim, dizia a esposa, poderia se passar também por trouxa. Ele próprio passou a desconfiar disso, de sua própria índole. A sua atitude compassiva seria motivo de críticas: uma vaidade?
Estes personagens de F. Scott Fitzgerald seriam partes dele mesmo. Enquanto viveu, o autor não deixou de interpretar o seu principal papel: ser ele. Morreu cedo, em 1940, aos 44 anos. A fim de manter um padrão de vida, todos os recursos criativos foram explorados, não só na produção de literatura propriamente dita, mas também em Hollywood, nos roteiros e adaptações.
Se os anos 20 foram de comportamentos exagerados, de quem podia, o fim estava próximo. Em 1929 veio a queda da Bolsa de Valores de Nova York e assim, o país entraria na fase de maior crise econômica jamais visto.

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