CANTO DO BACURI: Querida konbini

Com o título “Querida konbini”, de autoria de Sayaka Murata, da Estação Liberdade, de 2016, já em 3ª. edição, a quem poderia agradar? É popular no Japão, da atual geração de jovens escritores, mergulhados na modernidade e, igualmente, numa letargia de uma sociedade de consumo e padronizada. Não se trata de uma realidade nossa, com as nossas dificuldades econômicas e contradições sociopolíticas. Em países ricos como o Japão, uma outra situação de dificuldades se faz notar, como a falta de expectativa profissional e de realização social. Este drama faz da protagonista de “Querida konbini’, Keiko Furukura uma personagem comum, que, a sua maneira, tenta conquistar o seu espaço de aceitação.
O título em lançamento no Brasil tem como chamativo o termo Querida. Em japonês se chama simplesmente Konbini Ningen, como sendo o sujeito do konbini, este caracterizado como uma loja pequena, que comercializa alimentos, bebidas, em grande parte, mas também miudezas. Onde quer que se vá, existe um konbini, que usa nomes chamativos como Seven & Eleven e Family Mart. Num desses konbini, a Smile Mart, a loja fictícia em que trabalha Keiko Furukura. Nada demais? O que tem de mal em trabalhar numa konbini, como todos os outros? Acontece que Furukura ingressou ainda jovem e está trabalhando naquela loja há exatamente 18 anos, o que pode parecer inusitado.
Em condições normais, o trabalho numa konbini é de curta duração. Por isso, para lá vão os jovens que querem engrossar a poupança que ganham dos pais, imigrantes estrangeiros, senhoras casadas, em trabalhos temporários. Não se ganha muito. Os que trabalham ganham por horas trabalhadas. Seria estranho que Keiko Furukua estivesse trabalhando num konbini por tanto tempo. O que pensariam os outros? Poderia ser visto como alguém fora dos padrões normais. Esta é a problemática da protagonista. Não se casou. Não pôde ingressar numa empresa que pudesse lhe garantir reconhecimento e atingir patamares almejados pelos que pleiteiam o sucesso.
Fora do padrão. Seria isto motivo de alegria e de sofrimento por parte de Furukua. Ao se ingressar numa konbini, o funcionário deve se tornar um igual aos outros da mesma empresa, como fosse uma família, um clã, talvez um feudo, honrando os seus princípios comerciais e agradar a freguesia. Por isso, treinam. Todos os novatos submetem-se a um treinamento: sorrir o tempo todo, não incomodar os fregueses, zelar pela limpeza, deixar visíveis as mercadorias como também a sua reposição. Não apenas isso: atuar como caixa. Desde o começo, o funcionário aprende a vestir o uniforme da empresa. Os mais antigos devem cuidar dos mais novos, ensinando o serviço e dando-lhe apoio.
Assim teria sido a vida de Furukua por dezoito anos. Não entendia de outra coisa, senão os afazeres numa konbini. Mesmo quando retornava para casa, bastante simples, o universo do konbini estava presente em sua mente. Ser parte do konbini tornou-se parte dela, sem nenhum outro desejo. Com 37 anos, sem filhos e sem marido, que perspectivas haveria de ter. Nenhuma. Furukua seria a deslocada de uma sociedade que dita padrões, exige comportamentos, cria valores e cobra um compromisso em relação a estes predicativos. Assim, a novela de Sayaka Murata cria uma tragédia da classe média que se acostumou em enquadrar naquilo que é desejado. É como houvesse apenas um caminho para o sucesso. Os que se encontram fora, poderiam ser vistos como esquisitos. Se os esquisitos são tolerados em determinadas sociedades multiétnicos, os japoneses têm muito que aprender.
Se trabalhar numa konbini por décadas seja estranho, não se encaixar em nenhuma atividade, conforme os padrões exigidos, a situação piora. São os marginalizados. É o que acontece com o personagem Shiraha. Nem para trabalhar numa konbini desperta o interesse dele. Despreza todos os trabalhos e sem motivação alguma, resolve viver como parasita, nos favores de uma mulher. Desta forma, poderá se refugiar de um mundo que o despreza. Mas quem se encaixa em alguma atividade econômica de produção, acaba se moldando a um comportamento esperado. Vestir o uniforme do konbini é ser membro daquele, ainda que seja um a mais num mecanismo que não para de funcionar durante 24 horas. Sempre o konbini está contratando. Há emprego para todos, mesmo os despreparados, que submetidos a um treinamento podem se tornar uma engrenagem útil numa máquina que continuamente deve continuar vendendo.
Como toda boa literatura alimenta-se dos impasses, esta tragédia pela acomodação às exigências, que despersonaliza, inibe emoções; os personagens que vencem os dilemas são justamente aqueles que se adaptam às condições. Tudo isso leva a um mundo do provável, o que torna a vida mais segura, mas igualmente entediante. Que motivos teriam alguns japoneses, também jovens, em se aventurar em países incertos como os da América Latina: o Brasil e o México? A incerteza possivelmente seja bastante atraente para quem vem de lugares excessivamente padronizados.
Toda literatura deve servir para criar um diálogo crítico com o leitor, envolvendo a estética diante das imperfeições humanas em busca de uma felicidade cada vez mais distanciada. Como isso fosse possível.

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