CANTO DO BACURI: Pastoral americana

Se tenho uma predileção em ler determinados romancistas, algo este me acrescenta, seja no campo do conhecimento, seja na estética, também em sua provocação. É o que aconteceu com Philip Roth. Depois de ler obras de teoria, como as que pudessem nortear a construção de uma baliza metodológica, no momento, o tempo dedicado, por circunstâncias apropriadas, foi compensar com romancistas modernos. Entre estes, acabei deparando com Philip Roth. O primeiro a ser apreciado foi O Teatro de Sabbath, de 1995. Desta vez, acabei de ler Pastoral Americana, de 1997. Toda a sua obra tem sido publicada pela Companhia das Letras, São Paulo.
Mas ainda não respondi a pergunta: o que me atraiu em Philip Roth. A cada leitura, novas questões acabam se revelando. Posso conhecer a cultura norte-americana, mais especificamente a produzida por um descendente de imigrantes. O autor em questão é judeu cuja família teria vindo da Polônia. O universo explorado por ele é o de ser imigrante de judeu. Assim, sua literatura é judaica/americana. Desta forma, todos os complexos advindos desta origem formam o painel psicológico deste autor. Saber disso é muito bom.
Em Pastoral Americana o autor usa um narrador, que seria ele mesmo, mas personagem de outros romances, chamado Nathan Zukerman. Este aparece em Complexo de Portnoy, de 1969. Seria isso uma forma do autor criar um personagem, que também é escritor, que narra um romance. Num certo momento, o narrador passa a depender de Zukerman para desenvolver a história. Zukerman era um amigo de Seymor Levov, o personagem deste romance, que representava um modelo americano de filho e neto de imigrantes que se instalaram em Newark, no Estado de New Jersey.
Bem na entrada dos Estados Unidos, na costa leste, muitos eram os imigrantes que se instaram no local. Havia os judeus vindos da Europa, também disputavam espaço os italianos e irlandeses. Muitas eram as línguas faladas, como que a América fosse multilinguista, o país dos sonhos, do enriquecimento e da ordem social e econômica. O personagem Seymor Levov, filho de Lou Levov, neto de outro Levov, foi um típico americano, mais americano do que judeu. A família Levov enriqueceu ao explorar o beneficiamento de couro de cabras. Conheceu a falência de uma indústria de couros com a crise de 1929. O sucesso só veio com a “Artigos de Couro para Senhoras Newark”. Era uma questão de tempo. Poderiam fabricar as melhores luvas de couro de toda América. Fabricaram e enriqueceram-se.
Antes de assumir o posto de chefia na empresa da família, Seymor Levov, conhecido mais como Sueco, é o próprio protótipo de um modelo americano para o sucesso. Nada está errado com o Sueco. Físico avantajado, se dá bem nos esportes. Chega a ingressar nas Forças Navais quase ao fim da Guerra do Pacífico. Ao contrário dele, está o irmão Jerry. Se a psicanálise é uma invenção judaica, tudo se explica. Os irmãos competem entre si e tendo nos pais elementos de castração. Tudo que faz Sueco, Jerry faz ao inverso. Aquele modelo idealizado do herói americano se constrói para depois desmoronar. Nada do sonho americano há de se realizar. Realiza-se até um certo ponto, como o casamento de Sueco com a Miss New Jersey, Mary Dawn Dwyer, a jovem mais cobiçada de todo estado. Quase se tornou Miss América, de 1949. Não bastava ter sucesso, era preciso casar com a mulher mais bela.
As mulheres que se tornam misses parecem fadadas a conhecerem um final desastroso. Como que a beleza fosse a única condição de estarem vivas e em evidência. Este também é um drama. Mas quando nos 70 os jovens se colocaram contra a Guerra do Vietnã e começam a explodir bombas, o sonho americano se torna pesadelo. Um atentado cometido por Merry, a filha cuidada com todo o carinho, amada e educada, mostra a tragédia de um sonho.
Havia algo de errado na sociedade americana, uma ilusão de progresso em função de sacrifício de jovens que iam à guerra, cujos inimigos eram antes totalmente desconhecidos. É o momento da crise. É o momento do romance. Se lido como um fator condicionado a uma época, podemos entender a reflexão que se faz a respeito. Mas podemos ler, independente de uma determinada época. Nesse caso, a crise é da aceitação de um modelo único de felicidade, assim fazer parte do mundo. Mas a crise pode ser vista como mudança necessária para abandonar o marasmo do conforto e medo.
Pastoral americana (1997) faz parte de uma trilogia, junto a Casei com um comunista (1998) e Marca Humana (2000).
O que mais me atrai em Philip Roth é a sua capacidade de provocar uma angústia diante da vida. Nenhuma solução é possível, pois o mundo gira desta forma, sem que ninguém possa controlá-la. A tragédia de Sueco Levov foi justamente por ler uma cartilha e agir conforme estava escrito. Nada que está escrito substitui a experiência com todas as suas mazelas e satisfações. O sonho americano não passa de um sonho. Realizar um sonho pode ser comparado em acreditar no Papai Noel e encontrar-se com ele ou de que os chineses são os grandes vilões do mundo. Eu que acreditava que o maior dos vilões fosse Lex Luthor. Tem outros, que esperam ser nomeados. Precisamos de vilões para justificar a nossa carência afetiva, num mundo cada vez mais sem sentido.

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