CANTO DO BACURI: Os mil outonos de Jacob de Zoet

Muitos livros chegam até nós. Alguns despertam mais atenção do que outros. Não é por acaso o interesse deste leitor por “Os mil outonos de Jacob de Zoet”, de David Mitchell, Companhia das Letras, 2015. De fato, demorei cinco anos para lê-lo. Trata-se de um daqueles perdidos na estante para ser lido depois. Fiz a leitura em cinco dias. Eram 565 páginas, um livro de tamanho médio.
O que chamou a atenção primeiramente foi o tema: Japão e Ocidente. Por alguma razão, a minha fascinação por História, área minha de formação, Dejima sempre causou interesse. Trata-se de uma ilha artificial, localizada na baia de Nagasaki, Japão. Após a expulsão dos mercadores portugueses, jesuítas e católicos convertidos, em 1614, somente em Dejima, holandeses, ingleses e chineses eram permitidos mercanciar. Mas somente os holandeses permaneceram naquela feitoria de Dejima, com administrador local, sob o comando do governador de Batávia, atual Jacarta, na Indonésia.
Mas o que teria acontecido com Dejima, a partir do olhar do forasteiro holandês? Em forma de ficção, o autor inglês David Mitchell vai narrar as façanhas de um suposto administrador, na pele de Jacob de Zoet durante dezessete anos. O estilo de Mitchell nesta narrativa tem a ver com os diários de viagem, comuns entre os aventureiros europeus pelo Novo Mundo, incluindo toda a costa do Pacífico nos séculos XVII e XVIII. Entre estes, estava o alemão Engelbert Kaempher, cuja obra Japão: Observações sobre a cultura de Tukugawa, serviu como baliza na produção deste romance.
A respeito, o autor nos revela um universo em que o embate entre os continentes produz ironia, revela verdades e fala de assuntos comuns a todos como a inveja, o egoísmo e a traição. Jacob de Zoet é um personagem curioso: filho de um pastor calvinista, conservador e liberal ao mesmo tempo, sedento de riquezas como qualquer outro. Não sabe nada sobre o Japão. Nem sobre Dejima. Naquela ilha, um pedaço da Holanda, coexistem comerciantes, vigaristas, ladrões, escravos e, inclusive, a maior joia da ilustração e da crença pela ciência: a medicina. Lá vive o Dr. Lucas Marinus, médico e botânico.
Teriam sido os holandeses de Dejima os introdutores da medicina alopática no Japão, na dissecação de corpos e reconhecimento dos órgãos. Muitos são os japoneses interessados nesta área, que chamavam de Rangaku – ou seja, estudos holandeses. O Dr. Marinus tem alunos aplicados, que se dedicam também ao estudo da língua neerlandesa. Em se tratando de assuntos comerciais, também existem os tradutores e intérpretes, de origem japonesa, que fazem a intermediação. Aos estrangeiros era negado o aprendizado do japonês. Neste romance, há várias categorias de tradutores, vindos da classe nobre, homens de confiança do governo local.
A desconfiança em relação ao estrangeiro teria dado início no século anterior, durante a hegemonia do comércio com os portugueses. Deu-se crédito aos holandeses por serem protestantes, assim distantes do interesse missioneiro. Um caso peculiar é relatado pelo romancista, quando em pleno século XVIII, ainda existia em Nagasaki o hábito de calcar a imagem de bronze de Jesus Cristo, (fumiê) numa tentativa de comprovar a descrença na religião católica, considerada proscrita. Para um protestante iconoclasta, esta obrigatoriedade não contrariava em momento algum com as suas crenças.
O fato de ter combatido a exploração comercial dos portugueses, isso não teria acabado com a corrupção entre os próprios calvinistas holandeses. Havia interesses do lado do negociador em subtrair parte dos lucros em proveito próprio. Existia neste contexto, a Companhia Holandesa das Índias Orientais, a quem os administradores deviam prestar contas.
Trata-se por parte do autor em falar deste assunto com ironia. Esta situação se aplicava também entre os tradutores, ao galgar postos e buscar regalias como burocratas de carreira.
A feitoria de Dejima deu início em 1641, anos depois da Rebelião Shimabara, de 1630, quando a última resistência católica foi vencida. O guerreiro Shiro Amakusa teria se refugiado no Castelo Shimabara com os seus acólitos. Os holandeses foram contratados para inibir os revoltosos, quando as canhoneiras lançaram 426 tiros e favoreceram a vitória do governo. Um dos prêmios teria sido a instalação dos escritórios holandeses em Dejima. Nesse tempo comercializou açúcar, sândalo, lã, pele de arraia, chumbo, algodão. Nesta época, dizem os registros, porcelanas foram embaladas em folhas de impressos de ukiyo-ê. Desta forma, os europeus conheceram a arte japonesa, responsável por inspirar pintores do impressionismo francês.
O fechamento dos portos ao exterior, para a história do Japão, teve um significado importante. Chamado de Sakoku, perdurou por 214 anos. Os centros urbanos começaram a aparecer, assim o comércio das cidades e, consequentemente, a classe dos comerciantes. Um dos fatos mais importantes teria sido a construção da Rodovia Tokaidô, de em torno 500 km, ligando Edo a leste para os antigos centros metropolitanos como Osaka, Kyoto e Nara.
Dizem os historiadores japoneses, tal medida, foi necessário para o fortalecimento interno para depois se abrir para o estrangeiro. Entretanto, Dejima se tornou um elemento estranho, controlado, mas nem tanto assim. Seria uma contradição histórica.

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