CANTO DO BACURI: Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento

O título parece longo demais, apontando temas separados, mas partes de um único livro. A que nos referimos é justamente Ódio, Amizade, Namoro, Casamento, de autoria de Alice Munro, de 2016, numa edição da Coleção Folha, Grandes Nomes da Literatura, volume 27. A publicação acontece no momento na Biblioteca Azul, da Globo Livros, Rio de Janeiro. No caso desta autora, fiquei sabendo de sua existência em 2013, quando do recebimento do Prêmio Nobel da Literatura.
Por ser canadense, um interesse maior, sobre como a literatura desenvolveu-se naquele país. Quando chegou o livro, com acabamento de capa dura, com preço baixo, de banca de jornal, na referida coleção, não poderia deixar de adquirir.
No ano em que comprei este livro, o objetivo era lê-lo rapidamente. Pus na mochila numa viagem de três semanas ao Japão. Levei e trouxe de volta, sem que pudesse ler. A leitura aconteceu agora. Trata-se de um livro de contos de 340 páginas. Nada muito grande. Mas daquilo que li, outros livros mais densos, este de Alice Munro causou-me um desespero, um inesperado, um insólito, diante da paisagem dura e existencial que se apresentava em atores anônimos de classe média canadense. Não se tratava de contos de aventura, de campos minados, no dilema dos judeus de Newark, como nos romances de Philip Roth. Nem mesmo na luta pela ascensão econômica e social nos Estados Unidos. No Canadá, a situação é outra nesta visão intimista de famílias comuns, de imigrantes, como todo mundo quase é imigrante naquele país, vivendo em Ontário, o lado inglês do país. O lado mais frio, pois o lado ameno fica Montreal, o lado francês.
Sem que os personagens sejam heróis de uma narrativa, ou ainda anti-heróis, são comuns, como é comum tudo o que acontece em sua existência. Esta realidade incomoda, sem altos e baixos em excesso, num país rico e de pessoas educadas. O que transparece é que o mundo se tornou muito igual, isento de outras experiências. Estes contos não se prestam a focar unicamente um caso peculiar, como poderíamos esperar de um conto, mas algo que se estende mais próximo da novela. Ou serão contos longos? Não é o fato de ser mais longo que perturba. A narrativa é densa, de pequenos incidentes que marcam a nossa vida.
O último conto do livro é O urso atravessou a montanha. Não existe nenhum urso neste conto, senão uma referência a uma canção folclórica americana da qual o urso teria vencido as dificuldades oferecidas pelos obstáculos apresentadas na montanha.
A primeira parte é a escalada da montanha, sendo a segunda a chegada do outro lado. Todos conheceremos o outro lado. Neste conto, os personagens têm em torno de 70 anos. Existe o Grant, senhor honrado que deu aulas na universidade de cultura nórdica e Fiona, filha de imigrantes islandeses. São os derradeiros anos de velhice, em que aparece a doença em Fiona, que teve que se internar numa casa de repouso. Outros personagens aparecem, da mesma idade que eles, que assim compartilham lembranças agradáveis e decepções do passado. Neste momento, o passado e o presente se diluem numa massa amorfa, confundindo e revelando. A vida poderia ter sido uma ilusão de acontecimentos. Nada tem mais importância. Não existe de fato motivos para a melancolia, também o seu inverso. Somente se vive, enfrentando a dificuldades e avançando, sem se preocupar com a morte. Isso será inevitável, pode-se observar, mas não é o momento para pensar nela. Talvez pense, sem que se trate deste assunto. Seria um tema desagradável de ser enfrentado, principalmente na sociedade em que vivemos. O bem estar material não passa de um sonho, a esvanecer no momento certo.
Esta situação é a vivência no Canadá, que apesar de falar de temas universais, como o amor e o ódio, a insatisfação se tornou um impedimento para a realização. Se pensarmos que a realização fosse o usufruto da felicidade, nada disso é obtido devido uma falha humana, o que torna o ser humano realmente humano. Pode ser que as situações apresentadas por Alice Munro, de uma realidade isenta de outras perspectivas, torna a sua literatura atual e, igualmente, provocadora. Existe um momento durante a leitura que pensamos: vou desistir. Desisto por um dia. Retomo no seguinte, pois algo de instigante pode surgir: sem mérito, sem reconhecimento devemos reconhecer a beleza da vida.
Construído a partir de uma rotina, nada acontece de diferente, mas na esperança que uma mudança possa ocorrer. Pode ser que isso venha acontecer. Entretanto, a esperança nunca foi condição para que as coisas aconteçam. Ao invés disso, à maneira de Pascal, possamos viver bem os nossos dilemas, sem caretas ou demonstração de contrariedade. Alguns contos de Alice Munro li mais de uma vez e vou guardar o livro para futuras leituras novamente.
Algumas pessoas buscam na leitura o prazer do deleite e distração. Outros almejam objetivos como o de formação, crítica literária, obrigação acadêmica etc. Penso que a literatura cria um diálogo com o leitor, que seja crítico em relação a si mesmo, revelando possibilidades de visão de mundo com as suas mais diversas facetas da espiritualidade humana. Dialogar com Alice Munro se mostra bastante enriquecedor.

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