CANTO DO BACURI: O Silêncio de Shusaku Endo

Quando foi relançado o livro “O Silêncio”, de autoria de Shusaku Endo, em 2011, causou-me uma sensação de grande satisfação. De fato, tinha lido a obra, pela primeira vez, nos anos 80, numa publicação em capa dura pelo Círculo do Livro. Não se tinha muito acesso a livros de literatura japonesa, nesse tempo. Assim, quando vi no catálogo “O Silêncio”, adquiri como um presente que chegou em hora certa. Não tenho muito costume de reler as obras, mas desta vez, a publicação pela Editora Planeta do Brasil, São Paulo, foi retomada com entusiasmo. Claro, numa segunda leitura, feita após quase três décadas, sempre causa novas emoções.
Sobre esta obra de Endo, o cineasta Martin Scorsese, fez um filme em 2016, que não passou despercebido de comentários de minha parte. O que o cinema tem de bom é a utilização das imagens, com imenso efeito pictórico, que o livro apenas sugere. Não falemos do filme, mas da literatura. Este autor, Shusaku Endo, no mesmo ano da publicação de Chin moku, o título em japonês, ganhou o Prêmio Tanizaki de 1966. Talvez seja uma das grandes obras do autor, que também publicou “Rio Profundo” (1993), “O samurai” (1980) e “Escândalo” (1985). Todos estes foram lançados no Brasil.
A temática explorada por Shusaku Endo em “O silêncio”, é o dilema da existência humana, tendo como fato narrado o cristianismo no Japão no século XVII, quando a religião se tornara proscrita. Mais do que recuperar a história que tem o seu fundo de verdade factual, o autor debate-se com a questão da fé e a sua contradição ao se defrontar com os eventos culturais adversos à crença, que luta para impor-se como a única que pretende ser universal. Neste momento, como agem as pessoas em que a fé é colocada em questão, sejam dos nativos, também dos padres, vai ser o tema deste romance.
O próprio autor Shusaku Endo (1923-1996) é alguém habilitado em tratar do tema, pois é um japonês católico, que usando de sua condição moral e religiosa, explora os meandros da contradição como fator de criatividade no campo literário. A literatura pode falar de comportamentos, religião e moral, entretanto, deve ser lido apenas como literatura. É o que acontece em “O Silêncio”, que, após o catolicismo ser proibido no Japão, cujas causas não lidaremos neste artigo, no governo do terceiro Shogun Tokugawa, Iemitsu, ainda que posto na ilegalidade, o catolicismo tinha acólitos no país. Principalmente isso acontecia em Nagasaki, antigo reduto de concentração de católicos, com a proteção do lorde feudal local de nome Sumitada Omura (1533-1580).
É neste cenário, que três jesuítas inspirados saem de Portugal e vão até Macau, na China, para em seguida ingressar como clandestinos em Nagasaki. Não existia mais padres no Japão, ou foram expulsos ou martirizados. Entretanto, daqueles cristãos que resistiam em negar a fé, mantinham-se ocultos, principalmente na ilha Goto, daquelas cercanias. Dos três, apenas dois, Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe, conseguem aportar. O que se ouvia em Roma, também em todos da Companhia de Jesus, era a desistência em missionar no Japão. Para piorar, o maior daqueles, Cristovão Ferreira, renunciara a fé ao ceder à tortura humilhante do fumi-e. Para os fidalgos guerreiros japoneses tratava-se de uma formalidade: calcar a imagem de madeira ou bronze com a efígie da Virgem Maria ou de Jesus Cristo.
O título “O Silêncio” é significativo o tempo todo, quando se espera por um milagre, uma atitude divina de intervenção, que possa salvar os homens de fé. Havia a fé e também as rezas, sem que nada pudesse acontecer de sobrenatural. De natural, apenas se esperava, conforme dizem os algozes, pisar na imagem. Se a fé mantivesse os padres longe da atitude pedida, haveria o sacrifício de seguidores. Trata-se de um dilema da fé ou do comportamento que foi construído pelo imaginário que apregoa valores que são questionados em momentos extremos de dúvida.
O personagem Kichijiro é o que faz a trama ganhar um envolvimento causador de angústia e raiva entre os leitores que podem tomar as dores do protagonista padre. Kichijiro é católico, que ao mesmo tempo que trai a fé e os amigos, não consegue se livrar da própria fé, assim se comporta errando e pedindo a absolvição. Por inúmeras vezes trai o padre e retorna para se conciliar com a religião.
Se a viagem de Sebastião Rodrigues foi para reparar um erro de Cristovão Ferreira, seu antigo mestre nos tempos de seminário, cada vez mais se aproximava o dia em que iria também tomar o mesmo caminho. A morte seria a atitude mais própria para se tornar mártir. Se acontecesse isso, nada tinha a temer. O contrário seria não suportar as dores físicas de uma tortura ou, muito pior, continuar vivo e abjurar de sua fé.
Mas havia algo mais complexo em se tratando do Japão, que num certo momento absorveu a religião estrangeira, por quase um século, comerciando e trocando informações de cultura e erudição. No entanto, a própria cultura japonesa e o momento histórico do Período Edo, não toleraria a imposição de valores que colocavam em perigo a sua formação anterior. A religião universal poderia ser considerada uma ameaça no comando de padres, cuja ideologia também herdaram os portugueses e os espanhóis. De outra forma: aquilo que é bom para o Ocidente, para o Oriente não se coaduna.
“Não estamos debatendo, padre, os erros e acertos de vossa doutrina. Na Espanha, em Portugal e outros países assim, ela pode ser verdadeira”, diz a autoridade japonesa. A religião vista neste caso como uma construção cultural.

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