CANTO DO BACURI: O japonês dos olhos redondos

Por si, o título é bastante atraente: O japonês dos olhos redondos. Este compõe um conjunto de dezenove contos escolhidos para representar os anos 80, conforme o organizador Ítalo Moriconi, na antologia “Os cem melhores contos brasileiros do século”. A publicação foi da Objetiva, São Paulo, 2000. O exemplar que possuo tem o selo de Apoio ao Saber, da Secretaria de Educação do Governo de São Paulo. Ao lado, o aviso: distribuição gratuita.
Como propõe o organizador, os anos 80, têm por chamada Roteiros do Corpo. Para quem nasceu naquela década e depois, não sabe do que se trata. É no momento que encerra o período dos governos dos generais, com as “Diretas Já”, em 1983 e 1984. Ainda por vias indiretas, elegeu-se Tancredo Neves, que não chega a assumir devido a doença. Assume, o vice-presidente, José Sarney. Conheceu-se então, uma das mais altas taxas de inflação e troca de moeda. Com o fim deste governo, nas eleições de 1989, foi eleito Fernando Collor de Mello.
O que se verifica no campo da literatura, neste ínterim, no caso dos contos é o aparecimento de autores que veiculam aspectos ligados à violência, a sexualidade e uma indiferença. Dos autores lembrados temos Márcia Denser, Ivan Cândido, Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro e Autran Dourado. Mas o conto a que propus comentar e criar uma discussão é O japonês dos olhos redondos, de Zulmira Ribeiro Tavares. É uma autora paulista.
Este conto me parece bastante atual, compatível às circunstâncias vividas na atualidade. Descreve dois paulistanos, amigos, mas diferentes entre si, com os seus dilemas em seus pontos de vista. Um deles recebe a visita do amigo. De fato, o amigo visitante é bastante sedutor em suas justificativas, sem que nada passe despercebido. O outro ouve, ainda que discorde. De início, o amigo visitante cisma com o vizinho daquela casa, que ele afirma ser um japonês. Este japonês, na definição dele está sorrindo sempre. Seria mais uma representação da época do japonês, que para ele seria uma dissimulação. Não apenas o sorriso do japonês seria uma dissimulação, mas o próprio, teria por ocupação o ofício de tintureiro. Bastante ilustrativo, um tanto generalista, mas assim se afigurava no entendimento do visitante.
Não basta as assertivas do amigo de que o vizinho não era um japonês. Enquanto o amigo visitante não cede em sua argumentação, o dito japonês se aproxima da cerca. Verifica-se de que os olhos são redondos e azuis. Nada disso, era comum entre os japoneses. Entretanto, o visitante sustentava com toda convicção de que estava certo. Não era apenas uma questão de identificar um japonês, mas a de pronunciar um discurso xenofóbico. Quando o amigo revela que o vizinho chamava Marcus Czestochowska, ainda assim continuou martelando a sua tese. Este era tão japonês quanto Kurosawa, em seu entendimento. Ser polonês como Czestochowska era o mesmo que ser japonês.
Se era desta forma como entendia ele, o que significavam os olhos redondos e azuis. Toda argumentação daquele amigo inflexível poderia, sem grandes dificuldades, convencer não apenas as almas simples, mas outras, mais complexas. Ele cita o animê, que assistia pela televisão, do Taro Kid. Tal qual Taro Kid, que tinha olhos grandes, tão característicos dos mangás, o japonês tem olhos igualmente grandes. Diz ele, é só ir ao Bairro da Liberdade e verificar.
Toda uma teoria antropológica de que a mudança geográfica, com o clima, a alimentação e outros condicionantes eram suficientes para a alteração genética, foram usados. Assim, poderia dizer que aquele vizinho era um japonês, que sofrera desta mutação. Será verdade? Por outro lado, seria isto apenas uma argumentação correta para uma finalidade apaixonadamente desvirtuada? A autora apenas narra o seu conto. Existe uma ironia, quase uma bem humorada brincadeira abordando temas complicados e das pessoas inacessíveis ao bom senso.
Ainda que tal fato tivesse acontecido, isso não seria motivo para que a amizade entre as partes acabasse. Não é o caso de estetizar o lado torto do conto, muito menos justificá-lo. No campo da ficção literária tal fato pode acontecer, que cria situações imagináveis. Quando isso vai além da ficção, temos que ficar alertas. Não somente o que os outros pensam ou agem, mas como os esclarecidos podem estar isentos de um confronto que possa alimentar ainda mais o lado oposto.
Em momentos de dificuldade, o nacionalismo e a xenofobia sempre ganham espaço, como formas de acabar com o mal. Isto faz parte da História. Sempre haverá um culpado, que pode ser Adão, quem sabe Eva, desde o início dos tempos. Em outros tempos, os vilões foram os judeus, os jesuítas, depois os russos, os alemães orientais, passando pelos iranianos e, atualmente, os chineses. Os chineses chegam a ser perseguidos nos Estados Unidos, também os negros e os latinos.
Mais do que os olhos vêm e o nariz sente, o outro é o que a mente produz como favorável ou detestável. Cheia de informações e discursos, a mente é o depositório que rege as nossas ações. Chega ao ponto de achar que todo japonês é tintureiro e o sorriso é dissimulado. Possivelmente assim, se achou um dia. Ainda bem que os japoneses pararam de sorrir, caso contrário, haveria um motivo para a culpa.

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