CANTO DO BACURI: O homem que sabia javanês

Lima Barreto

Retomar a leitura dos clássicos da literatura brasileira, de um século atrás, é um grande deleite. Foi assim que resolvi ler, alguns contos reler, do “Os cem melhores contos brasileiros do século”, organizado por Ítalo Moriconi, 2000, Objetiva, São Paulo. Teve o apoio da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, com um selo “Apoio ao Saber”, distribuição gratuita. Quanto ao organizador, era professor da UERJ, além de crítico, curador e poeta.
Mas em se tratando desta coletânea, como ele mesmo disse na apresentação, o critério de escolha dos contos teve uma preocupação em agradar o leitor, o que nos parece subjetivo. Da maneira como ele organizou, primeiramente os doze de sua preferência, relativo aos anos 1900 até os 30, vale ressaltar autores de relevância como Machado de Assis, João do Rio, Monteiro Lobado e Alcantara Machado. De todos, aquele que me agradou mais, vale a minha subjetividade também, foi Lima Barreto, em O homem que sabia javanês. É um conto conhecido, sempre lembrado. Vale a pena relê-lo e apreciá-lo e perceber de que nada mudou tanto.
É bastante comum nos contos, alguém que se dispõe a contar um causo, uma história, talvez uma mentira, uma criação ou recriação. Nesta situação, o contador é o próprio protagonista. Falar sobre si implica num comprometimento de cumplicidade. Seu nome: Castelo. Sobrenome: desconhecido. Qualquer um poderia ser o Castelo, que não se inibe em contar a saga. Haveria alguém que soubesse javanês, no Rio de Janeiro, no começo do século passado? Justamente javanês? Assim teria ocorrido, quando o jovem aventureiro, vindo de Salvador, com aluguel da pensão a ser pago, lê um anúncio: “Preciso de um professor de javanês”. Acontece que Castelo, bacharel, pois quase todos que tinham formação superior eram bacharéis (quer dizer, formados em Direito), nada sabia de javanês.
O cinismo não poderia ser maior. Ensinar javanês a alguém que pretendia pagar muito, foi o suficiente para Castelo se candidatar à vaga. Nenhum outro ousou responder. Não é o que aconteceu com Castelo. Para se dar bem na Capital, era necessário mais do que inteligência. Era preciso ousadia e um certo talento para a patifaria. Mas se o próprio narrador conta com detalhes a sua carreira de sucesso, merecedor da inveja dos desafortunados, todas as armas utilizadas para o intento são facultativas, sem que desperte arrependimento. Nem Castelo tem qualquer reserva em contar a sua intrepidez e, por que não dizer, a sorte não lhe baterá a porta duas vezes.
Mas antes de se apresentar ao emprego, Castelo deve se inteirar o que ensinar. Sabe da língua javanesa, àquela falada na Malaia, no Timor, colônia portuguesa. Por isso, o lugar mais apropriado para realizar a pesquisa e ter acesso às informações é visitar a Biblioteca Nacional. Até então, nunca tinha se interessado pelo Arquipélago de Java, muito menos a língua que falavam. Atualmente quando alguém quer se dirigir a um lugar desconhecido, sem que desperte algum interesse, falam de um lugar chamado Turcomenistão ou o país de Sikkim. Alguém sabe que língua fala o Turcomenistão ou ainda Sikkim? Mas Castelo não somente se colocou como conhecedor da Malaia, como a sua língua, e disposto a ensiná-la a quem solicitasse seus préstimos. Não é comum que alguém peça um professor de javanês.
Ainda que tivesse de aprender javanês para depois ensinar, ter acesso a alguns livros do idioma, era condição para habilitá-lo a conhecer a língua. Para Castelo, os rudimentos eram suficientes. O excêntrico ricaço que pretendia conhecer o javanês, já idoso, queria ler um livro naquela língua, que herdara, que se mostrava distanciado em relação ao conteúdo. Por isso, queria um professor de javanês. Por isso, Castelo lá se encontrava para ensinar. Com o aluno em níveis de demência, os estudos não prosperavam. Nada se aprendia, uma ou outra palavra, uma regra gramatical quase inteligível. Quanto mais cabalístico se achavam as aulas, o aluno mostrava mais interesse na língua, que nunca aprendia. Nem mesmo Castelo sabia o que ensinava, mas, em contrapartida, convencia.
Das aulas de javanês, o aluno, nada menos do que o neto do Conselheiro Albernaz, que acompanhou D. Pedro I quando da abdicação, tinha a quem apresentar o ilustrado professor de javanês. Era Castelo admirado nas rodas sociais. “Lá vai o homem que sabe javanês”, ouvia-se das paredes em confidência. Para isso, Castelo também se aperfeiçoava no papel assumido: assinou revistas especializadas como o Revue Anthropologique et Linguistique, Proceeding of the English-Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano e outros mais.
Com o profundo e único sabedor de assuntos tão específicos e inacessíveis, Castelo, aquele aluno influente apresenta-o ao Visconde de Cairu, que recomendava a ingressar nos ofícios da diplomacia. Participou de inúmeros congressos internacionais de geografia e cultura, sendo ele uma sumidade no assunto: Java. Para isso, bastava consultar as enciclopédias. Fazia com diligência. Por fim, chegou a escrever artigos. A sua carreira nos temas internacionais, rendeu-lhe um emprego, o de consul residente em Havana, onde atuou por seis anos.
Fica a questão: que motivos tinha o protagonista em contar a sua história, em que ele se mostra no modelo a ser seguido, ou o mundo em que vivia seria cúmplice de atitudes como as dele? Jogar conforme as regras do mundo para se dar bem, ainda que condenáveis?

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