CANTO DO BACURI: O Filho Chinês de Deus

Muitos das obras ainda não lidas, emparelhadas em minha estante esperam o momento certo para ser apreciado. É o que aconteceu com O Filho Chinês de Deus – O Reino Celestial de Taiping de Hong Xinguan, de autoria de Jonathan Spence, São Paulo, Companhia das Letras, de 1998. O autor é conhecido por obras que abordam a história da China no momento do encontro cultural com o Ocidente. É de sua autoria também O Palácio da Memória de Matteo Ricci, da mesma editora, 1986.
Quando digo o momento certo para ler, depende de duas condições: disponibilidade e capacidade de significação do instante. A disponibilidade é que tinha a posse da obra. Mas, penso, o mais importante é o segundo item. Tendo por assunto a China, algo muito presente nas discussões atuais, de entendimento e preconceito, de certezas e muito mais incertezas, aquele país acabou se tornando numa esfinge. O que é a China? Antes mesmo de dar início a leitura, li um outro, Introdução às Religiões Chinesas, Mario Poceski, São Paulo, Editora Unesp, 2012.
No que se refere a O Filho Chinês de Deus, quando adquiri, provavelmente presente de alguém, cheguei a ler as primeiras 150 páginas. Por falta de tempo, deixei para depois. O que chama a atenção é justamente o título, um tanto ousado, no mínimo curioso. O autor é historiador, nascido na Inglaterra, mas vivendo nos Estados Unidos. Pode-se dizer que esta obra agrada a historiadores; muito mais o público não especializado. Em forma de romance, com personagens históricos, retirados das fontes oficiais, Spence vai narrando as peripécias de Hong Xiuquan nas primeiras duas décadas da metade do século XIX.
Trata-se da China daquela época, ao final da Dinastia Qing. Nada mais lembra os períodos de esplendor das Dinastias Qin (221-206 a.C.) ou Tang (618-907). A Dinastia Qing, a que faremos referência, é a última, de origem manchu, antes da inauguração da República. Se de um lado temos a falência de um sistema ortodoxo de administração centralizada, que valoriza os antigos, a pedagogia confuciana, o país conta com a presença marcante de estrangeiros no porto de Macau. Seria Macau a porta que conduz à China, através do rio Xi Jiang. Justamente naquele lugar, estão instaladas as delegações diplomáticas e comerciais da Inglaterra, França, Estados Unidos, Holanda, Suécia, Dinamarca, Áustria, entre as mais representativas. Outro fator estará presente, além dos interesses de ganho mercantil: os pastores evangélicos.
Inúmeros são os pastores presentes, leitores livres da Bíblia, de denominações várias. Os ingleses levam a tiracolo a tradução do Rei Jaime, de agrado dos episcopais, também outras denominações, como a dos batistas americanos. Existem tradutores da Bíblia para o chinês, na versão protestante, do pomerano Karl Gutzlaff e do chinês Liang Afa. Existem também os católicos, mais antigos, catequizados pelos jesuítas. A conquista das almas repercute entre os desvalidos e pobres, contrariando tudo o que se referia à cultura tradicional e aristocrática do “Império do Meio”, a China. Um dos panfletos de propaganda cristã chega a Hong Huoxiu. Antes tentara inúmeras vezes concorrer a uma vaga na burocracia da Dinastia Qing. Não passa. Vai ser na próxima vez. Dedica-se aos estudos dos Analectos de Confúcio. Acabou desistindo.
Nas leituras dos panfletos cristãos, a inteligência de Hong é capaz de ressignificar o seu conteúdo e, num sonho, afirma ser ele o irmão mais novo de Jesus Cristo. Sempre a partir da Bíblia, ele constrói um universo de justificativas de derrubada do Imperador Xinfeng, o usurpador manchu. A dinastia Manchu se deu início na segunda metade do século XVII.
Começa então a atrair acólitos ao formar a Sociedade Adoradores de Deus, principalmente hakkas. Entende-se como sendo hakka o chinês que se deslocou de sua terra natal e vai ocupar outras terras. Não era muito bem tratado estes forasteiros, inclusive o próprio Hong. Nem ao menos tem simpatia pelos ocidentais, entre estes os pastores. Não é desejo dele seguir qualquer credo alienígena, como o protestantismo ocidental. Por isso, ele próprio cria o seu cristianismo, que combate o antigo da China mas bebe de sua fonte original.
Como a Bíblia contém muitos erros, ele próprio adapta às condições culturais da China. Ao mesmo tempo, demoniza os templos budistas e taoístas, quebrando imagens, ato comum entre os reformadores. Não fica apenas nisso, um de seus próximos começa a receber mensagens paranormais do próprio Jesus. Forma-se a “Sociedade do Céu e da Terra”, que pleiteia o Paraíso Terrestre, sendo ele o Rei Celestial.
Em 1851 o exército de Hong era composto de 46 mil soldados. A primeira cidade a cair foi Yongan, subindo o rio, de conquista em conquista, chegam a Nanquim. Os administradores de Qing, diante do perigo, reforçam o seu exército. Os estrangeiros tinham sido postos fora de Macau. Os ingleses tomam Hong Kong em 1841. São os ingleses e franceses que apoiam o exército de Qing para derrotar finalmente Hong. As armas ocidentais foram decisivas para a guerra moderna, até então desconhecida pelos chineses. Em 1864 Hong Xiuquan (antes era Huoxiu) morre. Naquele mesmo ano nada mais resta do Reino Celestial de Taiping.
No caso de Hong, o irmão mais novo de Jesus Cristo, a religião se confundia com a política na consolidação de uma utopia cristã. O puritanismo protestante estava presente na pregação de Hong, ao combater o consumo do álcool, do ópio e dos jogos. Os homens deviam viver distante das mulheres, inclusive os casados. Os demônios deviam ser exterminados, no caso os manchus. Tudo isso foi pregado por Hong, em forma de poesia. No caso da China, a escrita em caracteres tinha o poder de revelar, criar a beleza e sugerir.

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