CANTO DO BACURI: O burguês e o crime

Carlos Heitor Cony

O conto que me agradou, da coletânea “Os cem melhores contos brasileiros do século”, organizado por Italo Moriconi, São Paulo, Objetiva, de 2000, relativo aos anos 60, que ele classifica como dos tempos de “Conflitos e Desenredos”, foi O burguês e o crime, escrito por Carlos Heitor Cony. O organizador enumera 15 contos, como os de Lygia Fagundes Teles, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan entre outros excelentes. A escolha de minha parte, neste momento, é totalmente de uma preferência pessoal. No caso, este conto melhor se presta para este artigo. Quero escrever a respeito do conto policial, que atrai o público leitor, sem cair num rompante de aviltamento.
Longe de ser uma literatura popularesca, quase folhetinesco, o conto O Burguês e o crime possui um encantamento, de uma sutil crítica à classe média, quando dos anos de repressão política, dos anos 60. Nada de prisões e torturas é descrito. Trata-se de um outro mundo, a dos conformados, que podiam desenvolver as suas atividades liberais sem grandes emoções, preocupando-se unicamente em satisfazer os seus prazeres passageiros. Seria o burguês, alguém como o descrito? Neste conto, uma questão estará presente: o assassinato. Mais no sentido policial do que social. Em qualquer romance policial que se valha, o ponto nevrálgico é a premeditação de um crime perfeito. Ou, o que seja, quase perfeito.
Neste conto, Figueiredo é o burguês, dono de uma loja de materiais de escritório. Nada muito surpreendente. Teria ele motivos para planejar um crime perfeito? Certa vez ele vai ao teatro com a esposa, cujo desenrolar da trama nada tem a ver com um crime. Acha entediante. O assunto é existencial. Entretanto, a mente de Figueiredo está focada em como praticar um crime perfeito. Não se trata de algo passional, cometido no calor do momento, o que perderia todo mistério e nada haveria de perfeito. Este é o assunto que interessa aos criminosos de alta categoria e aos escritores de romance policial. Não é tarefa fácil. Poucos são os que conseguem escrever contos ou romances policiais de valor, que dentre eles, no Brasil, tivemos Luiz Alfredo Garcia-Roza, falecido em 2020.
No caso, Figueiredo tem uma vida comum, uma esposa comum, nada desejando além daquilo que fosse possível. Talvez por isso, pensar num crime perfeito fosse dar mais ânimo àquele marasmo. Pensou. Mas a quem matar e passar impune? Não interessava matar um desconhecido, que passaria despercebido. Sendo o crime cometido, devia ser algo motivado e que não fosse um ato casual. Chegou, inclusive, a ensaiar algumas tentativas, como a de escolher um prédio qualquer; no elevador, sorteou um andar, e dirigindo-se a um apartamento, acionou a campainha. A porta foi aberta, e de dentro, surgiu o rosto de uma velhinha. Lançou as mãos na garganta da provável vítima, mas desistiu. Seria fácil demais. Não era isso. Aquilo não tinha significado algum a Figueiredo.
Os criminosos em potencial, devem ter motivos, talvez inconscientes, para a realização do ato. Temos frustrações durante a nossa vida. As desilusões são muitas e, se fosse permitido, a vingança seria doce quando realizado. Os filmes desta natureza atraem uma plateia sequiosa de que, na ficção cinematográfica, a justiça seja feita, além do que permite a lei. Trata-se da lei dos homens, apaixonados em executar os possíveis infratores, no mesmo preço que um dia tiveram que pagar. Lembram-se de Dogville, com Nicole Kidman, de 2004, do diretor Lars von Trier? O final deste filme é a matança de todos que viviam naquela cidade. Todos deviam morrer, pois o motivo compensava: os maus perecem para que o mal desapareça.
Retomando o conto O burguês e o crime, Figueiredo também acha um motivo para o crime perfeito. Os causadores de sua desgraça não são nada menos do que a própria esposa e o sócio. Tudo é feito para a execução, pois traíram a sua confiança. De um lado a esposa infiel, do outro, o sócio leviano e odiado. Desta forma, Figueiredo elabora um plano, sem deixar nenhuma falha que o incrimine. Se Sherlock Holmes sempre encontra uma pista, que leva até o assassino, não existia um detetive daqueles na época em que narra a saga de Figueiredo. Um álibi é construído, que mostra que o próprio assassino não se encontrava no lugar do crime.
Se assim for, o conto termina com o protagonista livre de consciência e, sem mostrar a sua própria cara, toca a sua empresa, desta vez, ausente de um sócio. Claro, a moral é dúbia. A burguesia se mostra de um jeito, de acordo com as regras sociais e econômicas, mas atua de forma subterrânea. Se o crime vale a pena? Quase sempre, o assassino é pego e conduzido pela polícia. Vale a pena, no caso, se não é descoberto. Figueiredo que o diga. Como um autor da época vivida, Carlos Heitor Cony desperta para uma narrativa velada, do crime perfeito, cujo responsável nunca pagará pelo que cometeu. Mais uma história no rol colecionáveis que nunca foi resolvido. Passou o tempo, como nada tivesse acontecido. Caso tivesse acontecido, agora nada mais tem importância.
Uma história policial, do conto policial, que mostra um viés incomum, que menos consola do que irrita. Um conto que irrita também pode se apreciado, pois o cinismo também faz parte das facetas da alma humana.

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