CANTO DO BACURI: O avesso da vida

Autor polêmico, Philip Roth chega a polemizar até mesmo quando a sua biografia está para ser publicada. Existe uma culpabilidade de seu biógrafo Blake Bailey, de ter cometido crimes de assédio e abuso sexual. Mas deste assunto não trataremos agora. Vamos apreciar deveras O avesso da vida, Philip Roth, São Paulo, Companhia das Letras,2014, no formato pocket book, 370 páginas. Foi publicado em 1986, nos Estados Unidos. De certo, os Estados Unidos é o assunto preferido. Não, necessariamente, nesta obra.
O que nos espanta, no primeiro momento, de se trata de um romance que acontece de forma interrompida, como que outros acontecimento pudessem mostrar possibilidades várias em nossa vida. Dito desta forma, parece estranho, senão ininteligível. Mostra-nos sobretudo uma incapacidade de nossa parte em dirigir as nossas próprias vidas, como fôssemos títeres nas mãos dos deuses. Existe uma lembrança dos deuses do Olimpo manuseando os simples mortais. No caso de Philip Roth, outras dinâmicas são acionadas num enorme quebra-cabeça vivencial.
Conta inicialmente a vida um tanto comum do dentista Henry Zuckerman que, num certo momento, depara-se com uma situação embaraçosa: perde a virilidade. Justamente ele, que colecionava namoradas, na flor da idade, como poderia acontecer com qualquer cidadão americano de classe média judaica morando em Newark, em New Jersey. Quase tudo que escreve Roth acontece ou tem origem nesta cidade. Submetido a uma cirurgia, Henry acaba falecendo. O romance poderia contar a vida de Henry ou o que teria acontecido depois de sua morte. Não é isso que acontece. Ele se encontra vivo e vivendo em Israel, mais precisamente num assentamento da zona de ocupação na Cisjordânia. É como que uma outra história fosse contada, sem que a morte nunca tivesse ocorrido.
Até então ausente no romance, aparece Nathan Zuckerman, o irmão de Henry, que vive como escritor de sucesso (seria o alterego de Roth?). Em outros romances este personagem aparece. Neste, Nathan passa a narrar a história. O irmão Henry encontrava-se entre membros de um grupo nacionalista, liderado por Mordecai Lippman, que prega entre os árabes locais de que todos podem viver em paz, desde que no comando esteja Israel. Estamos nos anos 80, do governo de Begin, após as conquistas israelenses na Guerra dos Seis Dias, quando tomou Jerusalém Oriental e demarcou novas fronteiras.
O que incomodava Nathan era o motivo que teria levado Henry a Israel, ao abandonar a esposa e o filho. Ser judeu americano estava longe do que acontecia em Israel. Nada daquele conflito interessava. Se Nathan era o judeu americano esclarecido, o mesmo não acontecia com Henry. Quando se trata de questões de etnia, pode ser que os fantasmas do passado comecem a assombrar. Haveria um motivo para isso? Por vezes, a psicanálise é retomada para as explicações. Enquanto Philip Roth busca em sua história cultural as bases para a construção do romance, aquilo que é narrado revela a alma humana em sua total ambiguidade em que se confunde o racionalismo com o mais baixo irracionalismo, a lucidez com a loucura, a coragem com o medo.
Mas de repente, o cenário muda. Nada mais de Henry. O que vale agora é Nathan Zuckerman morando em Londres e casado com Maria, uma inglesa, que igualmente escreve romances. Talvez não seja romances grandiosos de venda certeira como os de Nathan. O fato é que Maria como qualquer outra inglesa comum cresceu na cristandade. Para complicar, a sua mãe é antissemita. Não têm os judeus como um povo comum, ao contrário, alimenta uma velada ojeriza por eles. Talvez esta situação acontecesse também nos Estados Unidos. Na Inglaterra, na convivência com os outros, Nathan percebe a diferença, que o torna menor, alguém com um cheiro diferente, que ouve quando estão jantando num restaurante fino de Londres. Nesse momento, Nathan se sente potencialmente mais judeu, ao emanar uma força contrária de defesa e ataque.
Se por um momento, existe uma tensão entre culturas, o casamento étnico seria algo possível? Menos nos Estados Unidos. Não é o caso. A própria situação de Philip Roth como a de judeu americano, que cresceu em Newark, se fez escritor por várias vezes serve de balizas para o romance. A própria Maria chega a acusá-lo de que poderá servir de modelo para um personagem qualquer de Nathan Zukerman. Este Nathan procurava sempre nos dilemas da vida, daquilo que o cercava, o fermento para criar um enredo dramático em seu trabalho. Claro, não poderia ser diferente.
Judeus americanos como Philip Roth que tinha uma vivência repleta de contradições para os romances. Certa vez, ouvi de uma poetisa e tradutora que é justamente em países como os Estados Unidos, em sua insatisfação, na complicada rede de valores entre as classes, que a literatura ganhava campo. Isso mostra como a literatura complexa de Philip Roth tem algo a dizer, não somente dos judeus, dos Estados Unidos, mas da alma humana em sua mais profunda e escura noite de existência.
Mas afinal quem seria Nathan Zuckerman, o escritor judeu americano? Este é um enigma que ele chega a revelar em partes. “Eu sou um teatro e nada mais do que um teatro”. Ao contrário do que alguns pensam, não temos um eu, mas muitos eus. Isso acaba se tornando uma paranoia psicanalítica, colocando em cheque o próprio Ego, como sendo um simulacro. Ou nas palavras de Zuckerman, “podemos fingir ser o que quisermos”. Num tempo em que a mentira pode se tornar verdade, em que os “caras de pau” mentem desavergonhadamente, Zuckerman pode nos ensinar muito.

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