CANTO DO BACURI > Mari Satake: Sonata de Tóquio

Por aqui, as notícias do dia a dia são de estarrecer. Sábado chega e não conseguimos dizer qual foi o pior dos acontecimentos da semana. O que temos é um festival de atrocidades cometidos contra a população que, talvez em sua maioria, nem toma conhecimento das tantas que estão sendo urdidas contra si.
Andar pelas ruas de São Paulo é desolador. Trânsito ruim como nos tempos de antes da pandemia. As ruas nos bairros centrais, a cada dia, com novos grupamentos abrigados em minúsculas barracas. Nos faróis, crianças e jovens, com seus pacotinhos de guloseimas pedindo ajuda. Nas calçadas, homens e mulheres desalentados, maltrapilhos, já nem pedem. Apenas ficam com seus pertences por ali. Até que sejam banidos e corram com as suas coisas e os seus para outro canto.
Até quando?
E o que Sonata de Tóquio tem a ver com isso?
Vamos lá. Sonata de Tóquio é um filme de 2008. Do diretor Kiyoshi Kurosawa. Nem sei se já falei dele por aqui, se já, peço desculpa. Revi no domingo.
O filme gira em torno da vida familiar de um homem de 46 anos, sua esposa dona de casa e seus dois filhos adolescentes. Uma família como tantas outras. O homem, profissional da área administrativa, vê as mudanças acontecendo no mundo corporativo. Visando, entre outras coisas, o barateamento da mão de obra, fusões internacionais chegam em sua área de trabalho. E, em seguida, ele próprio se vê na posição de um sem ocupação. Em casa, não tem coragem de anunciar a sua condição de desempregado. Diariamente sai de casa com sua pasta e suas vestes de trabalho, como se tudo continuasse como antes. Aos poucos, vamos acompanhando a sua nova jornada. Passagens por salas de recrutamento, almoços gratuitos em praças públicas, testes idiotizantes para descoberta de potencialidades encobertas; quando lhe oferecem algum trabalho é sempre por um valor aviltante que ele recusa. Nesta nova vida de desocupado, reencontra um antigo conhecido. Também desempregado, também sem coragem de dizer a verdade à família. E com este novo amigo, até concorda com a encenação de que ambos são colegas de trabalho. Farsa que em breve se transforma em tragédia na vida familiar do amigo.
Ao mesmo tempo, a sua própria vida familiar parece desmoronar sem que ele perceba os desmontes que vem causando.
Diante da tragédia envolvendo o amigo, decide aceitar a oferta de trabalho num shopping da cidade. Irá integrar o batalhão da limpeza. Trabalho impensável até pouco tempo atrás. Nesta nova ocupação também não encontra coragem para dizer a verdade à família.
Nem é preciso. Num infeliz acaso, a esposa esbarra com ele num dos corredores do shopping. Fardado com o uniforme do ofício.
Daí para a frente, vemos uma sucessão de pequenos desajustes envolvendo cada um dos membros da família.
Mas nem tudo está perdido. Os membros da família não foram desalojados de suas casas, o pai perdeu o antigo posto de trabalho que lhe dava certo status social mas não perdeu a sua dignidade. A esposa, apesar de tudo, continua ali unida à família. O filho mais velho caiu em si e viu que seu lugar não é junto ao exército americano mas, junto às pessoas do lugar onde se encontra ou talvez, junto dele próprio. Ele apenas deseja encontrar a felicidade.
A redenção final vem com a apresentação magistral do filho mais novo, cujo sonho era aprender a tocar piano, na prova de ingresso à escola oficial de música.
Belo filme de 2008 quando por aqui também, as pessoas podiam ser felizes e sonhavam com um futuro promissor. Mal sabíamos nós que teríamos que atravessar este longo período de trevas que estamos vivendo nestes últimos anos. Mas vai passar e há uma legião de bem intencionados prontos a dedicarem suas vidas para a reconstrução do país. A população merece dias melhores. Voltaremos a sorrir.

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