CANTO DO BACURI > Mari Satake: Presente de aniversário

Aquele seria um dia como qualquer outro, mas com um diferencial significativo apenas para ela. Era a data de seu aniversário. Vivendo sempre só e de forma quase que totalmente reclusa, não gostava de fazer alardes sobre a data. Na verdade, quase sempre, a chegada do dia costumava lhe causar certa apreensão. Estava envelhecendo e não gostava do fato. No entanto, à sua maneira, costumava comemorar com os poucos que lhe eram caros.
Desta vez, imaginava, pelo segundo ano consecutivo, ficaria literalmente só. Nestes tempos pandêmicos, o máximo que faria seria repetir a mesma coisa do ano anterior. Iria escolher uma comida e um bolo bem gostoso para comer sozinha. Não foi o que acabou ocorrendo.
Dois dias antes, a amiga das ervas frescas lhe contou sobre a chegada de uma pessoa que veio ao Brasil para uma curta estadia. Veio ao templo budista onde ambas têm vínculos e avaliava que um almoço em algum restaurante por ali perto seria conveniente. Sem consultar antecipadamente, fez o arranjo do almoço para justo dali a dois dias. Ao ouvir o arranjo feito pela amiga, achou boa a ideia. Logo se deu conta, seria o dia de seu aniversário. Comunicou o fato a ela e pediu discrição. Rindo a amiga se despediu dizendo que a visitante é uma pessoa legal, as suas se entenderiam.
Dali a dois dias, atrasada como quase sempre, correu para o local do encontro. Feita a apresentação inicial, entabularam breve diálogo. A amiga tinha razão, haveria entendimento.
Chegaram cedo ao restaurante, estava, portanto, ainda quase vazio. Menos mal, pensava. A conversa fluiu. Apesar de, praticamente, terem acabado de se conhecer, o almoço seguiu de forma harmoniosa, três pessoas unidas em torno daquele ato, o compartilhamento de um momento diário importante na vida de todos, o momento da alimentação. Após o almoço, seguiu-se um breve passeio pelas ruas do bairro e por fim, a visitante demonstrou interesse em conhecer o Museu da Imigração Japonesa no Brasil. Disse que havia conhecido a biblioteca mas não lhe informaram sobre a existência do museu em andares acima. Lá foram então.
As horas passaram rápido. Era preciso se apressar. Havia o chá da tarde com os que ficaram no templo. Em seguida, terminado o chá, após o material recolhido e limpo, era a hora da apresentação. A visitante com toda a simplicidade própria daqueles que tem muito a oferecer ao outro, disse que agora então, iria pegar os instrumentos para que todos pudessem cantar com ela.
Encantados, logo após as primeiras palavras de seu cântico sagrado, os demais participantes daquele solene momento, silenciaram as suas vozes para apenas ouvir e se deixar tocar pela emoção despertada pela voz da monja visitante.

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