CANTO DO BACURI > Mari Satake: Paisagem pela janela

A primeira vez em que lá estive foi num final de ano. Devia ser 1997/98. Século passado! O país era outro, nós éramos outros. Apesar de estarmos sempre reclamando e clamando por dias melhores, éramos felizes.
Durante o ano, corríamos o tempo todo. Trabalho diário em longas jornadas, cursos de especialização, cursos noturnos de atualização, finais de semana correndo atrás das coisas de casa, dos familiares, dos amigos. A vida era um infindável corre-corre. Parávamos um pouco no final do ano. Era quando, por algumas vezes, íamos em busca de outras paisagens, outros ares.
Daquela vez, o destino era a região central do país. A chegada se deu num dia de muito sol, como devem ser quase todos os dias ali. Aeroporto quase vazio para uma manhã de sexta-feira. À nossa espera, a Van da pousada. Teríamos ainda alguns longos minutos de viagem até o ansiado destino.
Pelas amplas janelas escurecidas, o contorno dos inúmeros prédios, as longas quadras. Mais adiante, as amplas casas cercadas por grandes quintais e enormes árvores ao longo de todo o trajeto. Em muitos quintais, imensos pés de manga. Nenhum sinal de gente em quase todo o trajeto.
A chegada enfim aconteceu. Longas quase três horas na apertada Van. Dias de aventura para o grupo de sedentários paulistanos. Muita caminhada, banhos de água doce, quedas d’água na cabeça, escorregões, sustos e risadas. Muitas risadas. Oito dias de quase tirar o fôlego dos adolescentes tardios que éramos.
No sábado seguinte, a volta. Na mesma Van, da pousada até o aeroporto. Desta vez, com outros passageiros que se juntaram. A mesma paisagem pela janela.
Até a hora da partida, ainda teríamos longas quatro horas de espera. Naquele sábado, o sol estava recolhido. Alugamos um carro para ver mais paisagens na janela. Gente? Nenhuma se via pela janela.
Depois daquela vez, voltei a Brasília, por algumas vezes, mas sempre como ponto de chegada e partida. E sempre vendo-a pelo filtro, pela janela.
Todas as vezes, partindo com a sensação de pena pela perda de oportunidade de sentir o gosto da cidade, sentir o cheiro da cidade e suas pessoas.
Na atual conjuntura, conhecer Brasília? Nem pensar. Por enquanto, apenas orar para que a população seja libertada do mal que a acomete. A bela cidade não merece ter entre seus moradores aquele que atualmente ocupa a principal cadeira do Palácio do Planalto. E nem nós, demais cidadãos merecemos isso.
Apesar da imensa tristeza por esta tragédia que vivemos, essa onda nefasta vai passar. Ah, vai! Vai mesmo!
Voltaremos a sorrir e fazer planos. Não prometo estar em Brasília em janeiro de 2023, como tenho ouvido algumas pessoas dizerem, mas vou voltar e conhecer a cidade.

Comentários
Loading...