CANTO DO BACURI > MARI SATAKE: Maio de 2021

Sente saudades daqueles dias em que se sentava e sem muito esforço conseguia contar suas histórias. Agora, tudo parece mais difícil. Poderia ter permanecido naquele estado de abandono, de esvaziamento de si mesma. Seria sua morte. Mas não, não podia. Sabia que ainda não havia chegado a sua hora de abandonar tudo. Ainda havia etapas a serem vencidas. Sendo assim, apesar de toda falta de entendimento, resolveu seguir adiante. Mesmo não sabendo onde chegará. Também, este onde, talvez, nem seja tão importante assim. Possivelmente, não mesmo!
Apesar de todo o abalo emocional e psíquico é preciso seguir adiante. A vida deve continuar a ser vivida, apesar de tudo. Na falta de histórias para contar, tenta escutar as histórias que lhe contam. Seus ouvidos parecem apenas capturar as dores do mundo à sua volta.
Há como ser diferente nestes dias desta triste era pandêmica? Os números estão dados e, a esta altura dos acontecimentos, é pouco provável que tenha algum cidadão brasileiro que não tenha sofrido a perda de algum familiar, amigo ou simples conhecido pela ação da política desastrosa de combate ao Coronavírus. Não há como não se abalar com essa triste realidade que nos toma.
A realidade é cruel, total de mortos na casa dos 410 mil, desemprego atingindo mais de 14 milhões de pessoas, fome em níveis vergonhosamente alarmantes enquanto bancos lucram escandalosamente. Auxílio emergencial para a população mais vulnerável em patamar vergonhoso. Assim as coisas caminham.
Mas, há sinais de que estes tempos tenebrosos serão superados. O ex-presidente Lula teve seus direitos devolvidos, a máscara do ex juiz e seus comparsas caiu. A CPI da pandemia está instaurada e segue firme. Toda a atenção deverá ser dada a ela para que não se transforme em mera peça de entretenimento. O país não merece isso. É preciso acompanhar atentamente.
Mesmo que sem grandes expectativas, sente que bons ventos voltam a soprar. Volta-se para si. Aliviada, percebe que lá fora, o canto frenético da passarada já não domina. Apenas um ou outro pio. Os cachorros parecem estar todos em sua hora de descanso. Crianças já não correm mais pelos pátios, elas também parecem saber que é mais seguro brincar apenas com os seus, dentro de suas casas.
Dia típico de outono. Ar seco, céu azul e sem nuvens. Final de tarde com um ventinho mais frio se fazendo perceber. Há tanto tempo não olha para o céu de noite que nem sabe em que lua estamos. O calendário lhe diz, ontem, dia 3, foi lua minguante. Esboça um sorriso, então poderá ver a lua cheia de maio lá para o final do mês. Lembra-se daquelas almas que se reuniam para contemplar o céu de outono da primeira lua cheia da temporada anual. Depois da contemplação, a feitura, leitura e apreciação de suas composições. Neste 2021, o exercício deve ter acontecido de forma solitária. Teriam se reunido virtualmente? Possivelmente.

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