CANTO DO BACURI > Mari Satake: Estranhos Bichanos

Como se estivesse à espera, assim que ouviu novas vozes entrando pela casa, deu um salto e preguiçosamente caminhou em direção à porta. Talvez quisesse dar as suas boas vindas ao novo ser que estava chegando. Afinal, de certa forma, ele era o dono da casa e também, assim estava habituado a ver as pessoas fazendo, sempre que chegava alguém de fora. Mas, desta vez, as coisas estavam caminhando de forma inesperada para ele. O visitante, ainda no colo de sua nova cuidadora, mal percebendo que naquela casa havia outro ser semelhante a ele, num salto furioso, pulou ao chão e desembestou pela casa atrás do inocente que apenas queria recepcioná-lo.
O visitante, chegou imponente. Crente que era o dono do pedaço não se importando com o fato de ser quem ele era naquele espaço, queria como sempre, reinar sozinho. Era um mimado. Com um nome para enganar incautos, de Fofo tinha muito pouco. Apenas o nome e a pose que gostava de reforçar nos momentos que sua cuidadora resolvia fotografá-lo. Momentos estes que naquele final de semana prolongado, não aconteceram. Fofo comportou-se pessimamente. Era só ver o amistoso Pipo que ele corria para cima do indefeso. O dócil Pipo, coitado! parece que não registrava nada. Ele logo se esquecia da fúria gratuita do outro e às vezes, quando via o Fofo desprevenido, até tentava se aproximar querendo brincar. Era briga na certa. Sorte que Pipo era bem mais ágil que o Fofo. Depois daquela apresentação vexatória, poucas foram as vezes que os dois tiveram que compartilhar a mesma c asa. Quando isso acontecia era sempre a mesma coisa.
Mas, sabemos. A vida anda. A cuidadora de Fofo era jovem e um dia resolveu que estava na hora de ter o seu bebê de verdade. Foi um choque para Fofo. Perdeu o seu reinado. E mesmo antes de qualquer tentativa de investida contra o novo ser indefeso da casa, Fofo foi impedido do convívio familiar. Seu território passou a ser as áreas menos nobres da casa. Dentro de casa, somente sob rígida vigilância e em horários regulados. Foi um choque para ele. Mas no início foi a melhor solução. Só voltou a ter permissão para transitar livremente pela casa quando a menina já estava bem grandinha. Em condições de se defender. Ela e Fofo convivem apenas. Desde sempre.
Um dia, chegou um novo bebê naquela casa. Daquela vez veio um menino. Àquela altura Fofo já mais idoso e ajuizado não dava mais mostras de que pudesse cometer algum deslize. Mesmo assim, no início tomou-se muito cuidado para não dar chance ao Fofo cometer nenhum dano contra o pequeno. Mas com o garoto, o comportamento dele foi completamente diferente. Sempre se fazendo receptivo e dócil vivia às voltas do garoto como um bom amigo.
E adivinhem o que aconteceu? O garoto cismou que queria um novo bichano. Não deu sossego aos pais até que eles concordassem. Acordo feito entre eles. Foram em busca do novo elemento. E o Fofo? O que é feito dele?
Amuado, anda recolhido pelos cantos sem querer ser visto. Não atende aos chamados de ninguém. Nem mesmo do garoto. O garoto com seu Xuxu tenta aproximá-lo de Fofo que apenas faz meia volta e sai em busca de algum esconderijo.

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