CANTO DO BACURI > Mari Satake: Esperança

Estamos aqui, às vésperas da última edição do ano, também a última edição do Jornal Nippak. Junto-me ao editor e repito: Gratidão. Gratidão é a melhor palavra que cabe para me referir às pessoas que nestes últimos anos deram acolhida às minhas poucas palavras.
Minha presença aqui se deve também ao estimado amigo Francisco Handa, o querido monge zen budista Handa San com quem aprendi a me sentar e praticar o zazen. Quando lançou-me o desafio, a ideia era que comparecesse com textos semanais falando sobre livros e filmes de autores japoneses ou então com assuntos outros relacionados à cultura japonesa. Entre assustada e desafiada, propus então o revezamento, uma semana eu, outra semana ele. Assim ficou estabelecido. O passo seguinte era definirmos um nome e uma ilustração para a coluna. Discutimos alguns. Ora eu, ora ele, encontrávamos alguma objeção e voltávamos ao ponto de partida. E eis que, eureka! propus, Canto do Bacuri. Para minha surpresa e satisfação, a proposta foi aceita de imediato. Handa San logo me tranquilizou: – pode deixar que arrumo uma figura que será perfeita para a coluna.
Assim nasceu o Canto do Bacuri.
Nem me lembro se na ocasião, comentei com Handa San, Bacuri era a maneira de meu pai se referir a mim quando estava bem humorado. Não adiantava eu querer saber a razão dele me chamar assim. Rindo sempre repetia que era bacuri porque era bacuri. Assim mesmo e fim de papo. Então tá, fazer o quê?
Talvez em homenagem àquele distante Bacuri da infância tenha nascido o nome da coluna.
A estreia na coluna se deu em 2008 com uma reflexão acerca de um dos livros de Kazuo Ishiguro. Pensava que aquele sombrio mundo estava bem distante de nós e, felizmente, a garotada dos cortiços localizados próximos ao templo zen da Liberdade, estava livre do trágico destino final dos jovens da comunidade de Ishiguro. Eles poderiam estudar, trabalhar, a vida lhes sorria. Vivíamos bons tempos no país. Eram tempos de esperanças e crenças num futuro melhor para todos. Vivíamos e vimos muitas coisas boas, muitas transformações positivas.
No entanto, apesar dos avanços, também víamos as inúmeras trapaças e trapalhadas cometidas por setores da classe política brasileira aliados à elite do capital financeiro. Assim mesmo, a maioria da população conseguiu eleger e reeleger a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente do país, sucedendo à política que vinha sendo implementada pelos dois mandatos anteriores do grande, hoje aclamado líder mundial, Luiz Inácio Lula da Silva. Porém, a partir de sua reeleição passamos a ver uma terrível campanha para derrubá-la do poder. Traições e mentiras passaram a ser as protagonistas do triste espetáculo brasileiro que culminou no injusto processo de impeachment de Dilma Rousseff. Foi derrubada do poder por ser honesta e querer trabalhar em prol da população.
O que se seguiu a partir de 1º de setembro de 2016, foi este festival de perdas para a população que culminou nesta triste realidade em que vive hoje a população brasileira. População insatisfeita, manipulada a ponto de acreditar que havia um messias que viria para tudo destruir e em seguida, consertar. Fizeram a triste escolha em 2018. O resultado final está aí a olhos vistos. Basta pôr os pés fora de casa para ver e sentir. Desemprego estonteante, centenas, milhares de famílias vivendo ao relento ou abrigadas em barracas de camping espalhadas pelas calçadas e praças das cidades, fome estampada nos rostos de inúmeras pessoas. É preciso lembrar ainda as mais de 610 mil mortes pela pandemia que correu livre e solta pelo país. Precisávamos perder todas estas vidas?
Estamos todos exaustos no país mas também ainda temos olhos para ver. Mudanças promissoras acenam. Esperanças acenam nos corações e mentes. Porém, é fundamental que sempre se lembre, quem destrói nunca sabe consertar. É preciso colocar em seus devidos lugares aqueles que nestes últimos últimos anos trabalharam em prol da destruição do patrimônio do país. Deixá-los soltos é nocivo ao bem coletivo.
Triste ano 2021 chegando ao final. Mas o saldo é positivo. Estamos vivos, estamos bem e, principalmente, temos esperanças e planos. Um ciclo se encerra mas sabemos que outro se inicia. É a lei da vida.
Tenhamos esperança, todos.
Façamos um convite: vamos esperançar!

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