CANTO DO BACURI > Mari Satake: Encontro casual

Por aqui, a vida segue. Enclausurados, permanecemos a maior parte do tempo em nossas casas.
São poucas as saídas. Ao médico, ao dentista, aos laboratórios dos exames médicos anuais ou semestrais. Também às lojas que garantem a nossa sobrevivência ou alguma outra necessidade.
Apesar de vacinadas, nem eu, nem a maior parte das pessoas de meu restrito círculo, se dispõe a romper essa regra de isolamento que nos impusemos. A não ser em algumas pouquíssimas exceções. Mas sempre dentro dos protocolos de segurança.
Nessas saídas esporádicas, de vez em quando, acontecem alguns encontros inesperados.
Numa dessas, encontrei uma velha conhecida. Há anos nos conhecemos, de vista. Dela nada sabia além de seu primeiro nome e creio que ela também, de mim, deve saber apenas meu nome. Pois não é que ao nos vermos na semana passada, surpresas, abrimos um grande sorriso e nos pusemos a conversar por alguns bons minutos. Ficamos ali na rua conversando como se fossemos duas velhas amigas. Falou-me como tem passado os seus dias, cuidando de seus pets de estimação e de suas plantas. Tem dois gatos e um cachorro. Os pets são velhos companheiros de jornada. Passou a cuidar deles, assim que se viu aposentada e sem a velha rotina a que estava habituada. Com as plantas, a história é recente. Começou ano passado logo no início da pandemia. Inicialmente, foram aqueles vasos de supermercados. Hortelã, manjericão, salsa, orégano, etc. Foi tomando gosto com a brincadeira. Em menos de três meses, desde o início da brincadeira, já estava com o quintal todo tomado de vasos. Aquilo estava acabando com a sua lombar, então resolveu pedir a um serralheiro que lhe montasse uma estrutura para acomodar seus vasos e assim facilitar a sua vida de cuidadora de plantas. Toda feliz com sua conquista disse-me que agora tem certeza que boa parte das ervas e hortaliças que consome são realmente livres de agrotóxicos. Agora, é ela quem planta, cuida e colhe. No começo comprava os vasos plantados mas logo foi aprendendo onde conseguir boas sementes, terras e boas técnicas. Um mundo novo que anda desbravando.
Agora, depois deste encontro, já não posso dizer que dela sei apenas o nome. Sei também que é alguém que diante daquela nova situação de isolamento social em que se viu, descobriu um novo jeito de cuidar da vida. E, apesar de tudo, está bem feliz. Digo, apesar de tudo, porque entre tantas outras coisas, ela me disse também sentir muita saudade daqueles tempos em que podia andar pelas ruas de São Paulo ou dos lugares para onde viajava sempre, mas já nem sabe se aquele antigo jeito de viver será possível novamente.
Talvez não.

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