CANTO DO BACURI > Mari Satake: É preciso dar um basta

O telefone toca. Imediatamente, ela põe de lado o tecido que começou a bordar. Seus movimentos já não são ágeis. Até conseguir chegar até o aparelho são muitos os toques de chamada. Desde a última vez que caiu quando repentinamente se levantou para atender o telefone, ela faz tudo vagarosamente para se certificar que seus pés e pernas estão firmes, que não há nenhum livro ou revista caída por perto que possa fazê-la tropeçar. Chega a tempo. Do outro lado, perguntam se é ela. Não responde, quer saber quem a procura. Estranha. Ultimamente quando atende o telefone, quase sempre é alguma gravação querendo falar qualquer coisa sobre a qual não tem o mínimo interesse. Desta vez não é telemarketing. Tampouco ela reconheceu a voz. Ah, sim. Ela é ela mesma. Apenas querem se certificar se amanhã poderá receber a entrega agendada. Sim. Amanhã, ela confirma.
Tenta voltar ao bordado. Já não tem mais a mínima vontade, seu pensamento a leva para outros assuntos. A inquietude a domina. Respira fundo. Tenta se acalmar. Dobra o tecido. Recolhe linhas, agulhas, tesoura. É hora de parar.
Tem vontade de sair, ver as pessoas queridas, andar pelas ruas, ir às lojas que gostava de frequentar, almoçar no velho restaurante da Liba, até mesmo o quilo de guerra aqui da vila. Tantas vezes ela se socorreu ali. Sem chance. Tudo isso são meras lembranças. Ela acredita que quando a atual pandemia deixar de ser uma real ameaça de morte próxima, a relação com as coisas, com as pessoas será diferente. Não sabe como será. Mas sente. Mudanças profundas terão que ocorrer se quisermos nos preservar como espécie. Ela se assusta com o que acaba de pensar. Talvez, outras pessoas também tenham dito isso. Horrorizada corre para ver as manchetes do dia.
Nada encontra que lhe dê alento. Ao contrário. Um circo de horrores passeia pelas manchetes e falas daqueles que ainda pensam no bem coletivo aqui no país. Agora, quando tantos países avançam em seu processo de vacinação em massa da população, temos aqui a guerra das vacinas. Notícias vergonhosas da republiqueta. Não bastasse a politização desavergonhada, os casos de favorecimentos de uns e outros furando a fila da vacinação, agora grupos de empresários tentam fazer a importação direta das vacinas fabricadas em outros países com o aval daquele que foi eleito para cuidar da população. É a tentativa da privatização das vacinas. Uma vergonha. Tentativa que possivelmente não ocorrerá pela recusa da empresa fabricante de fornecer as vacinas a grupos privados. Vergonhosa a classe política do país conivente com as atitudes do cidadão eleito equivocadamente em 2018.
São as privatizações, as fugas de indústrias há anos instaladas no país, o fechamento de inúmeras empresas brasileiras, a população miserável que cresce a cada dia, as inúmeras mortes que aumentam a cada dia e um demônio brincando no planalto. Até quando?
Até morrerem 1,3 mil pessoas por dia? Este número já foi ultrapassado. Muito mal informado este outro que ocupa o cargo de ministro da economia.
É mais do que passada a hora de se promover uma verdadeira faxina por aqui. Não merecemos estes que ocupam postos chaves na condução do país.
Dias de trevas vivemos. Mas há de passar. É preciso dar um BASTA!

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