CANTO DO BACURI > Mari Satake: Dona Hercília

Moradora antiga aqui da vizinhança, lembro-me dela sempre sorrindo. Poucas foram as vezes em que nos falamos algo que extrapolasse os limites dos simples bom dia/boa tarde, mas, de modo geral, nela havia algo que a destacava das outras pessoas. Embora a conhecesse de vista desde que vim morar aqui, só passamos a nos falar um pouco mais, quando eu também deixei de trabalhar como empregada em uma grande empresa. Numa dessas conversas, contou-me que também estava aposentada a poucos meses e, se soubesse que seria assim tão bom, teria se aposentado até antes. Em seguida, como pedindo desculpas pelo dito, se emendou dizendo que estava tudo certo, as coisas são como são e acontecem como devem acontecer. De minha parte, apenas sorri concordando com ela e nos despedimos.
Dona Hercília era mãe de três filhos. Eu conhecia apenas o do meio. O mais velho vivia em Berlim e a mais nova, embora soubesse de sua existência, não a conhecia.
Um dia, num dos encontros ocasionais com outra antiga moradora do condomínio fiquei sabendo. Dona Hercília estava enferma. Havia passado por uma cirurgia e vinha se submetendo a um pesado tratamento pós operatório. Alguns dias depois, fiquei sabendo, havia deixado este nosso plano. De minha parte, apenas orações tardias.
Já tem um certo tempo que ela se foi. Talvez dois ou três anos antes da pandemia. E por que é que estou falando dela agora? Dias atrás, recebi um telefonema de uma conhecida, falando de um morador a quem ela havia acabado de socorrer com o que tinha em sua casa, em sua geladeira. Constrangida, perguntou-me se conheço Alberto. Não. Eu não conheço. Em seguida, mencionou que era o filho de dona Hercília, o filho que vivia em Berlim.
Nada sei dessa pessoa além do fato de ser filho da falecida moradora e irmão de Miguel, o outro filho que conheço e já não mora mais por aqui. Assim como a irmã que também já não mora mais aqui. Mas de qualquer forma, é muito doloroso saber que a fome bateu à porta de um quase vizinho. Minha reação foi imediata, selecionei alguns itens e fiz chegar até ele. Matou a fome dele? Sei que não. Apenas minimizou.
E por aqui, a toada é a mesma. Idiota que sou, continuo trancada em casa, tomando todos os cuidados possíveis para não ser abatida pelo vírus e também em respeito aos outros idiotas como eu que acreditam que tudo isso passará e aqueles que hoje nos chamam de idiotas serão devidamente cobrados pelo imenso mal que vem causando a população. Não há tempo ruim que não se dissipe. A história mostrará.

Nota: nomes fictícios

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