CANTO DO BACURI > Mari Satake: Dona Helô

Nestes tempos pandêmicos quase todos mudamos a nossa rotina. Aqui no pedaço tem uma figura bastante singular. Estatura mediana, magra, corpo ágil e fisionomia sempre muito séria. Até pouco tempo atrás, melhor dizendo, até antes da pandemia, era comum vê-la caminhando aqui pelas ruas com seus trajes de esportista. Sempre só. Coisa rara era vê-la sorrindo ou falando com alguém.
Dia desses, numa de minhas esporádicas saídas, vi dona Helô parada perto de uma árvore admirando umas orquídeas. Aproveitei a ocasião e me aproximei para tentar trocar algumas palavras. Naquele dia, felizmente, dona Helô estava receptiva. Foi logo dizendo de sua gratidão pelas pessoas que cuidam para que aquelas flores continuem florindo mesmo nestes tristes tempos que estamos vivendo. Perguntou-me se dispunha de um tempinho para ela. Sim, claro. Sugeriu então uns bancos logo adiante. Sorrindo, foi logo determinando onde cada uma poderia ficar, era a regra básica. Estava cheia de curiosidades, quis saber como tinham sido os meus dias, o que andei fazendo neste tempo todo em que não nos vimos.
Também ela falou de si. Falou de seus tempos de juventude, seus anos de profissional dedicada arduamente ao trabalho, depois a aposentadoria e o aprendizado com um novo jeito de viver e agora…. Ah! agora, agora foram tantos os momentos em que fechada só em sua casa se indagava sobre o seu fazer no mundo, a sua importância, teve tantos momentos sombrios. Não quer falar neles, mas, felizmente, agora já conseguiu até sair novamente e sorrindo diz que aprendeu uma coisa, ficar em casa reclusa não quer dizer que deva se fechar para tudo, se deprimindo.
Dona Helô se despediu, continuei ali por mais um tempo pensando sobre muitos dos momentos sombrios que também tenho vivido nestes últimos tempos. Também algumas amigas de longas datas com quem nos permitimos falar de nossas angústias, todas nós temos ou tivemos nossos momentos sombrios e nem daria para ser diferente diante das tantas incertezas que nos cercam. Estamos há onze meses fazendo malabarismos para sobreviver nestes tempos pandêmicos na terra do desgoverno que aqui se instalou.
É simplesmente inacreditável. São tantos os descalabros, as indecências arquitetadas contra a população nos últimos anos e me pergunto até quando a população resistirá passiva a isto? Me pergunto como é que um país da dimensão do nosso e que, até há bem poucos anos era tido como melhor exemplo de sucesso para grandes campanhas vacinais, como é que se justifica hoje estar tão atrasado como está? Se houvesse vontade política, é bem possível que o país pudesse estar liderando no processo de vacinação em massa da população e, no entanto, a realidade tem nos mostrado que estamos muito atrasados. & nbsp; Será este atraso proposital? Para manter a população presa sem poder sair às ruas enquanto a boiada passa a bel prazer dos donos do poder e do dinheiro?
Até quando? Até quando teremos que fazer nossos malabarismos mentais para sobreviver enquanto este desgoverno vai nos tirando tudo?

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