CANTO DO BACURI > Mari Satake: Cenas do cotidiano em tempos de pandemia

Exausta, a menina deu um berro dizendo que está cansada de tudo isso. Ela quer descer, ver as pessoas, encontrar suas amiguinhas do prédio, ir para a escola, encontrar todos da classe, visitar os avós, encontrar as tias e os priminhos. Mas não pode fazer nada disso. A vida ficou muito chata depois dessa corona. Chorando pergunta à mãe se isso vai ser para sempre. Se não é para sempre, então quando é que vai acabar?
Sem saber bem o que dizer, a mãe embala a menina em seu colo, dizendo apenas, vamos nos acalmar! Ao ver a menina nos braços da mãe, o pequeno se aproxima das duas e com suas mãozinhas começa a afagar os cabelos de sua irmã, cantando a canção de ninar que a menina gosta de cantarolar. Aos poucos, a menina vai se acalmando e adormece. A mãe a acomoda ali mesmo no sofá. O menino, com os dedos, faz um gesto pedindo silêncio à mãe e fica ali perto, velando o sono da menina.
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O pequeno levantou amuado. Está cansado de brincar sozinho. Quer um cachorrinho. Tenta falar com a mãe. Agora a mãe não pode. Está em reunião. A mãe fica ali trancada no escritório, na frente do computador e com os celulares, só saindo de vez em quando. O pai saiu de casa antes de todos acordarem e não deve voltar tão cedo.
A mãe sai de seu escritório, chama o menino. É hora de tomar um lanche e começar a assistir às aulas. A mãe fica ali com ele só um pouquinho, até se certificar que está tudo funcionando bem e volta às suas atividades, fechada em seu escritório, outra vez.
O menino remotamente participa de suas atividades, faz suas lições, interage com os colegas e quando as aulas terminam, ordeiramente recolhe o seu material de estudo. Tablet, caderno, lápis, borracha etc. Quando a mãe chega novamente, ele, pacientemente, tira novamente seu material para mostrar à mãe o progresso do dia.
Pausa para o almoço.
Outra vez, o menino diz à mãe que nunca mais brincou com nenhum amiguinho ou com seus primos. Quer um cachorrinho, ele pede. Diz que sim, diz que sim, por favor!
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A avó semanalmente fazia suas aulas. Cantos tradicionais, dança clássica, ioga, inglês e o que mais lhe desse na telha. Tinha a agenda sempre muito lotada. Mas para o netinho que mora na mesma região e estuda na escola do lado de sua casa, ela sempre tem todo o tempo do mundo. A pandemia chegou e mudou tudo por ali também. Também a avó anda fazendo as suas atividades remotamente. E gostou da brincadeira.
Mas sente uma imensa saudade de sua velha rotina e hoje já nem acha que tudo voltará a ser como antes.

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