CANTO DO BACURI > Mari Satake: Air doll

O filme é de 2009. Nem sei se passou por aqui no circuito comercial. Não me lembro. Se passou, escapou de minha atenção. Nos velhos tempos normais, ficava sempre atenta às programações das salas de cinema. Mas enfim, vi agora num dos canais de streaming.
Do conhecido e apreciado diretor de cinema Koreeda Hirokazu, retrata a história de um solitário homem de meia idade que tem como companheira de vida uma boneca, a quem chama de Nozomi. Trata-a como se ela o compreendesse, fala com ela como se estivesse falando consigo mesmo. Ao sair para o trabalho, despede-se dela certo de que, ao chegar ela estará ali, pronta para recebê-lo. Sua chegada de volta para casa, também não acontece de forma indiferente, mal abre a porta de entrada, ansioso, já anuncia a sua chegada, apressando-se ao encontro de quem acha que o espera. Como proprietário cuida dela como se ela
fosse realmente alguém com quem pudesse interagir numa vida em comum, até levando-a em seus passeios nas horas de lazer, como se fossem namorados.
Acontece que depois de um certo tempo, aos poucos, Nozomi sozinha começa a fazer suas pequenas incursões pelo mundo lá fora, entrando em contato ou mesmo, apenas constatando que existem outros seres que andam e falam. Um dia, descobre um pequeno universo que a atrai e justamente naquele momento precisa de um atendente.
À partir daí, o antigo proprietário, começa a ficar num segundo plano e com Nozomi, já ciente de que alcançou um novo patamar em sua existência, ao sentir que “adquiriu” um coração ou alma, passamos a ver de forma mais explícita as reflexões pelas quais o diretor parece querer nos conduzir através das interações entre Nozomi e seus assemelhados. Entre os seus assemelhados estão aqueles que como ela, bonecos infláveis conseguiram um coração/alma e os demais humanos, estes também passíveis de categorizações.
De modo geral, o que vemos em grande destaque é um mundo repleto de lixos, materiais descartáveis produzidos e consumidos pela categoria dos humanos. Lixos, lixos e mais lixos, também estes categorizados como incineráveis e não incineráveis.
Numa das cenas, Nozomi vai em busca de seu criador e em sua interlocução com ele faz mais uma triste descoberta, apesar de sua recente aquisição de um coração/alma não é incinerável, o que a diferencia de seu criador e demais humanos. Também este, de alguma forma, parece mostrar certa perplexidade, ao indagar à sua criação se em algum momento de sua existência sentiu ou viu algo de belo ou apreciável que pudesse lhe apontar.
Como resposta, apenas um leve esboço de sorriso.

Comentários
Loading...