CANTO DO BACURI > Mari Satake: Agosto de 2021

Pelo vidro da janela, um sol tímido, passageiro, a claridade logo dá lugar à sombra. Em seguida, reaparece. Some novamente. Constante, apenas o farfalhar das folhas das árvores que ainda resistem, no grande terreno lá fora.
Início de um novo mês. Mês de agosto. Habituou-se, desde sempre, a achar que não gostava deste mês. Primeiro, a implicância com o nome. Agosto remete a desgosto, pensava. Menina ainda, a morte da avó no mês de agosto. Depois, anos mais tarde, a morte de seu amado cão de estimação que sempre esteve ao seu lado durante a infância toda. Muitos anos depois, já adulta, a morte da mãe. Mas, a vida precisava seguir adiante. Com a mãe tinha aprendido que a vida exige que estejamos sempre ativos, cuidando da vida, da nossa e daqueles que nos cercam. É o que ela sempre se propôs a fazer, apesar de tudo.
Agosto de 2021, ainda dentro das casas a maior parte do tempo. Hoje, as saídas são modestas, solitárias. Apenas para cuidar da sobrevivência. Física e mental. Sempre mascarados. Distantes uns dos outros.
Que tempos são estes? Lembra-se dos tempos iniciais deste novo século, falava-se da globalização. Viveu o início da disseminação das novas formas de comunicação no mundo do trabalho, aquilo a desgostava, achava que, de certa forma, era o início da desumanização nos ambientes de trabalho. Mas, a carga de trabalho era grande, as cobranças eram muitas, e, em sua função no dia a dia, não havia lugar para a discussão daqueles assuntos. Foi se adaptando e também utilizando as facilidades que a tecnologia proporciona. Nunca foi contra a tecnologia, muito pelo contrário. No entanto, nunca deixou de questionar a forma como vinha sendo apropriada. Agora, já fora do mercado de trabalho, ela apenas constata, seus temores naqueles anos iniciais do século acabaram por se materializar resultando nesta precarização total que se dissemina em vários setores produtivos. Chamam isto de empreendedorismo. Uma nova forma de escravidão, a que milhares de cidadãos são obrigados a aderir para garantir o pão de cada dia.
E, enquanto isso, o vírus do momento continua assombrando. A cada dia, surge uma nova variante a assombrar cientistas, médicos e defensores da vida humana. Por outro lado, os países com suas políticas continuam quase os mesmos. Cada um cuidando do seu “quadrado” de acordo com a própria cultura a que estavam habituados. Qual a nossa saída enquanto humanidade?
Apenas indagações. Mas, se persistirem as mesmas formas de pensamento dominante no planeta, onde grupos mais fortes se sobrepujam sobre outros mais fracos, teremos como saldo final, a aniquilação da espécie humana. Será este o fim dos humanos?
Mais simples é acreditar que esta onda ruim passará com a vida retomando seu curso mas, apesar da esperança, é quase impossível acreditar que a humanidade conseguirá sobreviver se o mesmo padrão de pensamento dominante permanecer atuante. Novos e mais fortes vírus surgirão. A natureza prevalecerá.

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