CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O deus das pequenas coisas

Acostumado com autores ocidentais, os romances a que estamos acostumados a ler, quando deparamos com a produção do outro lado do mundo, existe uma surpresa. Trata-se de outra cultura, com outros valores, portanto, e uma maneira peculiar de narrativa. É o que acontece com O deus das pequenas coisas, de Arundhati Roy, da Companhia das Letras, de 2020. Ela foi premiada pela obra no Booker Prize, de 1997. Sendo esta obra a primeira a ser publicada por ela. Autora nasceu em Kerala, Índia.
Não que exista um eixo central neste romance, que vai avançando em direção a um final, que esperamos com ansiedade. Existe, de fato, um final. Mais do que isso, a maneira de se contar as tramas que acontecem em torno de uma família, a Casa Ayemenem, numa intrincada relação de sentimentos, tudo pode ser minimizado como fossem acontecimentos corriqueiros. Não precisa ter um único personagem, sendo todas as histórias vinculadas capazes de se criar um ambiente distanciado do tempo do trabalho. Pelo menos, como percebemos entre nós, numa luta persecutória contra o tempo. Ao invés disto, existe um olhar demorado nos detalhes da vida, como numa coruja, numa borboleta, na garrafa da Coca Cola.
Os acontecimentos deste romance acontecem em 1969, a partir do universo de dois gêmeos univitelinos: Rahel e Estha. Sempre estão juntos, a primeira menina, o outro menino. Como são crianças, ainda não dispõem de um passado. Vivem apenas o presente, com olhos e ouvidos, também o nariz nos aromas de uma loja de picles e polpas, mantida pela família. Há muitos sabores e cheiros nesta obra, não somente os bons como os desagradáveis, pois se trata da Índia. Afinal a Índia foi justamente o lugar em que se encontravam as especiarias, tão necessárias para temperar a comida dos europeus durante o período da exploração dos caminhos marítimos. E desta forma, como uma cultura dos cheiros, o romance também exala alguns como cravo e canela, açafrão e noz moscada.
Desta forma, o romance deve ir temperando com sabores diversos, também limonadas e laranjadas, de cor verde e alaranjada, como que a vida tivesse que ser experimentada em doses pequenas, mas sentidas através dos nossos órgãos. Assim, as coisas pequenas vão acontecendo, com alegrias e tristezas numa sociedade de castas. Conforme o hinduísmo, assim devia acontecer, alguns em postos mais altos, como sendo a cabeça de Brahma a dos brahmins, os sacerdotes, abaixo deste mais três.
Em situação inferior, aqueles que ficam na base desta pirâmide social, estão os intocáveis. Entre estes encontram-se os paravans, pelayas e pulayas. Um destes personagens, Velutha, conforma-se com a sua condição. Já a situação destes intocáveis foi pior. Encontravam-se abaixo, inclusive dos cristãos sírios, fora de uma estrutura social valorizada pela religião hinduísta. Outros cristãos também estavam presentes por influência da colonização inglesa, que estendeu de 1858 a 1947. Mesmo com a retirada dos ingleses, uma certa saudade, ainda animava os indianos personagens deste romance. Inseridos na cultura local, mantinham também uma crença no cristianismo inglês e romano.
Todos os temperos e aromas devem ser transmitidos nesta escrita. O tempo contado é mais mítico do que histórico, como que os fatos acontecessem sem uma ordem, abusando dos avanços e retrocessos, criando-se um painel difuso de total descontrole por parte da mentalidade que pretende impõe uma organização dos eventos. São momentos que tem a sua importância, como lembranças remotas, que unem a outras, mudando totalmente do assunto tratado. Está mais próximo do tempo vivido, cujos momentos, de um instante para outro, podem se transformar de maneira aleatória. Isso possivelmente seja o mérito deste romance, que se desenvolve em pequenos ciclones, que se desmancham e outros se formam.
Os vários personagens que surgem têm uma história que quer ser contada, com as suas tragédias e alegrias, que vão dando o sal (e o açúcar) necessário para ser provada nesta vida. Em cada evento, algo deixa a sua marca, às vezes, imperceptíveis. Por uma palavra maldosa dita pela filha, diz a mãe: “quando você magoa as pessoas, elas começam a amar você menos. É isso que acontece quando se fala sem pensar. As pessoas amam você menos”. Isso pode ser um tempero forte, em pitadas nem tanto generosas assim.
Sem controle desta vida, como que repetindo Bhagavat Gita, as coisas que acontecem provocam acidentes, saem os feridos e os provocadores das feridas, num processo causal e incontrolável. O intocável acaba se relacionando com uma mulher de outra casta, considerado uma imoralidade. Assim, ainda que soubesse disso, o intocável deixa-se levar pelo fogo do amor, sabendo de antemão que o final seria penoso para ele. O romantismo é uma característica da literatura ocidental, o que não ocorreria numa outra. Isso torna a literatura um campo de possibilidades.
O que se aprende com literatura de outras terras, desconhecidas e estranhas, é que a maneira de contar pode ser de uma outra forma. Mas os seres humanos são únicos. Mas são diversos ao mesmo tempo. Nestas narrativas inventadas e sonhadas têm um sabor da vida, com temperos equilibrados e devidamente percebidos pelos nossos canais de sensação. Em se tratando de literatura da Índia, muito rica devido aos textos sagrados, a impressão que passa é de que os nossos sonhos – ou deles – são sonhados e repetidamente sonhados pelos séculos. Nada mudou tanto assim. A vida continua sendo um sonho com sabores, assim a literatura deve falar justamente destes sonhos.

Comentários
Loading...