CANTO DO BACURI: Contos de Ernest Hemingway

De certo, nunca Ernest Hemingway vai ser atirado no ostracismo. Alguns autores fazem sucesso, num determinado período, depois ficam na lembrança em prateleiras dos sebos, ou ainda no fundo de nossas próprias estantes. Ernest Hemingway é um desses escritores geniais, que retomamos sempre com alegria: jamais envelhece. Ele morreu em 1961, provocado por um suicídio, aos 62 anos. Seria ele capaz disso? Não entremos no mérito da atitude. O que podemos dizer dele é a quantidade de obras, como O Velho e o Mar (1952), Por quem os sinos dobram (1940), As neves de Kilimanjaro (1936) entre outras. Estas foram levados para o cinema.
A obra que pretendo comentar é o volume 3 de Contos, da Bertrand Brasil, de 1999, São Paulo. A tradução é de José J. Veiga. Para quem o desconhece, o tradutor também foi escritor de literatura fantástica. Pode-se comprar os contos de Hemingway nas principais livrarias.
Nesta obra volume 3, Ernest Hemingway escreve a respeito de sua vida de aventuras, nas quais buscava inspiração e material para as publicações literárias, e como jornalista, em produzir reportagens. Teria sido ele corresponde de guerra durante a Guerra Civil Espanhola, que durou de 1936 a 1939. Antes viveu os anos de refúgio em Paris. Também viveu em Cuba, de 1939 a 1960. Conheceu a Fulgêncio Batista, depois a Fidel Castro com quem nutria simpatia.
Em 1954 recebeu o Prêmio Nobel em Literatura. Toda a sua vida atribulada, apaixonado pelas aventuras, também as amorosas, fez de Hemingway alguém que conheceu profundamente as emoções levadas ao extremo. Neste livro Contos, volume 3, muito de sua vida está presente, ao revelar a insensatez do homem diante da guerra. Como correspondente na Guerra Civil Espanhola, o jornalista Ernest Hemingway ficou ao lado dos combatentes republicanos, que lutavam contra as forças que impunham uma nova ordem autoritária, de Francisco Franco. Não se tratava de tecer considerações favoráveis do lado legalista, pois nas barricadas o que acontecia, conforme as anotações do escritor, foi total perda de humanidade. Existia uma loucura, que consistia em matar, sem que houvesse uma causa razoável presente.
Trata-se dos contos A denúncia, A borboleta e o tanque, Véspera de Batalha e Ao pé da cordilheira. O estilo de Hemingway é direto, o de um jornalista ao relatar fatos. Isso parece assustar. Os contos costumam assustar ao mostrar uma realidade, que ainda não foi modificada pelas necessidades morais, ao contrário. Naquela guerra estranha, se do lado dos fascistas do General Franco, o apoio chegava da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, os legalistas, apesar de contar com a simpatia dos países democráticos, diretamente ninguém se envolvia. O que existia era uma Brigada Internacional, de voluntários vindos de países como Rússia, França, Inglaterra, Polônia e Estados Unidos. Assim, são estrangeiros lutando e morrendo sem que seus países tivessem envolvimentos diretos. Entre estes, as mais diversas línguas são faladas, em meio aos espanhóis dos mais diversos projetos políticos, de republicanos liberais a comunistas, anarquistas e anticlericais.
Se existiam execuções sumárias de traidores, desertores, do lado legalista, o que teria acontecido com ênfase do outro lado, um brigadista salvou um soldado alemão, sem que nada tenha contra ele. Este é o absurdo da guerra. A Guerra Civil Espanhola irá antecipar em termos de barbárie, a invasão alemã na Europa Ocidental e a loucura de Hitler e do 3º. Reich. Se os alemães perderam a guerra em 1945, o mesmo não pode ser dito a respeito do fascismo de Franco. Foi justamente este que venceu a guerra, cujo regime autoritário durou até 1975.
Outros contos fazem parte da coletânea. Num destes, denominado Uma travessia, é sobre um barco que faz serviços extras em Cuba, como atravessar 12 chineses para o lado dos Estados Unidos. O dinheiro é bem quisto. Por outro lado, o serviço é arriscado demais. Se os chineses conseguiram aportar no continente é uma outra história. O conto é de 1933, muito tempos antes do regime de Fidel. O interesse dos americanos por Cuba é antigo, cuja pretensão realizou-se com Porto Rico. Sem tomar diretamente posse de Cuba, aquela ilha pobre e corrupta, mantida daquele jeito, interessava aos veranistas ricos, principalmente americanos. Mas passar prováveis nativos como imigrantes aos Estados Unidos, é uma questão a parte.
Um conto bastante simples e profundo é O cabineiro. Teria acontecido numa viagem de trem dos Estados Unidos para o Canadá. Seu protagonista é um menino. Naquela viagem, o menino conheceu um camareiro do trem. O camareiro era um homem bom e negro. Justamente para o menino que o camareiro contou as incertezas de ser negro nos Estados Unidos. Tão cruel como qualquer guerra era a condição humana. Estes meandros da alma humana, numa procura desenfreada por algo que não sabe do que se trata, entre loucura e sanidade, uma linha tênue separa estas duas dimensões.
Pode ser que Ernest Hemingway tenha procurado o sentido da vida, mas encontrou apenas o absurdo da existência. Ele foi um homem de sua época. Gostava de estar no meio do conflito, dos homens e touros, como nas touradas de Madri. A violência fazia parte da história humana, ainda que condenável. Seria isso uma verdade? Tenho dúvidas. Mas tenho dúvidas sobretudo de minhas assertivas anteriores.

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