CANTO DO BACURI: Bola de Sebo e outros contos

Pode ser um livrinho comum, comprado numa banca de jornal, dessas edições populares de brochura. Até os direitos de propriedade caíram no domínio público. Muitos tesouros literários podem ser adquiridos. Foi o caso de Bola de Sebo e outros contos, de Guy de Maupassant, numa edição de 2003, da Martin Claret, São Paulo. Foi numa feira de livro que comprei com preço 50% mais barato. É justamente nestas feiras, que temos diante uma quantidade enorme de ofertas, de todos os tipos e qualidades. Possivelmente não compraria na banca de jornal, por motivos diversos, mas em se tratando de um grande mercado de livros, quando tenho em torno de 200 reais para gastar, a situação é diferente. Pelo menos, é assim que acontece comigo.
Cada livro adquirido tem uma história por trás. Em relação a este, tinha ouvido falar do autor do fim do século XIX. Mais de uma pessoa falara sobre ele. Outras pessoas, que igualmente eram leitores comuns como eu. Nada demais. Guy de Maupassant foi influenciado por Gustave Flaubert, com quem trabalhou. Seu estilo era o realismo, o mesmo de Machado de Assis e Aluísio de Azevedo. Além disso, o mais importante, seria ele um dos expoentes na produção de contos. Para quem aprecia contos, seria afortunado caso lesse Guy de Maupassant.
Bola de Sebo é o título do livro e o nos inaugura na leitura deste autor. Seu estilo é direito, sem maneirismos, digressões exageradas. Este primeiro conto descreve uma viagem de uma cidade para outra, na região de Normandia, durante a ocupação alemã na Guerra Franco-Prussiana. Durou esta, de 1870 a 1871. A viagem realizava-se numa diligência com quatro cavalos, em que acomoda até dez passageiros. Pretendiam abandonar Ruão e dirigir-se a La Havre, ainda zona não ocupada. Dentre os passageiros, casais de burgueses, vendedor de vinho, de algodão, duas freiras e Bola de Sebo. E outros que não citarei. Ter a companhia de Bola de Neve incomodava, pois tratava-se de uma prostituta.
Mas de todos os passageiros, a prostituta era justamente o melhor deles. Guy de Maupassant é um crítico mordaz da sociedade, da falsa moral da classe média, que começa a ascender, endinheirada e hipócrita. São esnobes e individualistas. Este é o tema a ser explorado pelos autores do realismo: a miséria humana. Quanto às freiras, não se posicionam, nem para o bem nem para o mal, apenas rezavam os seus terços. Ignoravam os acontecimentos ou simplesmente faziam de conta desconhecer os fatos. Quando vinha a fome, ninguém tinha lanche, a não ser Bola de Sebo. A jovem normanda não escondia a sua condição; suas roupas já a revelavam, com as carnes exuberantes e as tetas querendo saltar de seu vestido. Existe um exagero em retratar Bola de Sebo, que logo a sua simpatia seduz o leitor, e os olhos gulosos dos passageiros na cesta que ela traz. Tudo aquilo pode ser repartido, assim procede Bola de Sebo.
Por sanar momentaneamente a fome da companhia de viagem, esqueceram da profissão da ofertante. Existe uma condição mais emergente do que a moral, dos costumes refinados, lencinhos de seda, que é material. No caso, quer dizer, a fome. A fome torna todos iguais em sua biologia igualitária. Fora disso, no esnobismo ideológico dizem ser um bonapartista e outro orleanista. O final deste conto é marcante. Não contarei. O autor não poderia ter escolhido algo tão marcante. Este é considerado um dos melhores contos de Guy de Maupassant. Existe uma crítica social e uma ironia nos gestos e uma falsa mentalidade que cai por terra em condições extremas.
Outro conto consagrado é Pensão Tellier. Como o anterior, acontece na região da Normandia, sendo o próprio Guy de Maupassant um nativo local. Lá existe a Pensão Tellier, que fica em Fécamp. É muito bem frequentado, normalmente à noite, quando a freguesia aparece confundindo-se com as sombras das luzes das lamparinas. São os comerciantes, o juiz, o coletor de impostos, o filho do delegado, todos amigos desejosos em compartilhar momentos de relaxamento. Isso, sem contar a presença de marinheiros franceses e ingleses, que brigam, fazem arruaça. Estes não precisam esconder a cara, os outros sim. Parece que Guy de Maupassant tinha uma afeição pelas operárias que tralhavam em tais estabelecimentos comerciais.
Em Mademoiselle Fifi novamente o tema da prostituição aparece, tendo em Rachel, de origem judaica, a grande heroína. O nome Fifi seria a alcunha que os franceses deram ao marquês Wilhelm von Eyrick, um “lourinho orgulhoso e brutal para com os soldados e duro com os vencidos”. A humilhação dos perdedores chegava ao ponto do comandante prussiano esticar as pernas sobre o mármore e marcar progressivamente com as esporas da bota. O próprio Fifi atirava nas pinturas e explodia os enfeites e vasos chineses. O padre se recusava a anunciar os sinos. Mas um dia, os sinos começaram a bater, inesperadamente. Claro, havia um motivo.
Deliciar-se com os escritos de Guy de Maupassant nos alivia das dores da insolência humana, das aparências, que mais enganam do que dizem verdades. Sempre foi assim. Em meio a falsas concepções de mundo, de um mundo melhor, o que nos depara é que nada mudou tanto assim. A literatura nos mostra as coisas acontecendo, de maneira incerta, em caminhos errados, mas que produz uma história. Não se trata da história idealizada, mitificada ou utópica. Fala sobretudo da condição humana, que é totalmente iludida. E na ilusão a história se torna real.

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