CANTO DO BACURI: A morte de Ivan Ilitch

Não é necessário procurar muito para encontrar uma boa literatura. Muito delas expostas nas bancas de jornais, em publicações livro de bolso, os chamados pocket book. Foi o caso de A morte de Ivan Ilitch, 2010, da LPM, Porto Alegre. O autor, Liev Tolstoi, que entre nós, por influência da versão espanhola, passou a ser conhecido por Leon Tolstoi. Não se trata de um romance, era uma novela. Menos denso do que um romance, a novela é um gênero em o narrador se debruça sobre um personagem em especial, como no conto. Por isso, A morte de Ivan Ilitch pode ser lida numa tarde.
Aquela novela foi escrita em 1886, anos de fim de século, em que os melhores autores de língua russa surgiram, inaugurando um estilo intimista, psicológico e existencial de criação literária. Liev Tolstoi é um deles, ao lado de Dostoiévski, Tchekov e Pushkin.  No caso de Tolstoi, o seu nome está associado a obras como Paz e Guerra (1867) e Anna Karênina (1877). É da mesma geração de Sigmund Freud, Karl Marx e Friedrich Nietsche, todos estes de língua alemã.
Período bastante promissor para as revoluções no fator conhecimento, os russos contribuíram em desvendar a faceta da alma humana, quase cruel, um tanto visceral, no comportamento humano, nada que fosse muito racional. O título A morte de Ivan Ilitch pode assustar alguns desinformados, outros se mostram curiosos, outros ainda atraídos pela novidade. O possível incômodo em ler esta obra poderia ser igualmente o incômodo que sentia Liev Tosltoi com o mundo em que vivia, tal como ele, de uma alta burocracia, palácios suntuosos, esnobes e frustrados. A própria vida dele de negação daquele mundo, regado na exuberância da dinastia Romanov, serve de assunto para a sua produção.
Em A morte de Ivan Ilitch, o personagem de destaque é justamente o futuro premiado a navegar pelo rio Estige. Quando ele morre, assim se inicia a novela, os amigos de ofício, aqueles que compartilhavam da escalada jurídica num departamento estatal, como devia ser, discutem a que cargos subirão, pois vagara um posto. Claro, a morte significa uma mudança no organograma de uma empresa, no caso em questão, na burocracia jurídica, sendo Ivan Ilitch um jurista de carreira.
Neste sentido, o narrador da novela se mostra irônico com a situação em que a ganância é fator determinante para o sucesso. Se isso ocorre agora, desfavoravelmente em relação ao falecido, supostamente teria ocorrido com o próprio em sua determinação em conquistar benefícios para si quando o vento soprava a seu favor. Ivan era filho de um oficial de carreira, Ilya Yefimovich Golovin, que por tempo de serviço não podia mais ser despedido. Entretanto, ele tinha sido alguém desprovido de talento para o cargo, tanto quanto os outros, por indicação ou influência na máquina administrativa.
Diferente do pai, Ivan após diplomação em Direito, ao ingressar no serviço público, atende rigorosamente o que se exigia de um jurista. Isso não acontecia com seus irmãos, um indolente, outro rebelde demais. Ivan consegue se adaptar ao trabalho. Tal inocência começa a perder as cores originais quando as necessidades sociais exigem dele uma atitude mais centrada. Não deve se acomodar no cargo, deve buscar por postos mais elevados, aumentar o salário, buscar benefícios e cultuar a vaidade. Quando percebe que está melhorando, cada vez mais, busca uma noiva para casar. De preferência uma mulher fina e de posses. Conhece então Praskoya, bonita o suficiente para ele, de uma família com posses moderadas. Poderia ser melhor, mas isso não o incomoda tanto.
A carreira de Ivan Ilitch é rápida, com a conquista continuada de cargos, ainda que tenha de mudar de cidade, de uma vila para São Petersburgo, desta para o interior, almejando possivelmente Moscou. Cada vez mais, a esposa exige maiores benefícios. Ainda está, de fato, bem. Quando algum bem chega, se torna depois insuficiente. Aos 45 anos Ivan Ilitch morre. Antes disso, acometido de uma dor profunda sofre dos males do corpo, atacando primeiro o fígado. Sabe que vai morrer, mas o médico nada diz a respeito, nem os outros. Vai acontecer, a qualquer hora. Continua naquela condição, a tomar morfina para que em sua da falta de lucidez durante o sono, a dor seja esquecida. Não demora muito, a dor volta em estado de vigília.
Uma revelação acontece em Ivan Ilitch, quando se depara de que sempre viveu na mentira, e como ele participara desta trama. Agora, todos mentem. Seja a esposa, seja a filha, que ao se dirigir a ele, diz: “está melhor hoje?”. Seria irônico, talvez cruel tal questão. O que deseja Ivan é morrer sossegado. Seria um alívio para ele e para os vivos. Para a própria esposa, interessada em receber o prêmio do governo pela perda, e mais alguns benefícios, de maneira inapropriada, mas possível.
Seja um juiz, seja um economista, seja um pastor evangélico, todos somos humanos com todas as fraquezas possíveis. A novela de Ivan Ilitch se mostra mais atual do que nunca. Sempre foi assim. Da mesma forma que a corrupção humana é uma condição a ser estudada antes de combatida, nem tudo pode ser considerado um mal. Ivan Ilitch percebe que duas pessoas mostram desinteresse no que o mundo impõe como regra cultural distorcida: o egoísmo. Um é o servo Gerassim, o outro é seu filho menor.
Estamos falando da Rússia do século XIX, na passagem para a modernidade, que apesar de todas as transformações, parece não ter mudado tanto assim. Isso está mais próximo de nós do que possamos imaginar.

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