CANTO DO BACURI: A moralista

Dinah Silveira de Queiroz

Retomemos neste artigo um conto que foi selecionado pelo organizador Ítalo Moriconi, no intitulado Os cem melhores contos do século, da Objetiva, São Paulo, 2000. De forma temática, ele classificou os melhores dos anos 40 e 50, como sendo “Modernos, maduros e líricos”. São 16 contos, de acordo com a sua preferência. Esta escolha foi pessoal, não se atendo às outras questões metodológicas do campo da crítica literária. Também ao comentar um destes contos, dos anos a que se refere, é pessoal.
Daqueles apreciados, a escolha de A moralista, de Dinah Silveira de Queiroz, é o que mais me agradou. Isso não tira o valor dos outros, como Osman Lins, Murilo Rubião e Rubem Braga. Os anos 40 e 50, tratam-se do período do Governo Vargas, da Segunda Guerra Mundial, da segunda volta de Vargas, seguido de governos populistas e o perigo que oferecia o comunismo. A moralista é um conto que trabalha com a noção de que os bons podem ser, por outro, algo inverso. O que se conta com humor, inicialmente, vai mudando de rumo para um fim inesperado. O humor da autora é do que se conta a respeito de uma mulher, dona de uma loja, de uma cidade chamada Laterra. Não se diz onde fica. Quem conta é uma filha desta mulher.
Por algum motivo, tinham percebido de que a mulher tinha um enorme carisma em desenvolver discursos moralistas, que sensibilizavam os ouvintes. Cada conselho para todas as situações, seja dificuldades no lar, questões econômicas, qualquer assunto que fosse, lá estava ela metida. Não havia um problema que ficasse sem solução. Ela própria passou a acreditar neste talento, que a narradora, de maneira irônica, passa a construir no discurso que desenvolve. A situação fica muito mais favorável, quando o padre da paróquia local é transferido, ficando os paroquianos sem um padre. Nesse momento, acaba assumindo a função do padre nos assuntos de aconselhamento. Lá está ela encantando com suas palavras afáveis, de elevação, em nome dos bons princípios. Chegam a chamá-la, ironicamente, de padra. Não era ser uma padra, que a levava a praticar atos caritativos aos outros. O fato de ser o foco da atenção, que pudesse alimentar a sua ânsia de aconselhar, seria um dos motivos?
Não se sabe o que leva uma pessoa a se tornar conselheira, uma defensora da moral e dos mais elevados princípios. Possivelmente era o que acontecia com a personagem em questão. Talvez tivesse realmente uma alma caridosa, cultivada pela religião. Talvez fosse uma santa? Todas estas hipóteses são descartadas pela própria narradora. Nem mesmo rir alto em público, escancarando um despudor era compatível com a sua posição de conselheira. Com a ausência do padre, os antigos frequentadores das missas fundaram um clube, “Círculo dos Pais de Laterra”, que funcionava na sede da prefeitura, em reuniões periódicas.
Acontece que com o passar dos meses, ajudando e auxiliando os pobres de espíritos, os necessitados de conselho, os desencaminhados, chega até ela um jovem, que diz ser um viciado. Ele implora ajuda. Implora toda forma de apoio para recuperar-se da má sorte. Claro, a mulher faz mais do que aconselhar, recolhe-o em sua casa. Diz acreditar que a vida em família poderá reverter aquela situação. Que situação? Não se fala qual era o vício, possivelmente a bebida ou alguma outra de natureza moderada.
Aquela mulher emprega-o a trabalhar em seu comércio. Não queria salário, apenas o aconchego familiar. Mostra-se dedicado. Não reclama nunca, nunca se intromete em assuntos alheios. Nas compras acompanha a patroa, carregando as mercadorias. Chega até a acompanhar a mulher nas orações do terço. Nada havia que o desabonasse. Entretanto, o marido não se sentia bem com aquela presença, rondando os corredores da casa. Era na casa que ele realizava as refeições, somente deixando o local para o repouso noturno. Num momento, pede à esposa: “Acho melhor que ela vá embora”. O pedido não despertou consideração alguma, como nunca tivesse acontecido. Só ficou o pedido, pois do marido nenhuma atitude foi tomada. O que decidira a mulher, era o melhor para todos. Assim foi sempre, assim ficou, se tudo estava bem, para quê mudar?
Algo acontece entre os dois, que não é revelado, que reverte a situação. “Você tem razão”, diz a mulher ao marido. O que teria acontecido? Não se sabe. Deixou um vácuo, sem explicação. Teria dito algo o rapaz que ofendeu a mulher? É uma hipótese. Ou o que mostrou o rapaz era insuficiente para justificar qualquer tipo de ajuda? Pode ser. Este é o momento do conto que produz uma irrealização por parte da protagonista, sem que ela tivesse que dar justificativas. O rapaz não precisava mais de ajuda, que, assim fosse entregue ao próprio destino. A mulher, sem outros incômodos, teria continuado a agir como sempre: aconselhando. Por outro lado, aquela conselheira moralista ocultava uma alma humanamente controversa.
O que se levanta a respeito é de que não se trata do outro, mas de nós mesmos. Seríamos levianamente compassivos, ao mesmo tempo egoístas e maldosos? Ou quanto mais queremos ser compassivos, mais o lado obscuro tende a aparecer, como a sombra posta pela psicologia analítica? Ao invés de esconder o lado perverso nosso, podemos reconhecer a sua existência e cuidar para que ele não se vingue dos nossos discursos moralistas. Não se trata de enaltecer a Branca de Neve e os Sete anões, em detrimento à bruxa, pois a Branca de Neve e os Sete anões podem ocultar algo extremamente tenebroso. Não se sabe? Podemos começar a desconfiar dos muito bonzinhos. Somente isso.

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