CANTO DO BACURI: A lebre com olhos de âmbar

Numa conversa com um, com outro, de repente uma voz se fez anunciar: “Vocês conhecem A Lebre com olhos de âmbar?” A pergunta ficou suspensa. Das pessoas reunidas na mesa, reinou o silêncio. De um lado podia ser indiferença, de outro o desconhecimento. Aquele que fez a intervenção justificou a colocação, pois apreciara a leitura. Dizia ele que o assunto tinha por objeto, o netsuquê. Demonstrei simpatia pelo assunto. Isso me interessava. Passados alguns anos, numa rua da Bela Vista, que corta a Rui Barbosa, ao conferir numa estante de sebo de rua, estava o livro citado. De fato, nunca o procurei, mas haveria de um dia cruzar com este livro. É curioso como as coisas chegam em nossas mãos.
O livro A lebre com olhos de âmbar, de autoria de Edmund de Waal, foi publicado pela Intrínseca, São Paulo, em primeira edição em 2011. Este autor, cuja atividade principal é a cerâmica, teve um encontro com um tio-avô, Ignace Ephrussi, no Japão. Era o ramo judeu da família. Com o parente, numa prateleira estavam dispostas 264 miniaturas de netsuquês. Eram peças trabalhadas delicadamente em marfim e madeira reproduzindo os mais diversos personagens. Podia ser um samurai desembainhando a sua espada, um tigre, um monge careca, um maço de nabos ou a lebre com olhos de âmbar. Quando aconteceu este encontro, Ignace estava com 84 anos, com um filho adotivo, Jiro Sugiyama. Com a morte do tio, o autor se torna herdeiro dos 264 netsuquês.
O fato é que por mais de um século aquelas peças estavam em poder da família Ephrussi, judeus oriundos de Odessa, então território russo. É como que cada uma daquelas peças fossem testemunhas da história não somente dos Ephrussi, mas também da história da Europa do final do século XIX até meados da segunda metade do século passado. Muito teria acontecido nestes anos, pujança, amores, poesia, guerra e ódio. De fato, a primeira vez que os netsuquês chegaram à família Ephrussi, foi em Paris, logo após a Guerra Franco Prussiana: pior para os franceses. Mas ainda assim, Paris continuava atraindo a atenção do mundo. Saídos de Odessa, esses judeus russos, enriqueceram-se, no caso dos Ephrussi, na França, na Inglaterra e na Áustria.
Estes netsuquês tornaram-se uma obsessão dos ricos por coisas vindos do Japão na onda conhecida por japoneiserie. Depois da abertura dos portos japoneses ao comércio internacional, por exigência do americano Comodoro Perry, em 1854, mercadores franceses sequiosos por objetos de valor ou simples exotismo vendiam aos montes aos colecionadores ricos. Havia em Paris a “Oriental Art Boutique” dos irmãos Sichel. Desta forma, tais aquisições teriam agradado a Charles Ephrussi, imigrante de Odessa, que enricou primeiramente com a comercialização de trigo, depois como financista. Teria financiado a construção das linhas férreas na Europa através da Rússia e da França.
Passado a febre das mercadorias japonesas, a família tornou-se igualmente mecenas de pintores de renome do impressionismo como Renoir. Atrás destas informações, o autor Edmundo de Waal vai recuperando a história de sua família, seja em Paris, seja em Viena. Entretanto, nem só de rosas perfumadas se vive, há o inverso. Os judeus sofriam preconceitos, de serem sovinas, não terem uma pátria, e instalando-se em lugares que podiam tirar proveito. Na França, o movimento antissemita mais declarado aconteceu no caso Dreyfus. Acusado de entregar documentos aos inimigos alemães, o capitão Alfred Dreyfus é condenado várias vezes, preso na Ilha do Diabo, e finalmente inocentado.
Mas o caso do ramo austríaco da família Ephrussi não deixou de ser mais encantador. De ricos e poderosos, enfrentando a Primeira Guerra, depois a Segunda, justamente nesta última, com a perseguição aos judeus pelos nazistas e suas filiais austríacas, tudo foi perdido. Alguns fugiram para os Estados Unidos, outros para o México. Mesmo com o fim da guerra, nada pode ser recuperado. Do lado do autor, da família Waal, de origem holandesa, que se casou com uma judia austríaca, restou apenas no sangue judeu uma curiosidade para encontrar a origem da família. Os netsuquês passaram por todos estes anos, nas mãos de crianças, dos adultos, nas vitrines, guardados, mas nunca perdidos.
Antes de chegar a Edmund de Wall, ficaram com o velho tio Ignace, que nos anos derradeiros pediu para cancelar a cidadania americana e voltou a ser austríaco. Mas vivendo no Japão, o lugar escolhido para morrer. Com a sua morte, o funeral foi nos moldes budistas, o último lugar que deveria viver e ter as cinzas espalhadas na ilha. De lá saíram os netsuquês, que retornaram novamente. Edmundo de Waal também vivia no Japão e aperfeiçoava a arte da cerâmica. Diferente do tio, este era inglês, com um pai pastor da igreja anglicana.
Quando ainda estudante de História, diziam que o pesquisador deve fazer perguntas diretamente aos objetos, que pode ser um livro ou ainda algo inanimado, talvez um netsuquê. Algumas pessoas têm pavor de coisas que pertenceram aos outros, pois acreditam carregar uma energia. Acho que a energia existe, mas depende do seu proprietário atual ativar esta energia. Caso contrário, será apenas um objeto, um simples enfeite, um decorativo. Aqueles netsuquês falavam e contavam histórias e também calavam quando assim se exigia.

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