CANTO DO BACURI: A balada do falso Messias

Moacyr Scliar

Conforme o organizador Italo Moriconi, dos Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, São Paulo, Objetiva, de 2000, quando se trata dos anos 70 aponta 20 contos, que melhor representam o que ele chama de “Anos 70 Violência e Paixão”. Desta coletânea, ele cita autores como Roberto Drummond, Eric Nepomuceno, Domingos Pellegrini, Moacyr Scliar entre outros tantos. Para este artigo, escolhi um conto de Moacyr Scliar, A balada do falso Messias, a fim de prestar uma homenagem e penetrar naquilo que o conto nos remete.
O que se presta para a minha apreciação, neste momento, é que o autor gaúcho Moacyr Scliar desenvolve uma literatura regional, mais do que isso, de retomo as suas origens étnicas judaica russa como terreno fértil para compor os temas da criação. Trata-se de literatura brasileira contemporânea, que bebe fundo das águas nebulosas de sua própria cultura. Gosto muito disso. Como país emigrante, o Brasil possui a ambiguidade de acolher as mais variadas formas de expressão, não se restringindo apenas a algumas expressões consolidadas. No caso, Moacyr Scliar vai ter como painel de sua representação os devaneios e esperanças de um povo, que na diáspora acabou aportando em Santa Catarina.
Trata-se então de uma literatura do imigrante oriundo de outra parte do mundo, trazendo consigo a sua religião, seu comportamento, os seus dilemas espirituais e existenciais. Nesse sentido, a religião judaica é o ponto de convergência, que o autor representa em suas nuances mais derradeiras. O conto denomina-se “A balada do falso Messias”, algo a ver com a sua cultura religiosa, que no conto se revela além das fronteiras culturais da comunidade. Ser aceito num outro país, que o acolheu, a divergência também tornou um assunto que pode ser visto no campo estético. Há sempre os esquisitos, como o deslumbrado Shabtai Zvi, que na companhia de seu parceiro Natan de Gaza, desembarcam no porto do Rio de Janeiro, nos anos 1906.
Na literatura moderna temos as peripécias de Don Quixote e Sancho Pança, da obra de Cervantes, no século XVI. Da mesma forma que aquele, no caso de Shabtai Zvi, a loucura dele é acreditar ser o enviado de Deus, sendo o próprio o Messias. Esta polêmica da vinda do Messias tinha que desembocar em Santa Catarina. O sul do Brasil é rico em atores messiânicos, como na Guerra do Contestado (1912-1916), também na Revolta dos Muckers (1868). Esta última referia-se a uma comunidade alemã, que pôs contra o Estado, tendo à frente a mística Jacobina Mentz.
O conto de Moacyr Scliar no qual fala de um possível Messias, não passava de um charlatão. Na religião judaica, o Messias ainda não chegou ao mundo, por isso esperam que um dia venha a acontecer. Num país católico como o Brasil, negar que Cristo não fosse o Messias, é problemático. Por muito tempo, os imigrantes judeus tiveram que se calar diante de uma verdade local, em detrimento às próprias crenças. Teria sido esta uma questão da dificuldade do país em conviver com valores contrários aos seus. O que se conta na história é de que, nos anos da República Velha, também na República Nova, alguns imigrantes, entre eles os judeus (também os japoneses) inspiravam uma desconfiança.
Mas o conto deste autor, ao invés de polemizar, o que não é o seu trabalho, desenvolve a narrativa de maneira bem humorada (seria o humor judaico?). Como a situação estava crítica para aqueles colonos, o tal do Messias resolve planejar um retorno à pátria com a construção de uma barca. O que se coloca é que o sofrimento vinha de uma vingança divina, pois aquele povo (a que ficava em Santa Catarina) tinha pecado muito. O que fazia Chico Diabo para maltratá-los seria um desígnio de Deus. Desde sempre o povo perdido dos judeus tinha por meta o retorno à Terra Prometida, a Eretz Israel.
Acontece que Israel não existia ainda no começo do século XX. Podia também ser Israel um espaço da alma, e não localizado em alguma geografia. Mas segundo a crença ortodoxa dos judeus, quando isso acontecesse, o antigo templo deveria ser novamente erguido para receber o Messias. Havia muito assunto para ser explorado entre os populares, cujas mulheres confeccionavam das sobras de pano, a vela do barco. Alguma coisa aconteceu para que tudo aquilo se tornasse cinzas, sem sustentação. O que denominava Messias acaba sendo desacreditado, ele próprio não mais acredita, de que seja o Messias. Trocam Santa Catarina pelo Rio Grande do Sul, quando podem prosperar, esquecendo de que um dia surgiu entre eles o Messias.
O que aconteceu com os dois alumbrados? Ou seriam apenas charlatães? Nada muito diferente de um, e do outro. Shabtai Zvi trabalhou de empregado no ramo financeiro, com bastante sucesso. O outro, Natan de Gaza, meteu-se em contrabando e, perseguido pela polícia, fugiu sem dar notícias.
Há uma forma peculiar do povo judeu, e qualquer outro povo imigrante, de conviver com o novo, no caso o país que o acolheu. Não negam a cultura original, parte da vida doméstica, quanto aos costumes, religião e perspectivas. Mas também podem viver na sociedade maior, numa aparente ambiguidade. Não seria justamente assim, o ser humano? Principalmente ao sul, sudeste, a cultura imigrante é uma realidade, que interage, diluí e incorpora elementos para a formação de uma cultura real de existência.

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