Bunkyo e vereadores nikkeis destacam a relação de Bruno Covas com a comunidade nipo-brasileira

Em 2018, já como prefeito, na cerimônia de recepção à Sua Alteza Imperial, princesa Mako (arquivo/Jornal Nippak)

“Na comunidade nipo-brasileira, a quem sempre declarava ser também um nikkei, pois era pai do jovem Tomás, um nipo-brasileiro de 15 anos, Bruno Covas deixou inúmeros amigos, principalmente aqueles com quem conviveu desde os tempos do colegial, e admiradores conquistados em sua efêmera, porém, brilhante trajetória política. Como prefeito da cidade de São Paulo, nunca deixou de prestigiar esta nossa entidade, o Bunkyo, fazendo-se presente em nossos principais eventos, pessoalmente ou representado por secretário especialmente designado, e, em sua última visita, quando veio conhecer o novo Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, ele nos deixou a seguinte mensagem no Livro de Honra: ‘Meus agradecimentos em nome de toda a cidade de São Paulo pela contribuição que a colônia japonesa deu e continua a dar para a grandiosidade do nosso município’”.
A nota, assinada pelo presidente da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo), Renato Ishikawa, ilustra bem a lacuna que a morte do prefeito Bruno Covas, ocorrida no domingo passado, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, vítima de um câncer no sistema digestivo com metástase nos ossos e no fígado, deixará não só para a cidade de São Paulo e para o país mas também para a comunidade nikkei.
No comunicado, o Bunkyo – principal entidade representativa da comunidade nipo-brasileira – observa que Bruno Covas era um político de destaque e “com um futuro bastante promissor”. “Todavia, Deus lhe reservara outras missões num plano espiritual mais elevado, e ele partiu-se para reencontrar-se com seus queridos ancestrais, em especial o avô Mário Covas, seu mentor”, diz trecho da nota, referindo-se ao ex-governador que também morreu em decorrência de um câncer, em 2001. Renato Ishikawa encerra com os seguintes dizeres: ‘Missão cumprida, Senhor Prefeito. Obrigado, amigo Bruno Covas. Esteja com Deus!”.

Relacionamento – Bruno Covas – cujo corpo foi enterrado no Cemitério de Paquetá, em Santos (SP) ao lado do avô, Mário Covas – sempre teve um relacionamento muito próximo à comunidade nipo-brasileira, mesmo antes de assumir como prefeito da maior cidade do país. Em 2017, ainda como vice-prefeito de João Doria, participou das reuniões para os preparativos das comemorações dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil e em janeiro de 2018, quando ainda acumulava o cargo de secretário-chefe da Casa Civil, esteve no hotel Tivoli Mofarrej para a Celebração de Ano Novo e início das atividades comemorativas aos 110 anos da imigração japonesa no Brasil.

Em 2017, ainda como vice-prefeito, durante uma de várias reuniões com a Comissão dos 110 Anos (arquivo/Jornal Nippak)

Princesa Mako, praça e monumentos – Em julho de 2018, já como prefeito de São Paulo, Bruno Covas participou da cerimônia de recepção à Sua Majestade Imperial, princesa Mako – cuja visita foi o ponto alto das comemorações dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil – na arena montada no São Paulo Expo (zona Sul de São Paulo).
Como prefeito, Bruno Covas também sancionou, em 18 de julho de 2018, a Lei nº 16.960, mudando a denominação da Praça da Liberdade para Praça da Liberdade-Japão – atendendo uma antiga reivindicação da Acal (Associação Cultural e Assistencial da Liberdade), entidade presidida pelo empresário Hirofumi Ikesaki – que em abril de 2019 o homenageou com uma placa durante um jantar no Nikkey Palace Hotel, de sua propriedade.
Também foi graças à atuação de Bruno Covas que dois importantes símbolos da comunidade nipo-brasileira ficaram fora do programa de privatização e concessão do Parque do Ibirapuera: o Pavilhão Japonês, que, construído em 1954 pelo governo japonês e comunidade nipo-brasileira, foi doado à Prefeitura Municipal e, desde então, vem sendo mantido pelo Bunkyo, e o Memorial em Homenagem aos Imigrantes Pioneiros – Ireihi, construído em 1975 e administrado pelo Kenren – Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil.

Momotaro – Seu último encontro com a comunidade foi em outubro de 2020, quando esteve no Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil. Lá, como sempre fazia questão de destacar nesses encontros com a comunidade japonesa, gostava de lembrar seus vínculos com os japoneses. Contava que estudou no Colégio Bandeirantes, na zona Sul de São Paulo, uma tradicional instituição paulistana de ensino muito frequentada por descendentes de japoneses, e, é claro, era pai do jovem Tomás, de 15 anos, o qual chamava de “meu pequeno momotaro”, em uma referência à lenda do Menino Pêssego, popular herói do folclore japonês.

George Hato com Bruno Covas: “Ele tinha o DNA da política” (arquivo/Jornal Nippak)

Repercussão – A morte prematura de Bruno Covas foi muito lamentada também pelos três vereadores nikkeis que atuam na Câmara Municipal de São Paulo. George Hato, do MDB, disse ao Jornal Nippak que “a partida precoce do prefeito Bruno Covas me entristeceu muito”. “Tínhamos uma boa relação, tanto profissional quanto de amizade. Bruno tinha o DNA da política no sangue. Acompanhei seu trabalho por muito tempo, desde quando meu pai, deputado Jooji Hato, e ele cumpriram mandato juntos na Assembleia Legislativa e depois quando foi para a Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Era um gestor que priorizava o bem-estar da população e tomava todas as suas decisões com base no diálogo e na compreensão dos contrários”, disse George Hato.

Rodrigo Goulart com Bruno: Covas “Ele foi próximo das pessoas” (arquivo/Jornal Nippak)

Herança política – Para Rodrigo Goulart (PSD), político que carrega no sobrenome o peso do patriarca Goulart, explica que Bruno Covas conseguiu lidar muito bem com essa questão da herança política. “Também trago essa responsabilidade comigo e nossas famílias sempre foram muito próximas, desde a época do meu pai, que era amigo doi avô dele, o Mário Covas. Carregamos essa bagagem e o Bruno soube lidar com isso muito bem”, disse Rodrigo Goulart ao JN.
Segundo ele, “o Bruno Covas sempre teve uma ligação muito forte com a cidade de São Paulo desde muito cedo”. “Ele estudou em um dos colégios mais tradicionais de São Paulo e se formou em duas instituições emblemáticas, a Universidade de São Paulo, onde cursou Direito, e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde concluiu Economia. Sua vida pública foi toda dedicada aos cidadãos, o que ele soube traduzir muito bem em todos os cargos que ocupou, primeiro como deputado estadual, depois como secretário e também como deputado federal, vice-prefeito e finalmente prefeito. Ele sempre esteve muito próximo das pessoas, tanto na doença como na campanha, o que também ficou muito claro durante a maior crise sanitária que atravessamos. Constatamos isso não só pelos depoimentos de personalidades mas também dos cidadãos paulistanos”, explicou Rodrigo Goulart, acrescentando que a política perde uma liderança “que era esperança de uma renovação”.

Aurélio Nomura com Bruno Covas: “Ele era uma estrela em ascensão” (Facebook/Aurélio Nomura)

Estrela em ascensão – Para o vereador Aurélio Nomura, do PSDB, o prefeito Bruno Covas foi um grande aliado dos nikkeis, “inclusive seria homenageado pelo governo japonês pelos trabalhos realizados em prol da difusão da cultura japonesa. Na gestão do Bruno, conseguimos regularizar o Hospital Japonês Santa Cruz, recursos para realização dos 110 anos da Imigração Japonesa, regularizar a cessão de uso do monumento ao imigrante japonês e retirada do edital dá concessão do Ibirapuera do Pavilhão Japonês e do monumento ao imigrante japonês, além da parceria para a manutenção e conservação do Bosque das Cerejeiras, no Parque do Carmo, na zona Leste”, enumera Nomura, acrescentando que o prefeito também sempre apoiou as ações e atividades dos nikkeis.
Segundo ele, “a perda do Bruno é irreparável para o Brasil”. “Nesse curto período que esteve entre nós, mostrou que é possível fazer política de forma serena, correta e leal. O nosso prefeito era uma estrela em ascensão, a principal liderança jovem no nosso país e, com certeza, chegaria à Presidência da República”, explica o vereador, destacando que “estávamos conversando para aumentar a parceria entre o Brasil e o Japão”.

Ricardo Nunes – Com a morte de Bruno Covas, Ricardo Nunes assume em definitivo a prefeitura de São Paulo. Para George Hato, o novo prefeito “tem um perfil bastante agregador”. “Somos do mesmo partido e durante os últimos oito anos, caminhamos juntos na Câmara Municipal de São Paulo. Tenho certeza que ele dará continuidade ao trabalho de Bruno Covas, principalmente, no que diz respeito ao amparo da população mais vulnerável. Administrar a maior metrópole da América Latina traz muitos desafios e Ricardo Nunes tem experiência e competência para enfrentá-los”, afirmou George Hato.
Rodrigo Goulart também conhece Ricardo Nunes “há muito tempo”. “Tenho certeza que ele vai dar continuidade ao trabalho iniciado por Bruno Covas. Competência para isso ele tem e ele já mostrou. Sou do partido da base do governo e vou continuar sendo para que possamos dar continuidade ao trabalho que o Bruno Covas deixou alinhado”, disse Rodrigo Goulart.
Aurélio Nomura também acredita que Ricardo Nunes não fará grandes mudanças na administração, inclusive em relação à comunidade. “Acredito que essa parceria deve continuar. Eu tenho uma grande estima por ele, até pelo convívio que tivemos durante 4 anos na Comissão de Finanças e Orçamento. Ele sempre agiu de forma amiga e respeitosa”, garante Nomura.

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