Atividades com haicaísta Madoka Mayuzumi esclarecem e inspiram participantes

Em sentido horário: Madoka Mayuzumi, Regina Eria (Consulado) e a pesquisadora Olívia Nakaema (divulgação)

Esclarecedoras e inspiradoras. Assim podem ser definidas as duas atividades online realizadas pelo Consulado Geral do Japão em São Paulo com uma das principais haicaístas do Japão na atualidade, Madoka Mayuzumi. Realizados nos dias 27 de julho e 18 de agosto, os encontros contaram com a participação especial da pesquisadora de haicai no Brasil, Olivia Nakaema, e tiveram como objetivo esclarecer sobre o que é haicai, a forma de poema mais curto do mundo, e informar sobre como compor em português. A iniciativa contou com a colaboração da Casa das Rosas e Casa Guilherme de Almeida– instituições ligadas à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo – e apoio na divulgação da Japan House São Paulo.
Para os amantes deste gênero literário, foi uma oportunidade única. O primeiro encontro, no dia 27 de julho, contou com a participação de 339 pessoas de diversas localidades brasileiras e até do exterior.
“Embaixadora da Cultura Japonesa” na Europa – nomeada pela Agência para Assuntos Culturais do Japão em 2010 – Mayuzumi falou neste primeiro encontro sobre o tema “Haicai – Aquilo que permeia esse espaço vazio”. Na abertura, o cônsul geral do Japão em São Paulo, Ryosuke Kuwana já antecipava a “ótima oportunidade para que os participantes aqui do Brasil possam compreender melhor a essência do haicai, um poema extremamente breve no qual sempre existe um kigo, palavra que indica uma estação do ano”. “Os versos curtos expressam um mundo pitoresco da estação que evocam os sentimentos e emoções. Essa simplicidade e a consideração pela natureza tornam esta literatura um gênero que sintetiza a cultura e a espiritualidade japonesas”, disse o cônsul, acrescentando que “isso parece complexo, mas não é”. “Todos que têm interesse podem fazê-lo. Atualmente, o haicai está difundido não somente no Japão, mas fortemente no Exterior, tanto que, no mundo, temos mais de 10 milhões de amantes de haicai”, explicou Ryosuke, lembrando que, no Brasil, o gênero foi introduzido pelos imigrantes japoneses há mais de um século e consolidou-se na literatura brasileira.
“Nesse sentido, posso afirmar que o Brasil está na frente como pioneiro na globalização do haicai. A difusão se deve também às entidades culturais nikkeis e às instituições de fomento à cultura, tais como a Casa das Rosas. Estou feliz pelo fato de o tradicional haicai do Japão ter originado uma nova cultura num pais tão multicultural como o Brasil. Em termos de expressar o pensamento e emoções com poucas palavras o haicai tem muita semelhança com as redes sociais como o Twitter, que são amplamente difundidas na nossa vida”, concluiu o cônsul.

Regras – Vencedora do Prêmio Literário Yamamoto Kenkichi pela coleção de haicais “Kyoto no Koi” (Romance de Quioto), em 2002, Madoka Mayuzumi falou sobre a composição do haiku – ou haicai – e as regras básicas. Disse que o haicai é formado por 17 sílabas sendo o poema mais curto do mundo.
Segundo a Sensei, trata-se de uma literatura única do Japão. “Nestes versos breves estão implícitos a visão dos japoneses sobre a natureza, a filosofia, o pensamento, o afeto e o senso estético. Porém, as palavras utilizadas não são expressões diretas, pois o encanto sugestivo e a imaginação permeiam o espaço entre as palavras”, disse, explicando que “no haicai não se expressam sentimentos ou pensamentos de maneira crua”.
“Fazemos isso por meio da descrição das coisas e de cenários da natureza. O importante é subtrair, omitir e diminuir. Ou seja, o haicai é formado de palavras e espaços entre elas. Por isso, o leitor irá imaginar os pensamentos e as emoções do autor nas entrelinhas dos espaços entre as palavras, apoiando-se nas poucas palavras expressas”, observou.

Encontro – Ela contou que seu encontro com o haicai aconteceu através de um poema de Hisajo Sugita (1890-1946), uma das haicaístas pioneiras do tempo moderno.
Perseguida e censurada tanto pela família como pela sociedade, Hisajo se debilitou e veio a falecer com apenas 56 anos de idade. Atualmente, é uma das haicaístas mais representativas do Japão. “Porém, não foi possível a ela publicar uma única coletânea em vida”, lamentou Mayuzumi, que citou também outro mestre do haicai, Matsuo Bashô (1644-1694), que disse: “O que nos resta se tudo já foi dito?” “Ou seja, mesmo que tudo já tenha sido dito, o que temos diante de nós? Com a subtração das palavras, a imaginação é ampliada. Isso proporciona purificação e sublimação”, explicou Madoka Sensei, que em 1999 fez a rota de peregrinação de 800 km até Santiago de Compostela, no norte da Espanha, e de 2001 a 2002 visitou a Coreia cinco vezes nas quatro estações, além de completar cerca de 500 km de Busan a Seul e percorrer cerca de 1400 km na Peregrinação de Shikoku, em 2017.
Sobre a história do haicai, disse que sua origem no Japão remonta dos tempos da Antiguidade, com o renga – poesia encadeada. “Nesse gênero, a primeira estrofe é composta de versos com 5,7,5 sílabas e a última estrofe de versos com 7,7 sílabas do waka. A composição é feita por mais de duas pessoas que participam reciprocamente, tais como kasen, composto por cerca de 36 versos, gojuin, composto por cerca de 50 versos, e hyakuin, composto por cerca de 100 versos em 5,7,5,7,7 e 5,7,5,7,7 sílabas”, conta.
Com o passar do tempo, comenta, o renga se tornou cada vez mais longo e passou a ser apreciado pelos aristocratas até que no século XV se estabeleceu um gênero chamado “haikai no renga”, ou seja, haikai de poemas encadeados.
“O haikai tem como tema o cômico e o engraçado. Desta maneira, o renga se propagou, do mundo elegante dos aristocratas para o mundo das pessoas comuns. Depois, no século XVII, Matsuo Bashô tornou independente o “hoku”, primeira estrofe composta por versos de 5-7-5 e aprimorou a arte desse gênero. Na metade do século XIX, Masaoka Shiki renomeou esse “hoku” independente como “haiku”. Desde então, todos passaram a usar a palavra “haiku”, ou seja, haiku significa a primeira estrofe de 5-7-5 sílabas do “haikai no renga (poesia encadeada)” formada por versos em 5,7,5,7,7 e 5,7,5,7,7 sílabas”, explicou. Portanto, o haicai se tornou independente a partir desses primeiros versos do renga”.
Com relação às regras para se compor o haicai, chamado “kata” (forma), Madoka Mayuzumi lembrou que foram mantidas as regras do hoku (primeira estrofe do renga).
Segundo Madoka Sensei, em primeiro lugar, é muito importante incluir a palavra que indica a estação do ano a que se refere o poema: o kigo. “Ou seja, é uma saudação à estação do ano, Os japoneses, na vivência do cotidiano, tem uma atenção especial às mudanças das quatro estações, mostrando seu amor pela natureza. Na primavera, contemplam a cerejeira; no verão, os vaga-lumes; no outono, a lua da estação, as folhas avermelhadas e o canto dos insetos; e no inverno, a paisagem das neves”, disse, acrescentando que “a relação entre os japoneses e a mudança das estações é inseparável”,

Poema sazonal – “Podemos dizer que o haicai é um poema sazonal. Portanto, a primeira regra é: saudar a estação e compor com um kigo”, afirmou, destacando que a segunda regra é a forma fixa do haicai, composto de três versos formados por sílabas poéticas em 5,7,5, ou seja, 17 sílabas poéticas.
Conforme havia comentado, Madoka Sensei disse que o haicai é derivado do hoku do “renga” – poema encadeado. “Portanto, conforme o hokku, o haicai deve respeitar a métrica de três versos, formados por 5,7,5 sílabas”, explicou, referindo-se à segunda regra.

Cesura – Sobre a terceira regra, a cesura (kire), Mayuzumi disse que “o hoku, por ser a primeira estrofe do renga, poema encadeado, não deve depender da estrofe seguinte e manter a sua independência do restante”. “Por isso, foi necessário inserir uma cesura para concluir a mensagem do versos”, observou, explicando que o seu significado refere-se à ruptura ou pausa. “Ao incluir a cesura, criamos uma descontinuação e vazio. O que proporcionará uma maior comoção e ressonância. De modo geral, essas três são as regras do haicai. Desta forma, no haicai, respeitamos forma (kata), porém, não somente o haicai, mas todos os gêneros da cultura tradicional japonesa, também tem como eixo a “mudança das quatro estações” e a “forma””, comentou Madoka, que comparou a forma (kata) com a ginástica de solo, em que os ginastas tem um espaço delimitado para se apresentar.

Ginástica – “Acredito que os ginastas, calculando os movimentos dentro daquele espaço limitado, podem realizar uma exibição ainda mais encantadora. Posso dizer o mesmo do haicai. Por haver a forma, ou seja, a limitação, não adicionamos palavras e sim as diminuímos para poder expressar o profundo e vasto mundo. Com apenas 17 sílabas, há haicais que conseguem falar de coisas magníficas. Isto é a liberdade na forma”, destacou Mayuzumi, que concluiu sua apresentação reforçando que a ideologia do haicai consiste em três pontos: 1) Valorização da natureza: preocupação com outras vidas; 2) Menos é mais. Estar satisfeito(a) com aquilo que já possui; 3) Imaginar sobre o espaço vazio (imaginar aquilo que está nas entrelinhas das palavras e a verdade por trás da condição mencionada).

Pista – Para ela, o haicai pode ser uma pista para a resolução dos vários problemas atuais do mundo, como questões ambientais, conflituais, raciais e sanitárias. “O haicai é sobre a beleza da natureza, um poema da “vida”. Nestes tempos de pandemia de coronavírus, vamos repensar na importância da vida e compor sobre o brilho da “vida” que nos circunda. Vamos nos incentivar mutuamente e superar essa situação difícil juntos”, finalizou.

Haicai de Valderson de Souza, um dos 12 selecionados e comentados pela haicaísta Madoka Sensei (divulgação)

John Lennon – Em seguida, a professora Olivia Nakaema apresentou a palestra “A escrita do haicai em português” conforme a concepção da professora Mayuzumi. Ela falou sobre alguns dos grandes poetas Nempuku Sato (1898–1979) e Masuda Goga (1911-2008) e abordou novamente a importância do kigo. No final, Olivia esclareceu dúvidas dos participantes.
Intercalada com a primeira atividade, na segunda, realizada no dia 18 de agosto, Madoka Mayuzumi participou ao vivo, diretamente do Japão, comentando os poemas selecionados. De acordo com Regina Erika, do Consulado Geral do Japão em São Paulo, que apresentou as duas atividades, a segunda contou com 299 participantes e das 236 composições enviadas dentro do prazo (até 1º de agosto), foram selecionados um total de 12, sendo dez em português e dois no idioma japonês. O kigo escolhido foi “ipê” ou “ipê amarelo” – valendo ainda suas variantes – como ipê branco, ipê roxo e a forma japonesa de escrever.
Após a leitura de cada poema e da explicação do autor, Madoka Sensei intervinha para seus comentários. No final, a própria Mayuzumi respondeu as perguntas dos participantes.
Em suas impressões gerais, Madoka Mayuzumi ficou admirada com a qualidade dos poemas recebidos. Ela atribuiu a participação maciça ao kigo escolhido – ipê ou ipê amarelo – que, aliás, ela revelou ainda não conhecer. E antes de responder as perguntas dos participantes, citou uma frase de John Lennon. O ex-Beatle teria dito que “de todas as formas de poemas, o haiku é a mais bonita”.

Confira os 12 poemas selecionados (em ordem aleatória):

Festa nos ipês
Chão tingido de amarelo
Manhã silenciosa!
(Dasso)

Cálice de flor
do ipê pende a gota
lágrima reflete
(Alessandra Ramos Pinto)

Romeiros em roda
prece embaixo do ipê-roxo
O céu toca a estrada
(George Goldberg)

Final do romance
Entre as últimas páginas
a flor do ipê
(Aline Tiemi Kawasaki Miguel)

Uma flor de ipê
corre pelo para-brisa.
Alguém buzinou.
(Marco Antonio Martini Filho)

Amigas conversam
sob uma chuva de flores
Ipê-amarelo
(Carlos Martins)

Vejo-a de longe
A flor toca o chão e a sombra
Ipê amarelo
(Carlos Roque Barbosa de Jesus)

Galhos retorcidos
no imenso ipê amarelo–
Flores e mais flores.
(Cristiane Cardoso)

Ipê amarelo
Na porta de minha casa
traz um mar de flores.
(Valderson de Souza)

Livro em japonês –
Sob o ipê-amarelo
o meu ditchan lê.
(Andre Telucazu Kondo)

紀の里に イペー咲かせる 願ひかな
Tradução: Em Ki no Sato / fazer florescer o ipê / é meu desejo!
(Tomiyo Hayashi)

空色に 滲むことなき 黄イッペー
Tradução: No céu azul, / expande-se sem manchar – / ipê amarelo.
(Nobuyuki Miyagawa)

Aqueles que não puderam assistir à palestra da haicaísta Madoka Mayuzumi, realizada no dia 27 de julho, poderá conferir no link abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=rXfNlfS-qBI

Comentários
Loading...