ARTIGO: Um passeio sobre o intercâmbio musical nos 125 anos do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre o Brasil e o Japão

*Hidenori Sakao

Neste ano celebramos os 125 anos do Tratado de Amizade entre o Japão e o Brasil,112 anos de Imigração, e 82 anos do intercâmbio musical entre os dois países.
O início deste intercâmbio foi bem tardio comparado com o do tango argentino, mas é uma satisfação imensa ver que atualmente a música brasileira é amplamente difundida e apreciada no Japão. Tudo começou em 1938, quando a Victor Company of Japan lançou o primeiro disco (de 78 rotações) de samba brasileiro em solo japonês:
“Alô… Alô?”, interpretada por Carmen Miranda. Na época a imagem do Brasil ainda estava associada apenas à Amazônia e ao café, mas o disco teve destaque no mercado musical atingindo marcas de venda inesperadas, surpreendendo as gravadoras.
Porém, este sucesso não teve longa duração, devido à eclosão da Segunda Guerra Mundial. Para a minha surpresa, soube que Mamoru Oshima, o saudoso pioneiro entre os críticos de música brasileira no Japão, escutava Carmem Miranda nos abrigos antiaéreos em pleno bombardeio, com um gramofone à manivela com agulha de bambu. Após o término da Guerra, os japoneses voltaram a ter acesso à música brasileira com o programa “La Música América Latina”, da rede de rádio WVTR, pertencente às Forças Aliadas de ocupação do Japão, que os militares americanos instalaram dentro da NHK. Porém, os discos tocados naquela época eram de samba americano, com um sotaque diferente, tocado pela orquestra cubana, que dominava o cenário da música latina nos Estados Unidos. Não era o legítimo samba brasileiro. Mas logo depois, os filmes de Hollywood passaram a ser exibidos, e a música de Carmen Miranda, que foi para os Estados Unidos e tornou-se uma atriz de sucesso, essa atmosfera latina trouxe um pouco de alívio para o povo japonês que teve seu país devastado pela guerra. Anos depois, a rádio NHK também começou um programa sobre música latino-americana, mas a programação era apenas de tango, canções folclóricas andinas e músicas mexicanas e cubanas. A música brasileira era uma raridade. Numa das conversas com Minoru Matoba, o comentarista responsável do programa, perguntei, com um toque de ironia: “por acaso o Brasil não faz parte da América Latina?” e ele justificou: “não temos os discos novos”. Por outro lado, o Brasil, que era inclinado à cultura francesa antes da Guerra, passou a ser fortemente influenciado pelos Estados Unidos. Os jovens, que não se contentavam com as músicas antigas, buscaram uma nova música e criaram um novo gênero: a Bossa Nova. Entre os críticos musicais, não são poucas as pessoas que escrevem que Bossa Nova é um samba que se tornou jazz. Mas seria mais apropriado dizer que trata-se de um samba “americanizado”.
Posteriormente, a indústria fonográfica norte-americana estava em busca de novos materiais, pois as relações diplomáticas com Cuba foram interrompidas após a Revolução de 1959. De olho no novo gênero que nascia no Brasil, em novembro de 1962, foi realizado o primeiro espetáculo de Bossa Nova dos Estados Unidos, no Carnegie Hall. Este foi o grande estopim para a explosão internacional da Bossa Nova. Portanto, podemos dizer que, de certa forma, Fidel Castro foi um benfeitor para a Bossa Nova. Grandes nomes do Jazz, como o saxofonista tenor americano Stan Getz, que estava em baixa na época, pegaram esta nova onda e contribuíram significativamente para a difusão mundial da Bossa Nova. Esta onda naturalmente chegou ao Japão por via norte-americana, e os jazzistas se interessaram por este novo gênero. No ano de 1960, recebi em São Paulo Tomoo Miyakoshi, sax alto do grupo de Jazz “Six Joes”, um dos melhores do Japão e Tomiyasu Hirose, sax barítono do grupo Skyliners, junto com Hachidai Nakamura, o compositor da canção “Ue wo muite Arukou (SUKIYAKI)” e os levei à casa de shows L’Amiral de São Paulo. O Sr. Hachidai estava escutando compenetrado, até que ele me perguntou: “Isto é um samba? É bem moderno!”. Esta pergunta foi marcante, pois queria dizer que os músicos japoneses tinham uma noção preconcebida de que samba era o samba americano da orquestra cubana. Então, o choque que eles tiveram foi muito grande, quando tiveram contato com a Nouvelle Vague (“nova onda”) no Brasil.
Na mesma época, a cantora de renome Maysa, residente em São Paulo, e conhecida como a Rainha da Bossa Nova na Europa, foi convidada para ir à Tóquio em comemoração do vôo inaugural entre Brasil-Japão pela REAL Aerovias para participar de um programa de televisão. Ela cantou dois sucessos seus como a primeira cantora brasileira a se apresentar naquelas terras, mas a música de acompanhamento foi um bolero com fortes traços de bongo mexicano. Maysa não conseguiu esconder a sua insatisfação e reclamou ao apresentador deixando claro que o acompanhamento foi gravado no Japão, e que portanto era diferente de como ela cantava no Brasil. Provavelmente Maysa foi a primeira e única cantora estrangeira que foi convidada para um programa televisivo japonês e saiu reclamando do acompanhamento. Posteriormente tive a oportunidade de encontrar o pai de Maysa num bar chamado Blue Sky em São Paulo e ele estava surpreso pois sua filha famosa era praticamente uma desconhecida no Japão, e disse que ela realmente ficou irritada com a questão do acompanhamento. Não havia jeito, pois na época ainda não existiam no Japão, nem arranjadores familiarizados com a música brasileira, nem instrumentistas com domínio do ritmo do samba. A raiva de Maysa é compreensível, pois além de tudo, uma das canções daquela ocasião era “Meu mundo caiu”, canção de sucesso composto por ela mesma. Ela deve ter sentido algo parecido como quando os japoneses escutavam músicas japonesas rearranjadas por estrangeiros, que adicionavam sons de prato chinês (tantã).
Entre o fim da década de 1920 ao início da década de 1960, a grande estrela da música latina nos shows e festas dançantes era o tango argentino. O tango era tão popular no Japão pois o Barão Tsunayoshi Megata foi para a Europa em 1920 e ficou fascinado com o tango, que estava na moda naquelas terras. O Barão era neto de Katsu Kaishu, um dos homens fortes do Xogunato Edo. Era um “modern boy” (como eram conhecidos os jovens antenados às novas tendências ocidentais durante a Era Taisho), bonitão, um jovem nobre e ainda por cima um bom dançarino. Assim fazia muito sucesso entre as garotas. Ele retornou ao Japão em 1926 e difundiu o tango no Japão. Mesmo nos dias de hoje, o Japão é o segundo país onde o tango é mais apreciado, perdendo apenas da Argentina. Acredito que isso aconteceu graças à popularidade da dança de salão.
A música brasileira começou a se espalhar no Japão a partir do boom da Bossa Nova. O primeiro show ao vivo de Bossa Nova em terras nipônicas foi o do Trio Tambatajá, atração exclusiva do Hotel Hilton São Paulo. O Presidente Hiroyuki Takahashi, da Mainichi Broadcasting System do Brasil, por acaso estava na boate “Black Jack”, empreendimento de Toshiro Ono (pai de Lisa Ono) em São Paulo, e se apaixonou pelo trio. Em outubro de 1962, Takahashi convidou o trio para o evento comemorativo da inauguração da sucursal de Osaka da Mainichi Broadcasting System, e viajaram pelo Japão de Kyushu a Hokkaido, durante seis meses. Isso foi antes do lendário show no Carnegie Hall. Ou seja, os japoneses viram primeiro a Bossa Nova ao vivo. Quase 60 anos se passaram desde então, e Arlindo é o único membro sobrevivente. Em seguida, diversos músicos como o Grupo Sérgio Mendes, Astrud Gilberto e o Bossa Rio Trio foram para o Japão diretamente dos Estados Unidos, para realizar apresentações. E também aconteceu o fluxo contrário, de muitos músicos japoneses virem para o Brasil para intercâmbios ou residência de longa duração, para aprender a música brasileira na fonte. Assim foi se estabelecendo o intercambio musical entre o Japão e o Brasil. O crítico de música brasileira Mamoru Oshima veio pela primeira vez ao Brasil em 1967, e no ano seguinte, o ilustre artista do Jazz Sadao Watanabe (também conhecido como “NabeSada”, gravou o LP “Sadao Watanabe & Brazilian 8” em São Paulo, reunindo importantes músicos locais, com o apoio de Toshiro Ono.
Preciso destacar aqui o nome de três vozes femininas brasileiras que tiveram notáveis contribuições para a difusão da música brasileira no Japão.
Claudia, que permaneceu por longo tempo no Japão desde 1968, é uma cantora de grande talento, a única que deixou até Elis Regina enciumada. O compositor Kuranosuke Hamaguchi se apaixonou pela sua habilidade musical e fez com que ela cantasse a primeira música da propaganda comercial para televisão do Toyota Corolla. Ela estava em turnê por diversas cidades do Japão com o Combo Sadao Watanabe, mas quando finalmente estava ganhando fama, não aguentou de saudade e acabou retornando ao Brasil.
Sonia Rosa, natural de Santos, chegou ao Japão em 1969 como cantora estreante, com contrato exclusivo com a Continental Records. Tão logo chegou ao Japão, casou-se com um japonês, e reside em Tóquio há meio século. Ela influenciou os japoneses de uma forma incomensurável. Participou continuamente do programa televisivo de grande apelo popular: “11 PM”, e gravou grande quantidade de discos, inclusive com algumas músicas em língua japonesa. Sua voz amável agarrou os corações dos fãs das mais diversas camadas. Podemos dizer que Sonia teve grande influência no surgimento posterior de inúmeras japonesas que se consideram cantoras de bossa nova. Na década de 1980, a cantora Wilma de Oliveira, contratada para o restaurante brasileiro “Saci Pererê”, de Toshiro Ono, em Yotsuya, também se casou com um japonês e viveu por mais de 30 anos em Tóquio até tornar-se viúva. Neste período, atuou não apenas como cantora, mas também como professora de língua portuguesa e de música brasileira, contribuindo na formação de muitos praticantes.
Um aspecto curioso é que todas estas três mulheres foram ao Japão partindo de São Paulo. Claudia foi criada em Minas Gerais, mas residia e se apresentava em São Paulo. As outras duas são paulistanas. Mesmo assim, a primeira impressão que os japoneses têm hoje sobre o Brasil são do Rio de Janeiro ou da Bahia. Provavelmente a fama do Rio de Janeiro se deve ao fato de ser a antiga capital do Brasil, e o berço do samba e do choro. Sem falar da fama inabalável como um ponto turístico mundialmente conhecido. Além disso, os personagens da cultura carioca têm um forte senso de sua importância no cenário da Bossa Nova, e possuem o orgulho de que foram eles que espalharam a Bossa Nova para o mundo. Naturalmente os japoneses também possuem um conceito preconcebido como se o Rio fosse um sinônimo de música brasileira. Lisa Ono é conhecida como a Rainha da Bossa Nova do Japão, mas dizem que foi a indústria fonográfica que orientou para que ela cantasse com sotaque carioca, mesmo ela sendo paulistana, filha de japoneses. Tom Jobim, o grande nome da Bossa Nova escutou a voz de Lisa Ono pela primeira vez antes de sua estreia como cantora, por meio de uma fita cassete com gravação demo que levei a ele, com o acompanhamento do Quinteto Eiji Kitamura. O “Maestro” não sabia que ela era paulistana, e foi engraçado que, antes mesmo de avaliar sua canção, ele ficou surpreso dizendo: “ela é genial! Como pode ser tão boa no sotaque carioca?”.
Os japoneses têm o talento de absorver culturas estrangeiras e apropriar-se delas. Tanto no Jazz, como no tango e na Bossa Nova, os japoneses atingiram um nível próximo ao do original. Se Mayza estivesse viva hoje, gostaria de produzir um disco com acompanhamento de instrumentistas japoneses.
Elizeth Cardoso é uma das maiores intérpretes da História da Música Brasileira. Vou compartilhar uma queixa que escutei dela quando a visitei em sua residência após o show no Japão, em 1977.
“No Japão existem músicos de altíssimo nível comparáveis ao Brasil, tanto na Bossa Nova como no Samba. Digo isso para a mídia ou para o meio artístico, mas ninguém acredita em mim. Até fica parecendo que sou uma fanfarrona!”
Tenho uma colocação, antes de encerrar este texto.
Desde o final da década de 1960, a Bossa Nova caiu no esquecimento quase que por completo no Brasil. Os músicos decentes se aposentaram, mudaram de carreira ou se mudaram para o exterior. Foi um período das trevas para a Bossa Nova. Jobim até brincava dizendo que o aeroporto era a saída para os músicos brasileiros. No entanto, os japoneses continuaram amando a Bossa Nova, aumentado gradativamente o número de apreciadores e de apresentações, conquistando o seu espaço. Se atualmente existe um movimento de resgate da Bossa Nova no Brasil, isso se deve muito ao Japão. A causa desta paixão está enraizada no jeito de ser do povo japonês.
Em meados da década de 1980, quando eu trabalhava no Consulado Geral do Japão em São Paulo, certo empresário brasileiro solicitou-me material informativo para realizar uma pesquisa de mercado no Japão. Então, entreguei-lhe o panfleto das relações públicas do Ministério das Relações Exteriores. Alguns meses depois, ele retornou ao consulado após retornar da viagem ao Japão. Ele era uma pessoa perspicaz, e suas observações sobre o Japão eram todas muito interessantes. Porem, ele disse um comentário peculiar. Segundo ele, o Japão é o único pais do mundo no qual Audrey Hepburn é mais querida do que Marilyn Monroe. Tive a sensação de que a ficha caiu. Pensei que este realmente poderia ser a causa do gosto dos japoneses pela Bossa Nova. Será que os japoneses não teriam mesmo uma tendência para preferir garotas graciosas, magras e reservadas como estudantes do que mulheres loiras super sexy? Possivelmente o clima romântico e suave da Bossa Nova é excelente como música de fundo ideal dos japoneses. O comentário do empresário abriu meus olhos.
Acredito que a iniciativa do Sinos na Floresta foi um grande projeto que navega na corrente de intercâmbios culturais que envolve o Brasil e o Japão, mesmo neste momento de crise o resultado de um trabalho de grupo com um fim comum foi muito positivo , sem duvida a internet e suas redes sociais sinalizam um novo caminho de divulgação para compensar o isolamento social a que fomos acometidos.
Um brinde ao “Encontro nas Ondas”. Viva!!

Hidenori Sakao (arquivo pessoal)

Hidenori Sakao (Tradução: Carlos Hideaki Fujinaga)

Sobre o autor: Ex-Assessor Cultural do Consulado Geral do Japão em São Paulo
Condecorado da Comenda Ordem do Sol Nascente, Raios de Ouro e Prata (2020).

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