ARTIGO > Ricardo Taira: Ela ressuscitou!Viva!

*Ricardo Taira

Minha prima passou a morar sozinha há uma década, quando ficou viúva. Mas, nos últimos dias, havia se isolado ainda mais. Dificilmente atendia aos telefonemas e não respondia às mensagens de whatsapp. Certa noite, fui até o prédio onde ela morava no bairro do Tatuapé (SP) e pedi para chama-la. Depois de várias tentativas do segurança na guarita, ela alcançou o interfone e com a voz ofegante disse que estava se sentindo muito mal. Na mesma hora, chamei o SAMU. Tudo levava a crer que se tratava de mais um caso de contaminação por Covid-19.
Uma ambulância do SAMU passou em frente ao prédio, reduziu a velocidade numa esquina movimentada, mas seguiu em frente. Daria para imaginar quantas famílias naquela noite estavam precisando de socorro médico. No meu preparo para uma longa jornada, atravessei a rua até uma lanchonete que atendia os fregueses na porta, em razão de restrições sanitárias. Voltei à portaria do prédio com um saquinho de batatas e um hambúrguer. Na segunda mordida, vi outra unidade do SAMU estacionando. Corri até ela e me identifiquei à dupla de paramédicos que se cobriam com os equipamentos de proteção. Nossos heróis anônimos.
Fomos até o apartamento. Pediram que eu ficasse do lado de fora. Vi quando entraram e encontram minha prima no sofá. Eles a colocaram na cadeira de rodas e a levaram. Eu fiquei encarregado de fechar o apartamento, mas não tive coragem de entrar. Deixei inclusive uma luz acesa. Passei álcool nas chaves e tranquei a porta. Desci às pressas e a encontrei ainda na cadeira de rodas, esperando aprontarem a maca para transportá-la. “Que bom que você veio”, ela me disse num tom de alívio. Respondi que iriam cuidar dela e que, no final, tudo seria resolvido.
No hospital, o médico me relatou que ela havia chegado com os sinais vitais “lá embaixo” e muito perto de uma parada cardíaca. Minha prima precisou ser intubada. Liguei para o filho dela, que também estava internado por Covid, mas recuperado, e dei a má notícia. Nos dias seguintes, fomos recebendo os boletins diários do hospital. Os primeiros foram animadores. Coração e rins em plena recuperação. Só os pulmões ainda davam trabalho. Foram quase duas semanas de trocas de mensagens e telefonemas com o meu primo de segundo-grau. Mas, numa determinada manhã, ele me ligou e disse que a mãe não havia resistido. O estado geral dela havia piorado rapidamente provocando falência múltipla dos órgãos.
Ivone, minha prima querida, havia nos deixado. Sim, o nome dela era Ivone. Que doença terrível e essa que leva amigos e parentes e deixa centenas de milhares de pessoas enlutadas no país e no mundo. Passei o dia pensando em Ivone, nas nossas conversas, no seu jeito simples e generoso e no modo como tratou, carinhosamente, a mim e à minha irmã, primos mais novos. Lembrei-me de seu casamento, quando, na hora da foto dos noivos, pediu para que eu ficasse ao seu lado. Quanto privilégio. Lembrei-me do quintal da casa dela, onde eu costumava brincar. Com o passar do tempo e cada um seguindo o seu próprio caminho, os encontros foram rareando. Costumavam acontecer em festas familiares, como os aniversários. Riamos muito.
Não sou do tipo religioso. Só que em momentos como esses, de angústia profunda, bom seria se algo acontecesse. Não precisa de explicação. Que tal um fenômeno ou um milagre? Bastaria eu acordar e na primeira verificação do dia no celular encontrasse a mensagem: “Ela ressuscitou! Viva!”. Apenas isso para que a vida de mais de trezentas mil famílias no Brasil, na qual me incluo, voltasse ao normal.
Que tragédia. As histórias vão se apagando por um vírus mutante, que não permite o último abraço, o último olhar.
Ivone ainda não ressuscitou, garante o meu celular.
Em memória de Ivone Marconi Pecosqui, mãe e avó; e em solidariedade a todos que perderam parentes e amigos na pandemia

O jornalista Ricardo Taira (Facebook/Ricardo Taira)

*Ricardo Taira é jornalista e escritor (tairasan@uol.com.br)

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