ARTIGO > Massami Uyeda: Sobre uma honrosa visita à Academia Paulista de Letras (21/maio/2021)

*MASSAMI UYEDA

O presidente José Renato Nalini, amigo de longa data, honrou-nos com o convite para uma visita à Academia Paulista de Letras, centenária Casa da Cultura Bandeirante, a qual abriga expoentes de nossas Letras, centro difusor de ideias e boas causas.
Lemos no comunicado enviado aos Notáveis Imortais Bandeirantes que o visitante, em razão de sua ascendência nipônica, cultivaria um pouco da sabedoria oriental, sendo sensível elaborador de hai-cais.
Sobre haicais, confessamos ter, em algum momento de nossa existência, nos aventurado nesta seara.
O haicai é uma manifestação poética que se caracteriza por ser minimalista. Por poder expressar um sentimento estético com um mínimo de palavras, utilizando-se, mais, do poder da imaginação.
Na etimologia do vocábulo hai-cai tem-se a junção de hai, gracejo, com cai, harmonia, completando a acepção de um poema gracioso.
Sua origem data do século XVI e pode-se dizer, a partir de então, espraiou-se pelo mundo.
Tradicionalmente é composto por um terceto, por três versos, formando 17 sílabas poéticas:
-o primeiro verso apresente 5 sílabas
-o segundo 7 sílabas poéticas
-o terceiro, para concluir, 5 sílabas.
Esta é a estrutura tradicional do hai-cai
Na atualidade, foi se modificando e há autores que não seguem este padrão de sílabas, com uma forma livre, com dois versos mais curtos e um mais longo.
Os haicais são poemas objetivos, com uma linguagem simples.
Contudo, embora simples, apresentam um conteúdo denso, permitindo ao leitor a formulação de um quadro mental contemplativo.
Os temas são banais. Referem-se à natureza, às estações do ano, a fatos triviais do cotidiano, possibilitando muita reflexão.
Bashô (1644/1694) considerado um dos precursores do hai-cai tem o seu hai-cai :” Furu ikeya kawazu tobikomu mizuno oto”, como um dos mais conhecidos e que recebeu de Paulo Leminski uma observação interessante ao traduzi-lo “ no velho tanque, pequena rã – saltitomba (salta e tomba) – rumor d’água”
A imagem que se faz: “em um velho tanque – imagem estática, antiga – parada no tempo > pequena rã – expressão de vida e minúscula – contraste temporal e dimensional; salta – impulso ativo e cai- impulso negativo – barulho n’água – dinâmica e estática – ruído quebrando o silêncio da placidez do velho tanque para voltar ao silêncio. E, após este movimento dinâmico, o silêncio e a placidez do velho tanque que retorna em sua plenitude estática.
Pode-se dizer, no poema de Bashô, a dualidade da vida está manifestada. Pode-se até mesmo avançar na hermenêutica do poema, não será a trajetória de nossa própria existência que ali se retratou? Do nada viemos e para o nada voltamos?
Leminski também observa que o verbo “tobikomu” significa saltar e cair e assim traduz por “saltitombar”, de tal forma que o haicai de Bashô, na tradução dele, assim ficou: “no velho tanque, pequena rã, saltitomba, som na água, tchibum!”
No Brasil, há muitos cultores do haicai.
Nomes consagrados como o de Guilherme de Almeida; Afrânio Peixoto; Fanny Luiza Dupré; Millor Fernandes; Jorge Fonseca Jr; Paulo Leminski; Olga Savary dedicaram-se ao hai-cai.
Na Comunidade Nipo-Brasileira, a Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil, sediada em São Paulo, congrega muitos hai-caisistas, digamos assim, não só descendentes de japoneses, mas de descendentes de outras etnias. E há concursos mensais para a apresentação de hai-cais. Dá-se um tema e sobre o mesmo, apresentam-se as produções poéticas.
Em nossas elocubrações tentei buscar o “ethos”, a origem de ser do hai-cai. E, em nossa modesta opinião, sua origem está relacionada ao meio-ambiente em que se desenvolve e vive o povo japonês.
Vivendo em ilha, a visão cultural é insular, restrita, diferentemente do Brasil que é continental e o seu horizonte é amplo e ilimitado.
Em território sujeito a severos cataclismas naturais, com verões sufocantes, em consequência das monções e seus incessantes tufões (mais de quarenta por temporada) ao rigor das nevascas do inverno; à convivência com tremores diários de terra, quando não de terremotos e de tsunamis; com uma área territorial agriculturável e habitável restrita, com elevada densidade populacional, o resultado desta soma de fatores, em termos de convivência social, apontam para a necessidade absoluta da adoção da cultura do comedimento.
Comedimento no trato social, representado pela necessidade do silêncio como regra de bom viver, resultando no respeito ao espaço do outro.
E esta forma de representação cultural pode-se ver não só nesta minimalista forma poética, quando se tem de dizer pouco para se expressar muito, encontra-se, também, no teatro, cuja expressividade se vê no teatro NOH, no qual a troca de máscaras, sem o uso de palavras e por meio de posturas estáticas transmite-se um turbilhão de emoções e sentimentos.
Vemos esta manifestação na cerimônia do Chá, cujo ritual, realizado no espaço exíguo de uma esteira, reservado ao convidado e no espaço da metade uma esteira, reservado para o anfitrião, a qual costuma durar 2 horas para se preparar o chá, com a liturgia que o caracteriza, sendo a infusão propriamente dita simbólica, busca-se antes a satisfação do encontro pessoal que o paladar da bebida. A contemplação silenciosa traduz a expressividade do encontro.
Também se encontra esta manifestação no Bonsai, que é a arte de tornar miniaturas árvores frondosas, como pinheiros, ameixeiras, cerejeiras, árvores frutíferas. Assim, o senso estético do jardineiro busca recriar um imaginário Jardim do Eden.
E é, ainda, este senso estético que se encontra nas criações do Ikebana, a arte e a poética dos arranjos florais em composições que utilizam pedras, metais, galhos secos e retorcidos, nos quais procura-se perenizar a fugaz existência das flores.
Ousa-se dizer que a satisfação estética é metafísica…
(Keats bem registrou esta emoção ao assinalar “a thing of beauty is a joy forever”).
Na repertório histórico da literatura chinesa há uma lenda sobre a origem do talento de compor-se um poema no tempo correspondente à caminhada de sete passos: “ Cao Zhi era muito amado por seu pai e isto era motivo de muito ciúme para Cao Pi, seu irmão. Após a morte de seu pai, Cao Pi tornou-se Imperador e procurava por todos os meios prejudicar seu irmão Cao Zhi. Um dia Cao Pi ameaçou de morte a Cao Zhi se ele não conseguisse compor um poema durante o tempo equivalente a sete passos. Cao Zhi enfrentou o desafio e seu êxito deu-lhe grande notoriedade como poeta”.
Não estaria nesta lenda a origem do hai-cai?

Da Revista da Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku, no. 65, Julho/Novembro 2020, transcrevo alguns hai-cais:

“Estrela cadente-
Em minha terra natal
Quem a terá visto?”
Alexandre Pasqual –
São José dos Campos
Professor de Engenharia e aprendiz de haicai

“Céu azul profundo-
Apenas algumas aves
Ao longe esvoaçam”
Carlos Alberto Bittar Filho – São Paulo
Procurador de Estado

“Silêncio na rua-
Só, sentado na varanda,
Contemplo o luar”
Antônio Seixas –
Magé – RJ
Advogado e Historiador

“Passa a correnteza
O reflexo da libélula
O rio não leva”
Alvaro Posselt –
Curitiba – PR
Poeta curitibano. Tem nove livros publicados, todos de haicai.

Alguns de seus poemas ficaram conhecidos na cidade por estarem em murais, embalagens de sorvete e pão, copinhos de café, canecas. Divulga voluntariamente o haicai através de oficinas em escolas públicas.
Transformou sua casa em espaço cultural, a Casa Posselt, onde recebe escolas para oficinas de haicai.
É dele, ainda, este haicai onde se nota a influência onomatopaica de Bashô:

“Na encosta do muro
O abacateiro estremece –
Um ploct no chão”

“Vetusta paineira-
Espinhos mil, flores raras!
O tempo esvaece…”
Irene Fuke – São Paulo – SP
Professora aposentada – Licenciada em Letras (USP)

“Aurora na praia-
Cortina balança ao sopro
Do vento de outono”
Maria Christina Chinen Robertson – Santos -SP
Cirurgiã-dentista

E, por fim, para comprovar nossa incursão neste campo tão reservado e sagrado, que é o dos sonhos e imaginação, o domínio e o reino da POESIA, eis o corpo de delito de nossa ação:

“O AMOR É PRANA*
QUE DÁ VIDA A TUDO
VOCÊ É PRANA”
(*PRANA = palavra de origem sânscrita e que significa “princípio da vida”; “energia vital”)

Massami Uyeda, ministro aposentado do STJ (arquivo)

*Massami Uyeda – Advogado – Mestre e Doutor em Direito (USP)
Ministro aposentado do Superior Tribunal de Justiça

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