AMAE: Conheça a cultura dos comportamentos ‘infantilizados’ aceitos no Japão

Entre os japoneses, personalidade entra em certa contradição Cultura se expressa através da busca por atenção ou aceitação (divulgação)

Atualmente, os relacionamentos profissionais, românticos e familiares idealizados são aqueles que se sustentam pela confiança, parceria e maturidade. Apesar disso, no Japão há um conceito percebido há muito tempo que se mantém até os dias de hoje: o Amae.
Essa palavra tem como significado resumido a relação de dependência e necessidade de busca por atenção e aceitação, conseguida por meio de atitudes infantis, como o choramingar, mostrar o beiço, tomar liberdades e se mostrar uma pessoa doce, tímida, frágil e inocente. Esse tipo de cultura acaba sendo relatado principalmente entre os japoneses, contudo, é algo existente em todo o mundo.
Assim o Amae é a manifestação de ações que tem como objetivo alcançar respostas positivas, porém deve ser executado de forma quase que minuciosa, uma vez que nem todas as pessoas encaram esses atos como fofos e dignos de atenção e cuidado, de modo a gerar reações controversas. Com isso e outras questões, esse conceito possui pontos negativos, dependendo da sua origem no indivíduo e retorno do outro, transformando o “ideal” e inocente em uma cultura sombria.

Cultura se expressa através da busca por atenção ou aceitação (divulgação)

O que é Amae
O Amae tem o nome oriundo das palavras amai (traduzido para o português como “doce”) e amaeru (verbo relacionado à dependência e ao ato de agir similar à uma criança). Seu primeiro entendimento surgiu, em 1950, a partir de um acontecimento que chocou o psicanalista Takeo Doi, no qual o doutor respondeu à uma paciente que o perguntou se devia participar de festas de fim de ano em família, como resposta óbvia, ele disse “você decide”.
Ao ser questionado sobre algo tão pessoal e de escolha individual, o médico se surpreendeu pelo ato inesperado de uma adulta saudável se mostrar submissa, manhosa e com atitudes infantilizadas, apresentando uma certa dependência. Essas características peculiares deram início a um estudo no qual se acreditava ser o reflexo, não apenas de alguns japoneses, mas sim, da sociedade japonesa em geral.
A princípio, o Amae de Doi era semelhante à dependência entre pais e filhos, de modo que um indivíduo agia de maneira inocente, tímida, dengosa e fofa no intuito de adquirir atenção, cuidado e resposta positiva de um terceiro, algo observado principalmente no comportamento da população do Japão que possui um padrão estereotipado de pessoas introvertidas, encabuladas, contidas, que se desculpam com frequência e parecem frágeis e ingênuas.
Por vezes, essa conduta é considerada submissão, embora muitos a utilizem para adquirir benefícios, tanto no trabalho quanto no próprio lar. Assim, esse conceito foi desenvolvido e verificado em costumes e tradições de diversos países, sendo visto no cavalheirismo, em simples atos de carregar objetos para uma mulher, assim como no machismo, quando uma figura feminina é relacionada à ideia de cuidar do marido.
Além disso, a informalidade e a liberdade tomadas com pessoas próximas ou distantes são comparadas à inocência infantil e praticadas especialmente entre os ocidentais, exemplos disso são os modos descontraídos ao entrar na casa de um familiar ou amigo e as conversas sobre assuntos íntimos.

Por vezes, conduta é considerada submissão (divulgação)

Consequências
Entre os japoneses, a personalidade Amae entra em certa contradição, pois, para muitos, é considerada imaturidade, enquanto que para outros é essencial para um bom relacionamento, uma vez que atitudes submissas, inocentes e fofas tendem a gerar empatia com maior facilidade. Dessa forma, no Japão, a cultura é bem aceita, já que na maioria das vezes as pessoas do país se mostram mais sérias e inatingíveis, de modo que a atitude infantilizada se torna uma maneira de quebrar muros e demonstrar fragilidade.
O problema desse tipo de comportamento é seu uso incorreto, uma vez que é importante interpretar a aceitação do outro indivíduo, o quão íntimos são e se sua idade e status tornam essa atitude favorável. Assim a negação do ato pode acontecer principalmente em casos extremamente exagerados em que não há proximidade com o interlocutor, provocando no locutor uma sensação de frustração e vergonha.

Outros pontos negativos do Amae podem ser:
Origem: essa cultura pode surgir de duas maneiras no ser, sendo uma forma natural de imitação do padrão da sociedade ou por questões de traumas da infância, como por exemplo a ausência de atenção e carinho. Desse modo, é fundamental compreender sua origem e tratar, caso seja um reflexo de problemas psicológicos;
Fortalecimento da hierarquização: dificilmente é visto alguém com status mais alto realizando o Amae e, se o fizer, o fará de maneira sutil, quase que imperceptível. A ação realizada com frequência por pessoas submissas e consideradas fracas pode gerar o fortalecimento da hierarquização promovendo o efeito contrário do desejado, ou seja, relacionamentos abusivos tanto em casa quanto no trabalho, sem a presença de empatia, amor e cuidado;
Dependência emocional: às vezes, até mesmo a aceitação da atitude pode ser negativa a quem o faz, isso porque cria a dependência emocional e psicológica da pessoa que precisa do amor de outra para se sentir completa e feliz, em situações de término ou distanciamento, pode haver frustração e tristeza.
Dessa forma, o Amae é uma prática necessária para bons relacionamentos, quebra de conduta séria e formal no trabalho, diminuição do estresse e aumento de empatia, porém deve ser executado com moderação e consciência, sem a existência da dependência do outro para se sentir realizado.
Algo só é bom na vida quando é para adicionar e não completar ou subtrair, até porque cada indivíduo já é completo por si só.

Importante é entender que não se trata de algo exagerado (divulgação)

Como não confundir o Amae e outras relações
Infelizmente, a cultura Amae ainda é muito confundida com relações abusivas e sexistas, já que, na maioria das vezes, é relacionada com a ideia da mulher submissa, fraca e dependente do homem corajoso, forte e capaz de dar amor, carinho, cuidado e tudo mais que a figura feminina precisar. Apesar disso, essa tradição está muito mais ligada ao indivíduo que pede ou se comporta de maneira inocente e recebe uma reação positiva em troca.
Logo pode ser observado no fato de uma pessoa pedir presentes a outra que possui um relacionamento mais íntimo (seja amigo, parceiro ou parente), no cuidado que um indivíduo toma com outra que está em situação física ou emocional ruim, na empatia por alguém perdido em uma cidade desconhecida, no ato de desabafar e ser amparado e, até mesmo, no auxílio em tarefas que o outro não consegue fazer ou tem dificuldade.
O importante desse tipo de relacionamento é entender que não se trata de algo abusivo ou exagerado, é o querer atenção, cuidado e ajuda de forma delicada e íntima, e se sentir satisfeito com a aceitação. Atitude tomada desde a infância e que se mantém em muitos indivíduos, sejam orientais ou ocidentais, pois a troca de amor, bons sentimentos e compreensão nunca é demais.
(Mariana Kisaki)

Comentários
Loading...