TRADIÇÃO: Os significados do Ireihi e do Kakochô e suas importâncias

No dia 18 de junho passado, dia da imigração japonesa no Brasil, foi comemorado os 112 anos de História da Imigração Japonesa com realização de vários eventos pelo Brasil. Um deles que merece destaque foi o Grande Culto realizado pela Federação Budista do Brasil em conjunto com o Governo Japonês e as entidades representativas da comunidade nikkei de São Paulo. O culto, que é realizado anualmente no Parque Ibirapuera defronte ao Ireihi (Monumento em Homenagem aos Pioneiros da Imigração Japonesa no Brasil), deixou de ser realizado neste ano devido ao distanciamento social provocado pela pandemia da corona vírus. O culto foi realizado pelo sistema “online”.
Kenren – Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil – tem um importante papel de ligação entre as Províncias do Japão e seus descendentes que moram no Brasil, hoje com a sua maioria na terceira geração e avançando para a quinta geração. É também uma Entidade disseminadora das culturas regionais do Japão através de suas atividades como o Festival do Japão. No contexto da cultura, queremos destacar dois símbolos vivos que merecem o nosso maior respeito. Trata-se de Ireihi e Kakochô que vamos explicar a seguir.
Ireihi – Poucas pessoas conhecem o Ireihi. O Ireihi está situado no Parque Ibirapuera e próximo ao Pavilhão Japonês. Trata-se de um lápide de granito preto polido em formato retangular pesando cerca de 5 toneladas onde se encontra escrito: “Monumento aos Pioneiros da Imigração Japonesa Falecidos”. A caligrafia em japonês é de autoria do ex-primeiro-ministro do Japão Kakuei Tanaka, que ocupou o cargo entre1972 a 1974. O monumento em si, apesar de belo, não atrai atenção daqueles que não conhecem o seu significado. Para reconhecer o seu real valor é preciso conhecer um pouco da história vivida pelos imigrantes pioneiros que desembarcaram do navio “Kasato Maru” em 18 de junho de 1908 no Porto de Santos.
A maioria dos imigrantes recrutados por Ryo Mizuno , conhecido como “pai da imigração japonesa no Brasil”, eram pessoas aventureiras e alguns nem tinham experiência na lavoura; seus sonhos eram de enriquecer trabalhando nos cafezais e retornar ao Japão após fazer o “pé de meia” o mais rápido que pudesse. Entretanto, vivendo em moradias precárias, sem poder se alimentar como no Japão, sem poder falar o português, recebendo um pagamento bem inferior ao que imaginavam, ficaram decepcionados.
Porém, não havia outra saída a não ser continuar com essa vida na fazenda até quitar a sua dívida; muitos chegaram a fugir durante a noite para tentar uma vida melhor em outros lugares. O que mais aterrorizou essa gente foi a malária, doença desconhecida que matou muitos deles sem nenhuma chance de tratamento num hospital que inexistia naquele tempo. Assim, muitos foram sepultados em covas improvisadas nas colônias e com a decadência da terra, foram para outras terras deixando os túmulos em abandono.
São muitos os túmulos abandonados cujos nomes são desconhecidos. Uma coisa é certa: todos vieram do Japão com o sonho de realização, mas muitos sucumbiram sem realizar os seus sonhos. E o monumento foi erguido em memória dos sofridos pioneiros que foram abandonados ao tempo. E, por extensão, serve como homenagem a todos os imigrantes que tombaram nesta terra quer na região Amazônica, quer no interior do Paraná.
O Governo Japonês, reconhecendo a história vivida pelos pioneiros, presta sua homenagem através de visita protocolar de todas as autoridades ao Ireihi. Passaram pelo Ireihi, a família Imperial, primeiros ministros e diplomatas, governadores provinciais, religiosos e cantores da música popular. Pela sua importância que o Ireihi representa para os nikkeis que são descendentes dos imigrantes, queremos que esse pequeno histórico seja divulgado a todos os nikkeis do Brasil a fim de perpetuar a memória desses bravos pioneiros que tombaram nesta terra que os acolheu.
E nós, diretores da Kenren, de segunda e terceira geração, almejamos a passagem do bastão para as novas gerações para que consciente do valor histórico do Ireihi seja preservado, assim como também o monumento em si para o orgulho das comunidades nikkei e brasileira.

Kakochô (livro de nomes póstumos) – capa (esq.) e página interna: estão relacionados o nome do falecido, data de falecimento, idade, seu endereço na ocasião do falecimento, local de origem no Japão e observação (Wakayama Kenjinkai do Brasil)

Kakochô – O que significa essa palavra?   O kakochô que se pronuncia “kakotyô” vem da palavra japonesa . Os dois ideogramas iniciais são lidos como “kako” e quer dizer passado. O terceiro é “cho” e significa livro de registro. O significado exato é “livro de registro de nomes póstumos”. Em famílias japonesas tradicionais, esse livro em formato de caderneta contém os nomes de antepassados da família e ficam no “Butsudan”, ou seja, no oratório Budista que fica geralmente nos aposentos. Dentro do Butsudam, além dos objetos e símbolos sagrados estão também as fotos de falecidos onde a família acende a vela e incenso depositando flores, frutas e alimentos. É uma cultura de raíz budista e ainda é cultuada em algumas famílas no Brasil.
As Associações de Províncias (Kenjinkais) também possuem o seu kakochô onde contém nomes dos associados falecidos. Todo ano é realizado o Grande Culto Budista em homenagem aos japoneses que emigraram para o Brasil. As cerimônias são realizadas em dois lugares. De manhã, diante do Monumento em memória aos Imigrantes falecidos (Ireihi), que fica no Parque Ibirapuera e de tarde, no salão principal da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e Assistência Social, conhecida por Bunkyo.
Nessas ocasiões, cada Kenjinkai leva o seu respectivo kakochô para que a alma dos falecidos encontrem paz e alegria através do culto celebrado em memória deles.
(Fonte: Kenren)

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