SOBRE O CRESCIMENTO EM PEIXES II

Determinação da idade em peixes
Por Sergio Luiz Tutui

Desenho esquemático da relação entre o comprimento da escama na época da formação dos anéis e o comprimento do peixe. Fonte: Fonteles Filho, 1989. Recursos Pesqueiros: biologia e dinâmica populacional

Como discutido no artigo anterior, indivíduos de uma mesma espécie podem apresentar taxas de crescimento distintas, devido aos fatores ambientais e ou genéticos, com isso em momentos diferentes da vida o animal pode apresentar ritmos de crescimento diferentes. Mas, para termos o entendimento de como se dá a dinâmica de crescimento das populações naturais, a fase que realmente interessa corresponde àquela em que os indivíduos se encontram vulneráveis à pesca, pois é muito difícil determinar a idade de indivíduos que não sejam passiveis de captura e, nessa fase, normalmente, a taxa de crescimento se torna mais homogênea entre os indivíduos.
Assim, dentro dos objetivos do estudo da dinâmica populacional, procura-se determinar os parâmetros que definem o crescimento de uma população, através da determinação da sua estrutura etária, ou seja, do número de indivíduos existentes nas faixas de comprimento que definem cada grupo de mesma idade, obtido através da obtenção do comprimento individual em instantes sucessivos de tempo. Com isso, o estudo do crescimento se baseia no cálculo da idade individual, através de quatro métodos distintos:
Leitura de anéis etários em estruturas rígidas: A estimativa da idade a partir de anéis pode ser feita para diversos grupos de animais, utilizando das mais diversas estruturas rígidas. Para peixes, escamas, vertebras, espinhos, otólitos (estruturas ósseas presentes na cápsula auditiva dos peixes, e participam de um sistema relacionado com os mecanismos de equilíbrio e audição), são as principais estruturas utilizadas para esse estudo. A validade do método foi determinada no início do século XIX em espécies de águas temperadas e frias, quando a redução da temperatura da água no inverno leva à paralização do processo de crescimento levando à formação de anéis periódicos e, a partir da segunda metade do século XX, essa metodologia foi validada para espécies tropicais ao se demonstrar que a formação dos anéis periódicos está relacionada ao processo de reprodução. Assim, o número de anéis existentes na estrutura escolhida indica a idade do indivíduo no momento da sua captura e, juntamente com o seu comprimento, fornece as informações necessárias ao estudo de crescimento.

Distribuição de comprimento do camarão branco, de janeiro a dezembro, no Sudeste do Brasil. Fonte: Fonteles Filho, 1989. Recursos Pesqueiros: biologia e dinâmica populacional

Identificação de modas na composição de crescimento: Se fizermos um gráfico para uma única idade, onde inserimos a quantidade de indivíduos por cada comprimento, obteremos uma curva chamada de “curva normal” ou “curva de Gauss” que tem a aparência de sino invertido e o topo dessa curva chamamos de moda. Observando a figura ilustrativa, podemos notar que ao longo do tempo, essa moda vai se deslocando, conforme os indivíduos vão crescendo e o temo necessário para que o valor da moda se desloque permite estimar a taxa de crescimento dessa população.
Marcação: O uso de experimentos de marcação no estudo de crescimento apresenta duas etapas: a. captura, marcação e liberação de um grande número de indivíduos, em data e posição geográfica conhecida e registrando seu comprimento; b. recaptura de indivíduos marcados, data e posição geográfica dessa recaptura e obtenção do comprimento dos indivíduos recapturados. Após alguns anos, quando se tiver recuperado um número suficientemente grande de indivíduos marcados, pode-se calcular a variação média de crescimento por intervalo de tempo e com isso estimar os parâmetros de crescimento da população.
Cultivo: Esse método consiste em manter indivíduos de tamanho conhecido em aquários ou viveiros, registrando seu comprimento em intervalos de tempo regulares. Esse método difere dos anteriores quanto aos objetivos de sua aplicação, pois ao invés de destinado ao estudo do crescimento de populações naturais, tem conotação essencialmente experimental devido à introdução de condições artificiais no processo de criação e basicamente objetivam definir as melhores técnicas de criação a fim de se otimizar a relação custo/benefício.
Se considerarmos a população de uma espécie de peixes explorada pela pesca como uma entidade em constante modificação, é importante não só determinar seu tamanho, mas principalmente, sua variação ao longo do tempo. Nesse sentido, consideramos que a população aumenta devido à reprodução, adicionando novos indivíduos, e ao crescimento dos seus membros. Essa questão por si só já demonstra a importância de se estudar o crescimento dos peixes. Ou seja, estudamos como os peixes crescem para podermos saber o quanto da população cresce e com isso definir o quanto se pode pescar.
Porém, não basta somente saber o quanto e como essa população cresce, também é importante saber como e quanto essa população diminui. Assim, para podermos definir a melhor forma de se fazer a gestão desse recurso pesqueiro, é necessário conhecer também a mortalidade dessa população. E esse é o segundo principal motivo de se saber como os peixes dessa população crescem.
Os principais fatores naturais de mortalidade são a predação e as doenças, que apresentam intensidade de ação com tendências divergentes em função da idade, isto é, indivíduos maiores e mais velhos sofrem menor mortalidade por predação, mas são mais susceptíveis a doenças. Além disso, ao longo do ciclo de vida, a mortalidade natural tem tendência decrescente, mas com taxas extremamente variáveis, p. ex. nas fases de ovo e larva a mortalidade pode chegar a valores de 99,999% (10 em cada 1 milhão sobrevivem).
Com isso, ao longo do ciclo de vida, os indivíduos de mesma idade ficam sujeitos a níveis e elementos predatórios diversos e conforme vão aumentando de tamanho eles se tornam vulneráveis a um número cada vez menor de predadores. Assim, o efeito da mortalidade sobre a população pode ser adequadamente expresso sob a forma de uma taxa que descreve a redução do número de indivíduos de determinada idade ao longo do tempo.
Com isso, para a gestão dos recursos pesqueiros, tão importante quanto o estudo da reprodução dos peixes (discutido nos artigos anteriores), é o do crescimento dos peixes, sendo essas informações imprescindíveis para se tentar alcançar a sustentabilidade ambiental da atividade pesqueira.

*Sergio Luiz Tutui: Doutor em Zoologia pela UNESP. Especialista em Gestão Pesqueira pelo Instituto de Pesquisa Pesqueira da Província de Mie/Japão. Com trabalhos na área de Recursos Pesqueiros, Dinâmica da Atividade e Ecologia de peixes marinhos.

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