SOBRE O CRESCIMENTO EM PEIXES I

Para que estudamos o crescimento dos peixes? Por que passamos pesquisando a forma que os peixes crescem? Para que esse esforço todo?
Texto: *Sergio Luiz Tutui

Ciclo de vida de peixes, demonstrando as fases de vida (ovo, larva, alevino, juvenil e adulto) como um ciclo interminável, com o crescimento existindo em todas as fases. Fonte: https://conceito.de/ciclo-de-vida

É fundamental responder essas questões para se entender que o conhecimento sobre o crescimento dos peixes é muito mais do que meramente curiosidade.
O estudo do crescimento significa, basicamente, a determinação do tamanho do corpo em função da idade. Num sentido mais amplo, o crescimento é um processo interminável, continuando de geração a geração. Em termos de cada indivíduo, o começo do crescimento ocorre na fertilização do óvulo e o alcance da sua maturidade sexual fornece a continuidade do processo, gerando novas gerações, e o seu fim se da pela morte. Assim, o padrão de crescimento de uma população é definido pelo conjunto do crescimento de seus membros.
Os peixes aumentam de tamanho com a idade, mas a sua “taxa de crescimento”, que é o aumento do tamanho por unidade de tempo, decresce à medida que envelhecem então, com o aumento da idade, e consequente maior tamanho, essa taxa de crescimento começa a diminuir e, apesar dos organismos aquáticos terem a capacidade de crescer continuamente, a partir de uma determinada idade (tamanho), essa taxa tende a se tornar insignificante.
Logicamente que os parâmetros de crescimento diferem de espécie para espécie. Mas eles também podem variar de população para população, dentro de uma mesma espécie; por exemplo, para a mesma espécie, os indivíduos que vivem numa região mais fria podem crescer mais rápido ou mais devagar do que os que vivem numa região mais quente.
Além disso, para os indivíduos da mesma espécie que vivem no mesmo local, em anos diferentes podem apresentar um crescimento diferenciado devido às condições ambientais. Por exemplo, uma seca muito forte em um ano, pode diminuir drasticamente o suprimento alimentar, causando uma taxa de crescimento menor do que nos anos em que o suprimento alimentar é normal.
Além disso, em geral os parâmetros de crescimento têm valores diferentes para os dois gêneros. Se houver diferenças pronunciadas no crescimento de machos e fêmeas, então o estudo deve ser realizado de forma separada, definindo o crescimento de cada um.
Como comentado anteriormente, as espécies apresentam as maiores taxas de crescimento durante as suas fases iniciais de vida (da incubação do ovo até as fases jovens), quando são submetidas à elevadas taxas de mortalidade. É interessante notar a relação existente entre mortalidade e crescimento.
As fases de vida que ocorrem as maiores taxas de mortalidade são também as que apresentam as maiores taxas de crescimento, e vice-versa, sendo essas taxas característica da estratégia de vida de cada espécie. Assim, é razoável imaginar que quando as variações naturais do ambiente afetam a taxa de mortalidade, aumentando ou diminuindo devido à mudança nos padrões de chuva, temperatura, disponibilidade de alimento, etc., as taxas de crescimento também se alteram, o que explica o por que de grupos de idades diferentes da mesma população possam apresentar taxas de crescimento diferentes.
Assim, podemos concluir que a composição de uma população pode ser representada pelo número e peso totais dos indivíduos em cada grupo de idade (comprimento), levando-se também em consideração a proporção entre gêneros nesses grupos. Sua importância consiste em que esta é uma das características da espécie, estando, portanto, sujeita a constantes modificações, dentro de certos limites, devido à própria variabilidade ambiental do ecossistema a que pertencem.
Se considerarmos a fisiologia dos peixes, o principal agente responsável pelo desenvolvimento somático (processo em que os indivíduos alteram de forma contínua seu tamanho e forma em um intervalo de tempo – crescimento) dos peixes é o hormônio do crescimento (GH). Esse hormônio possui uma característica chamada “pleiotropia” fenômeno em que um único gene possui controle sobre manifestações de diversas características.
O hormônio do crescimento atua no metabolismo energético, na reprodução, na osmorregulação (equilíbrio de água e sais minerais no organismo), no comportamento alimentar, na imunidade, além do próprio crescimento.
Vários elementos são responsáveis por estimular ou inibir a síntese do hormônio de crescimento, dentre eles: a quantidade e disponibilidade do alimento, a qualidade nutricional do alimento, gênero e idade, estresse e fatores ambientais tais como o fotoperíodo (número de horas de exposição à luminosidade), o oxigênio e a temperatura.

Desenho esquemático da curva de crescimento estimada para peixes. Com os peixes mais jovens apresentando taxas de crescimento maiores e os mais velhos com crescimento menor.

Assim, consideramos que as espécies de peixes têm uma certa “plasticidade” nas suas estratégias de vida, que permite, até certos limites, se adequar às variações naturais do ambiente e, no caso de espécies capturadas pela pesca, suportar o acréscimo da mortalidade por pesca. Com isso, o padrão de crescimento das populações sujeitas à pesca deve ser reavaliado periodicamente, tendo em vista sua dependência às variações temporais e ambientais e consequente verificação do equilíbrio dessas populações à intensidade do esforço de pesca.
Em termos do estudo de populações naturais, o aspecto mais importante do estudo do crescimento, é determinar a variação do comprimento e peso individuais em função da idade (curva de crescimento), por onde se pode avaliar se a população, num determinado período, apresenta saldo positivo ou negativo de biomassa em função dos ganhos por crescimento e perdas por mortalidade. Por outro lado, para as populações confinadas (cultivo), procura-se determinar a taxa de crescimento sob as condições ambientais e de alimentação, visando a maximização do ganho de peso com menor custo.

*Sergio Luiz Tutui: Doutor em Zoologia pela UNESP. Especialista em Gestão Pesqueira pelo Instituto de Pesquisa Pesqueira da Provincia de Mie/Japão. Com trabalhos na área de Recursos Pesqueiros, Dinâmica da Atividade e Ecologia de peixes marinhos.

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