Quando Deus falava chinês- Parte 2

Guerreiros de terracota

Após a unificação dos sete reinos, sendo ele o vencedor Shih Huang Ti, iria mostrar uma face cruel e extremamente autoritário, considerando-se no primeiro imperador do que passou a se chamar China. Conforme a religião local, ele se proclamou também num deus ao lado de todos os demais deuses do panteão nacional. Isso era possível, desde que os próprios deuses aprovassem e, igualmente, o abençoassem no posto.

De fato, ele mostrara a sua superioridade ao vencer os reinos vizinhos, que submeteram-se àquele poder. Não quer dizer, que ele obteve a confiança de todos, ou o contrário. Ao mesmo tempo que Shih acreditava ser um deus, passou a não confiar em ninguém. O que se sabe dele, é que  a própria mãe o traíra, ao envolver-se com um homem que planejava tomar-lhe o poder. Este homem teria se disfarçado num eunuco e assim penetrado nas instalações da mãe. Ao contrário de um eunuco, este homem tinha um enorme apetite sexual, que agradara a mãe. Dois filhos teriam nascido deste relacionamento. Quando Shih descobriu, mandou decapitar o homem, como também os descendentes, e exilado para distante a mãe.

Seus métodos eram considerados cruéis, decapitando e destroçando os seus inimigos. Esta atitude servia para aumentar o ódio em seu redor, enquanto para ele se tornava um fator de supremacia. Quando resolveu construir a grande muralha para impedir o avanço dos bárbaros, toda uma população teve que se deslocar para o trabalho em condições desumanas. Falava-se em um milhão de trabalhadores. Em torno de 100 mil teriam padecido. Os seus corpos eram postos na própria muralha junto a liga. A grande muralha, mais tarde, findo do trabalho, estendia-se por 7 mil e trezentos quilômetros para proteger as terras ao norte da China.

Antes, esta mesma população teve que lutar em batalhas sucessivas, ameaças de punição e castigos diversos. Para Shih o seu poder se consolidava na medida que somava feitos para a segurança do país e para o seu próprio bem estar, em busca de reconhecimento e autoridade para agir da maneira desejada. Uma vez que o norte estava protegido, ao sul os vietnamitas passaram a ameaçar, atacando de maneira subrepticiamente. Diferente de outros sítios, ao sul, havia imensos bosques, em que os nativos confundiam-se com as sombras e lançavam dardos provocando uma morte silenciosa. Mas ao final, a vitória estava ao lado do exército de Shih. Nada mais o ameaçava… Não foi bem assim. A própria população, sem contar os ministros e cortesões, passaram a temer a obsessão de Shih. Ele que não confiava em ninguém, assim nunca se casou.

Houve tentativas várias em assassinar Shih. Isso acontecia na corte imperial. De algum lugar muito próximo, uma espada poderia desferir um golpe. Um envenamento era possível. Uma flecha poderia ser disparada por algum inimigo disfarçado de guarda imperial. Qualquer um seria um suspeito. Até mesmo um conselheiro poderia ser uma ameaça. Foi quando um desses conselheiros, Chun Yu Ie, arriscou ao invés de enaltecer a Shih aconselhou-o a ouvir os antigos através da leitura de seus escritos. Shih não gostou do que ouviu. Não queria saber dos antigos, vistos como ultrapassados e um tanto ameaçadores para os tempos modernos. Era o tempo de Shih. Era o tempo da filosofia do legismo, defendido na corte por Li Se.

Foi ao concordar com Li Se que Shih ordenou que todos os escritos fossem destruídos. É um dos registros mais sensacionais do passado, a queima dos livros. Os estudiosos da corte passaram a ser perseguidos por Shih, negando a pedagogia confucionista da boa educação. Nenhuma opinião adversa da sua seria permitida. Somente a vontade do monarca tinha relevância. Os que eram acusados de traição, intelectuais e estudiosos, muitos deles eram enviados para o trabalho forçado na grande muralha. Isso sem contar que os críticos do governo poderiam ser enterrados vivos.        Enquanto isso, a justificativa destes atos teria que ser aprovada pelos deuses. Através de presságios os deuses se comunicavam mostrando contentamento ou não. Um cometa que passasse cortando o céu, em forma de vassoura, poderia ser interpretado como um mal presságio.

O próprio Shih deveria realizar sacrifícios aos deuses e assim justificar-se como imperador, mas também um deus sobre a Terra. Não era o que o imperador esperava. Os maus presságios se tornavam comuns, sem que o imperador se importasse com isso. Havia uma paranóia que tomava conta da sua mente. Esta situação piorava. Cada vez mais, pelo visto, os deuses iam contra as metas de Shih. Isso veio a acontecer quando Shih foi ao monte Tai e realizou um sacrifício aos deuses, exigindo deles a confirmação de seu estatuto divino. Não era para revenciá-los mas colocar-se como igual. Conforme o lenda, uma tempestade se formou, pressagiando algo negativo: não fora aceito pelos deuses.

Ainda assim, Shih insistia na própria divindade. Queria a imortalidade, contratando alquimistas para criar uma poçáo para este fim. Foi por ingerir mercúrio, que ele acabou morrendo. Mas antes, mandou confeccionar os guerreiros de terracota, 8 mil deles, para guardar o seu túmulo. Estes guerreiros foram descobertos em 1974 na província chinesa de Xianxim. O que se sabe é que um dia Shih Huang Ti retornaria a vida e o espírito dos antigos guerreiros animariam as estátuas de terracota. Todos eles com armaduras, muitos são soldados, outros generais, também cavalos e carruagens.

Esta é a história de Shih Huang Ti,o primeiro imperador da China, que consolidou o seu poder em 221 a.C. E morreu em 210 a.C. aos 49 anos .Temia a traição e após a morte foi traído justamente por Li Se, o primeiro-ministro, que alterou seu testamento, passando o poder para o  filho menor. Um filho fraco e incapaz de proteger o poder.

 

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