PROJETO NETWORK: Bunkyo e Ciate celebram os 30 Anos da Comunidade Brasileira no Japão com série de lives

Participantes do Painel sobre Educação moderado por André Saito (acima, à esquerda) (reprodução)

Para comemorar os 30 Anos da Comunidade Brasileira no Japão, o Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social) – por meio de sua Comissão do Projeto Network – e o Ciate – Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior – promovem este mês uma série de lives com o tema. A programação teve início no último dia 6, com a cerimônia de abertura que reuniu autoridades dos dois países. Marcaram presença o embaixador do Japão no Brasil, Akira Yamada; o embaixador do Brasil em Tóquio, Eduardo Saboia; o cônsul geral do Japão em São Paulo, Ryosuke Kuwana e a diretora do Departamento Consular do Ministério das Relações Exteriores, Luiza Ribeiro Lopes da Silva, além do presidente do Bunkyo, Renato Ishikawa, do presidente do Ciate, Masato Ninomiya e convidados especiais como o desenhista e empresário Mauricio de Sousa.

Renato Ishikawa (reprodução)

Uma das preocupações do evento, que tem dois temas principais – trabalho e educação – é ressaltar não só as dificuldades enfrentadas por aqueles que decidiram fixar moradia no Japão e também pelos que optaram em regressar ao seu país de origem, como mostrar também “o lado humano” – como enfatizou o presidente do Bunkyo, Renato Ishikawa – “com seus problemas, suas conquistas, realizações e sonhos”.
Casos do advogado Renan Eiji Teruya e do médico Yuji Shimada, que participaram da primeira live do dia 7, que contou ainda com as participações do Conselheiro Encarregado de Estabilização de Emprego no Gabinete do Ministro de Estado da Saúde, Trabalho e Bem Estar Social do Japão,   Yukihisa Shimura; do presidente da Associação de Japoneses e Nikkeis Residentes no Exterior – Kaigai Nikkeijin Kyokai, Katsuyuki Tanaka; do diretor da Divisão Política de Emprego dos Estrangeiros, do Ministério de Saúde, Trabalho e Bem Estar Social do Japão, Katsumi Ishizu; do presidente do Conselho de Cidadãos, junto ao Consulado Geral do Brasil em Tóquio, Arthur Muranaga; do presidente do Sabja – Serviço de Assistência aos Brasileiros no Japão, Norberto Shinji Mogi e da estudante Renata Harumi Oshiro.

O advogado Renan Eiji Teruya (reprodução)

Choro – Renan e Yuji percorreram o caminho inverso de seus ancestrais ainda jovens – Renan tinha oito anos e Yuji apenas um ano e meio de idade – enfrentaram dificuldades e hoje conseguiram colocação no mercado japonês em suas respectivas áreas. Inscrito na Ordem dos Advogados da Província de Aichi, Renan relatou sua trajetória desde que sua mãe decidiu arrumar as malas e seguir para o Japão, no ano de 2000, até a escolha de sua carreira, passando pelo período de adaptação nas escolas japonesas.
“Não esqueço até hoje, no primeiro dia de aula me pediram para me apresentar para uma sala cheia, com 30, 40 alunos. Acontece que eu era e ainda sou muito tímido e mal sabia falar japonês. Fiquei congelado e me desmorenei em choro”, conta, acrescentando que, depois desse fatídico dia, sua sala virou um “ponto de atração” com alunos de outras salas curiosos para vê-lo.
“As aulas foram difíceis, principalmente o kanji e o katakana me atormentavam Para falar a verdade até hoje tenho dificuldades com a escrita japonesa”, revela o advogado, afirmando que, apesar disso, “não odiava a escola”. Longe disso.
“Entre os alunos, a comunicação não é somente verbal, mas muito através de brincadeiras”, conta. E foi assim, brincando, que ele aprendeu o japonês. Não que suas notas tenham melhorado. “Era mais fácil pegar a lista de trás para frente”, se diverte, explicando que começou a sentir atração pela advocacia por influência de uma novela e de um game muito popular na época.

Futuro – Determinado a seguir seu sonho, ingressou numa escola particular e, “por sorte”, contou com a ajuda do professor, que o tratava como mais aluno “não como um estrangeiro”. Na época, começou a trabalhar como voluntário num projeto de apoio educacional para crianças brasileiras. O curioso é que foi a primeira vez que teve contato com outros brasileiros. Foi então que descobriu que as crianças brasileiras tinham as mesmas que ele tivera.
“Não conseguiam pensar sobre seus futuros e, portanto, não conseguiam falar sobre seus sonhos. Perguntava para elas o que gostariam de ser no futuro mas elas não vislumbravam o que queriam porque sequer sabiam que profissão poderiam seguir”, conta, atribuindo isso ao fato de que, às vezes, muitas famílias não dão a devida importância aos estudos dos filhos por não saberem por quanto tempo vão ficar no Japão. “E por isso não valorizam os estudos”, afirma.

Abençoado – Aprovado em 2016 e convidado no ano seguinte a estagiar no escritório do advogado Masato Ninomiya, no Brasil, Renan se considera “abençoado”.
“Hoje sou advogado graças ao apoio de muitas pessoas, como minha mãe. Fui muito abençoado por ter sempre pessoas maravilhosas na minha vida”, diz ele, que retornou para o Japão em 2018 determinado a ajudar os brasileiros residentes no Japão. “Tenho certeza que nesse processo o ambiente gradativamente vai melhorar e as novas gerações que irão sustentar esse mundo viverão num mundo melhor”. Por enquanto, ainda vive muito atarefado com as questões envolvendo os dekasseguis, nos mais variados assuntos. “Os ambientes que os cercam no Japão infelizmente ainda são muito duros e a proteção legal ainda está longe de acalentá-los”, observa.

Masato Ninomiya (reprodução)

Obstáculos – O presidente do Ciate concorda. “O Ciate tem trabalhado há 28 anos em prol dos brasileiros que vão trabalhar no Japão, prestando informações e cursos para não eles não se apertarem lá. Vinte e oito anos é um longo tempo e espero que tenhamos contribuído de alguma forma para ajudá-los. São cerca de 210 mil brasileiros que moram atualmente no Japão e 500 mil brasileiros que foram e vieram nesses últimos anos. Todos estão de parabéns, mas não é momento de comemoração, temos muitos obstáculos e muitos problemas para serem resolvidos daqui para frente”, pondera Masato Ninomiya.

Yuji Shimada (reprodução)

Sacrifício – Nascido na cidade de Cuiabá (MT), Yuji Shimada é formado pela Universidade de Shiga e trabalha atualmente como médico residente no Hospital de Tóquio. Assim como Renan, ele também deu seu depoimento em japonês. Falou que estudou em escola provincial – o que equivale à escola estadual no Brasil – e que se interessou pela carrerira de Medicina no primeiro ano colegial. Contou que, “como toda família de dekassegui no Japão, também não era de família rica”. “Consegui me adaptar à vida no Japão para realizar meu sonho”, disse, afirmando que jogar partidas de futebol com os amigos foi importante para essa adaptação.
Paralelamente à escola, lembra que frequentou aulas de reforço. “Meus pais se sacrificaram por mim. Eles não dominavam a língua japonesa mas procuravam se esforçar trabalhando e piorizavam meus estudos em detrimento do orçamento familiar. O que meus pais fizeram foi criar um ambiente propício para que eu pudesse estudar e seguir adiante. Graças a eles pude realizar o meu sonho”, explicou, observando que chegou a sentir “uma certa vergonha por ser brasileiro pois na cidade em que morava a imagem dos brasileiros não era muito boa”. “E quando ia para o Brasil não conseguia falar português direito. Era uma situação difícil”, conta, afirmando que seu pensamento mudou durante o convívio com os colegas de faculdade. “Eles diziam que o fato de não falar português era uma característica minha. E passei a entender melhor a cultura de ambos os países e a pensar de forma mais positiva, o que me despertou uma curiosidade maior sobre a cultura brasileira”, diz ele, que teve oportunidade de estagiar durante dois meses em um hospital de Cuiabá. “Assim consegui ter uma visão mais internacional das coisas”, disse Yuji Shimada, que espera ver outros nipo-brasileiros atuando dentro da sociedade japonesa.

Educação – A programação prosseguiu no dia 7 à noite com um roda de conversa sobre trabalho para emigrantes no Japão com Edilson Kinjo (fundador da NPO SAB – Associação Amigos do Brasil); – Vanessa Handa (consultora na área trabalhista, previdenciária e gestão de pequenas empresas); – Ricardo Yamamoto (no Japão desde 2015 para trabalhar na PwC Japão, na área de Financial due diligence) e Yuji Teruya (produtor de conteúdo em vídeos para internet, atua no setor de Comunicação e Informação em uma empresa japonesa).
No domingo (8) de manhã o painel sobre educação no Japão reuniu, num bate-papo descontraído e emocionante, quatro jovens brasileiras: Mônica Yukari Miyagi (que está no último ano do curso de Culturas Internacionais da Universidade de Arte e Cultura de Shizuoka); Jennifer Yamamoto (cursando Relações Internacionais na Tokyo International University); Barbara Mrtvi (que está fazendo Psicologia com especialização em Economia na Temple University – Japan Campus); e Fernanda Tajima (que concluiu Letras com especialização em Inglês na Nagoya Gakuin University), além da professora Maria Shigemi Ichiyama (diretora do Centro de Ensino de Idiomas da Josai International University).
A conversa, facilitada pelo professor e consultor em gestão do conhecimento e inovação e voluntário do Projeto Network e do projeto Kakehashi, André Saito, e pelo coordenador do evento Philipe Yoshio, voluntário do Projeto Network, abordou os desafios de continuar os estudos no Japão e como enfrentar esses desafios. As painelistas também falaram sobre a opção entre escola brasileira e japonesa.

Medo – Das quatro estudantes, apenas Mônica Yukari Miyagi, que nasceu no Brasil e foi para o Japão com 8 anos de idade, estudou em escola pública japonesa. Segundo ela, que teve uma adaptação rápida, a escolha foi feita pelos pais pelo fato de a escola japonesa ser mais barata que a brasileira.
As demais – Jennifer e Barbara e Fernanda frequentaram escolas brasileiras. Para elas, a escolha, muitas vezes, acontece pela dúvida das famílias de algum dia querer retornar ao Brasil. E também por “medo” das escolas japonesas já que “ouviam certas histórias, como alunos que não deram certo e por acontecimentos desagradáveis”.
Mônica conta que superou esses problemas com “certos cuidados”. Sua mãe, por exemplo, procurava deixar sua merenda “mais parecida” com das coleguinhas para não causar estranheza.
Sobre a experiência da faculdade, Mônica disse que depois que entrou na Faculdade sempre participou de projetos para ajudar outros brasileiros no Japão, trabalho que pretende continuar, principalmente agora, na questão envolvendo o bem estar social dos idosos.
Para Bárbara, a experiência proporcionou conhecer não só o lado acadêmico como também a fez se interessar mais pela cultura japonesa, “apesar de a faculdade ser americana”. Para Jennifer, a experiência na Universidade “mostou que é possível fazer” e pela “diversidade de cultura”.

Cônsul Kuwana (reprodução)

Força motriz – Para o cônsul Ryosuke Kuwana, “os brasileiros que residem no Japão e os brasileiros nikkeis que retornaram ao Brasil são forças motrizes para um maior fortalecimento das relações entre os dois países”. “Acredito que a comunidade nikkei no Brasil e os descendentes retornados, com ampla experiência no Japão, possam atuar em conjunto apoiando-se mutuamente. Afinal de contas esses jovens serão os responsáveis pela realização futuras relações entre o Japão e o Brasil. Sendo assim é de extrema importância conceder apoio a estes descendentes que vivem no Japão e aos retornados ao Brasil. O governo japonês deseja apoiar ao máximo este tipo de iniciativa”, afirmou, acrescentando que “ficou feliz em saber que os jovens nikkeis estão liderando iniciativas como essa e que os membros da Comissão Projeto Network organizaram este evento com muita dedicação”.

Embaixador Yamada (reprodução)

Alicerce – Já o embaixador Akira Yamada considera que o “alicerce importante entre os dois países é a comunidade nikkei no Brasil e a comunidade brasileira no Japão”. “Nos últimos 30 anos os brasileiros que vivem no Japão tem contribuido para a economia japonesa e o entendimento mútuo entre o povo japonès e o brasileiro. Apesar das várias dificuldades enfrentadas, espero que os esforços das partes interessadas em ambos os países ajudem os brasileiros que vivem no Japão a se adaptarem ainda melhor à comunidade local e a levarem uma vida mais frutifera”.

Desafios – Para o embaixador do Brasil em Tóquio, Eduardo Saboia, “aqui (no Japão) ainda há desafios a serem superados”. “Desafio no campo da educação, desafio no aprendizado japonês, na manutenção da língua de herança e também em questões ligadas à formação. Queremos que os brasileiros aqui tenham as mesmas oportunidades (que os imigrantes japoneses tiveram no Brasil), que possam não só trabalhar em fábricas mas também ter acessos às universidades e se tornarem empreendedores”, destacou.

O projeto – Coube ao vice-presidente do Bunkyo, Marcelo Hideshima, falar sobre o projeto Network. Segundo ele, a politica de estreitamento das relações entre o Japão e a América Latina surgiu em consequència da visita do então primeiro-ministro do Japão Shinzo Abe ao Brasil, em 2014, e na Argentina, em 2016. “Após essas visitas o primeiro-ministro enalteceu a importância de incentivar o fortalecimento das relações das comunidades nikkeis dos países da América Latina e Caribe”, disse, lembrando que em 2017 resultou o relatório painel dos intelectuais sobre a colaboração futura e medidas concretas visando o fortalecimento destas ações.
“E desde 2019, o governo do Japão, através do Minstério dos Negócios Estrangeiros, vem concedendo apoios financeiro em projeto que busquem a promoção, o estímulo, o intercâmbio e a expansão de redes de contatos, atraindo as novas gerações a participar de atividades onde temos a presença da comunidade nikkei, afim de fortalecer, integrar e contribuir diretamente para o desevolvimento da sociedade local”, afirmou.
Até que no ano passado, o cônsul geral adjunto, Akira Kusunoki e a cônsul Reiko Nakamura, sugeriram a criação de um projeto voltado especialmente aos filhos dos retornados do Japão para que pudessem aumentar a compreensão de suas experiências e proprocionar a troca de informações, buscando o acolhimento deles e o apoio de várias organizações que pudessem agregar conhecimentos e contribuir para a sua formação e integração na sociedade brasileira e em especial na comiundade nikkee.
“Assim, surgiu o projeto Newtwok, organizado pelo Bunkyo com apoio irrestrito do Consulado Geral do Japão em São Paulo e também da Fundação Kunito Miyasaka. Desta forma, eperamos continuar a nos relacionar com este público muito especial e que tem um papel importante nessa relação com o Japão”, destacou Hideshima.

Serviço – O Projeto Network “30 anos da Comunidade Brasileira no Japão” prossegue nos dias 21, às 20 h (horário de brasília), e no dia 22, às 8 h (sempre pelo horário de Brasília)
Transmissão: www.youtube.com/bunkyodigital e https://www.youtube.com/channel/UCRLdCIOWNZf35CDb7J6XUFQ/
Informações: www.bunkyo.org.br e www.ciate.org.br
Inscrições antecipadas:
https://forms.gle/HEuoPKLEyxX1D45n8

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